“Educação em tempo integral não é sinônimo de educação integral”

O Ministério da Educação (MEC) anunciou na última quinta-feira (15/9) que estuda ampliar de 32 mil para 60 mil o número de escolas em tempo integral no Brasil, até 2014. Para a professora Cláudia Valentina Galian, do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), é preciso diferenciar a ampliação do tempo de permanência na escola da busca pela integralidade da formação do estudante.

“Educação em tempo integral não é sinônimo de educação integral”, afirmou a docente durante o I Seminário Universidade e Escola Pública, ocorrido na semana passada na USP. Galian acredita que, na maioria das escolas públicas, a educação integral é vista apenas como uma forma de ocupar o tempo extra das crianças no ambiente escolar.

“Sabemos que em muitas escolas particulares existe uma busca real pela formação integral, com trabalhos caminhando no sentido de ampliar a possibilidade de acesso a um pensamento relacional. Já na escola pública, prevalece apenas uma ideia de ocupar o tempo extra dessas crianças.”

Para distinguir ambas as perspectivas, a professora resgata, de um lado, algumas diretrizes educacionais para esses modelos e, de outro, experiências ocorridas no Brasil que, segundo ela, podem ajudar a entender o tipo de ensino que está sendo oferecido hoje quando se fala em educação integral.

Diretrizes

A primeira resolução que aponta para a educação integral é de um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultural (Unesco), de 1972. Chamado de Ensino Geral, o termo se refere à disponibilização de conhecimentos socioeconômicos, técnicos e práticos, em prol da adaptação dos jovens aos diferentes trabalhos.

“É a ideia de aprender pela vida toda”, explicou a docente durante o evento. Em outro eixo, o relatório usa o conceito de Cidades Educadoras, “baseado na ideia de que a educação ultrapassa a escola e toda a cidade é potencialmente formadora.”

Já na década de 90, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, 1996), apesar de não usar o termo “educação integral”, fala no “pleno desenvolvimento do educando” e na ampliação da jornada do Ensino Fundamental para o regime de tempo integral, medida que se estenderia à educação infantil apenas com o Plano Nacional de Educação (PNE), em 2001.

“Com a ressalva de que isso seria destinado às famílias com menor poder aquisitivo para que os pais pudessem trabalhar. Um exemplo de escola em tempo integral mais voltada para uma questão prática do mundo do trabalho, do que para a formação integral dessas crianças”, analisou Galian.

Em São Paulo, no ano de 2005, a resolução 89 [que trata do Projeto de Escola Integral] declarava que seu objetivo era prolongar o tempo de permanência na escola, de 5 horas para 9 horas, a fim de ampliar as possibilidades de aprendizagem. “Nesse caso, podemos entender que é a mesma escola de sempre, com o tempo extra preenchido com outras atividades, não necessariamente de cunho escolar”, acrescentou.

Em 2006, ainda em São Paulo, um documento da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (Cenp) sobre as diretrizes para as Escolas de Tempo integral apresenta a educação como “alavanca de um processo que visa a formação de pessoas aptas a exercerem sua plena cidadania”. Segundo o texto, isso se daria pela “ampliação do tempo físico com a intensidade das ações educacionais”.

“Mais uma vez, está prevista a manutenção do currículo básico do Ensino Fundamental, enriquecido com procedimentos metodológicos inovadores, o que aponta para uma perspectiva de que o necessário é ter métodos melhores. Não me parece uma discussão muito profunda a respeito ‘do que’ se faz e sim ‘de como’ se faz”, afirmou Galian.

Experiências

Galian elencou também duas experiências brasileiras que adotaram a educação integral como modelo. Uma delas, ocorrida na década de 1950, foi criada por Anísio Teixeira, na Bahia, e se chamava Centro Popular de Educação Carneiro Ribeiro. “Tinha como conceito geral uma escola única, voltada para todas as pessoas, independentemente da classe social de origem”, relatou a educadora. Parte das atividades era realizada na Escola Classe – destinada ao desenvolvimento intelectual e às práticas racionais – e o restante na Escola Parque – voltada para atividades ligadas às artes, ao mundo do trabalho e ao esporte.

Na década de 80, no Rio de Janeiro, os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) declaravam como objetivo, segundo Galian, “revolucionar o sistema educacional”, de modo a diminuir os índices de evasão e repetência. “Portanto, a ideia era a jornada de um dia inteiro em escolas novas, equipadas com salas de aula, salas de leitura e com um projeto arquitetônico especial. Eram escolas de tempo integral que diziam buscar também a educação integral dos alunos.”

Segundo Galian, uma das preocupações associadas à criação dos Cieps era solucionar a questão da violência urbana. “O sentido era retirar as crianças e jovens das ruas, resguardando a sociedade do risco que isso poderia representar. Acho importante relembrar esse detalhe porque hoje também aparece como uma chamada forte”, alertou.

A docente concluiu que a educação integral se dividiu, ao longo do século XX, em diferentes abordagens: uma que visava articular formação intelectual com manual; outra que propunha ampliar o acesso a bens culturais; outra, ainda, que era vista como uma forma de tirar os jovens das ruas; e também aquela que tinha o objetivo de ampliar o tempo de contato com o conhecimento, buscando novas configurações de tempo, espaço e saberes.

Comente

   Os comentários serão publicados após aprovação. Comentários com ameaças, ofensas pessoais, pornografia infantil, conteúdos preconceituosos ou qualquer outro que viole a legislação em vigor no país serão excluídos.
   Todo e qualquer texto publicado por meio do sistema de comentários não reflete a opinião do Portal Aprendiz ou de seus autores.

(1) Comentário

  1. Olá.Boa tarde.Concordo com a Profa.Valentina.Tempo integral na escola não significa necessariamente educação integral e de qualidade…………..Pode ser uma estratégia educacional equivocada e falseada.Pode ser uma maquiagem, ou seja, para todos os efeitos , caso se confirme este tipo de exposição educacional, a educação está sendo amalgamada num projeto visando o bem estar e desenvolvimento dos alunos.Não se pode tratar de um assunto no âmbito educacional tendo um olhar míope e enviesado. Não basta quantidade de horas,mas sim qualidade de horas no eixo educação/educadores.É imperioso que a educação no Brasil tenha o tripé REGRAS,LIMITES e DISCIPLINA.Ser permissivo não é ser assertivo.
    att
    suely bischoff machado de oliveira
    psicóloga pela UNESP
    crp06/8495
    atibaia/sp