Mães da Sé


Ivanise na sede da organização. Na mesa, foto das filhas Fabiana (esquerda) e Fagna (direita).

Ivanise Esperidião da Silva Santos completa 50 anos nesta sexta-feira (4/11). Há quase 16, sua vida é uma peregrinação constante: a busca pela sua filha desaparecida. “Nunca mais comemorei Natal, porque ela desapareceu perto dessa data, nem ano novo, pois o aniversário dela é em janeiro”, conta. Fabiana saiu de casa em 23 de dezembro de 1995 e não voltou mais. Tinha 13 anos. “Atualmente, já está com 29”, diz a mãe.

Hoje, Ivanise é referência de luta e trabalho pela busca de desaparecidos. Junto com Vera Lúcia Gonçalves, que também tem uma filha desaparecida há 19 anos, criou a Associação Brasileira de Busca e Defesa à Criança Desaparecida, a Mães da Sé. Presidenta da ONG, Ivanise descobriu que não está sozinha. “Fui aprendendo a dividir minha dor e me fortalecendo. Aprendi a brigar por mim e por elas”, fala emocionada.

Até 31 de março de 2011, quando completou 15 anos, a organização já havia cadastrado 9322 pessoas desaparecidas. Destas, 2563 foram encontradas vivas – pouco mais de 27% do total – e 209 estavam mortas. “São mães de praticamente todo o território nacional que procuram seus filhos e pedem ajuda aqui.”

“Não encontrei ainda a minha filha, mas já dei respostas para muitas mães. Em alguns casos, não foi uma resposta positiva, mas a busca chega ao fim. Vejo a Fabiana em cada uma dessas pessoas encontradas”, afirma.

Ivanise abdicou de parte de sua vida para viver em função de uma causa. “Passei a me dedicar quase que exclusivamente a isso. Durante os três primeiros anos, nos reuníamos na minha casa”. Atualmente, a sede da Mães da Sé está localizada na Rua São Bento, no centro de São Paulo (SP). A ONG tem se mantido por meio de doaçoes de pessoas que se identificam com o trabalho.

A organização

Em média, de 20 a 25 mães procuram a ONG por mês, no escritório da Mães da Sé. Além disso, Ivanise atende casos também por e-mail e telefone. “Agora mesmo me ligou um advogado falando que desapareceu uma pessoa de uma família conhecida dele. Queria saber de que forma ele poderia ajudar”, conta.

Quando Ivanise começou, o objetivo era trabalhar com crianças e adolescentes desaparecidos. Mas, desde o primeiro encontro chegaram mães que falavam dos seus filhos adultos. “Eu não podia falar não para elas. Não é porque o filho é adulto que a dor da mãe é menor do que aquela que tem um filho bebê”, diz.

O volume de desaparecidos maiores de idade foi aumentando e hoje a Mães da Sé atende mais esse público do que o infanto-juvenil. Cerca de 80% dos cadastrados têm mais de 18 anos.

No escritório, cartazes e objetos divulgam fotos de desaparecidos.

No Brasil, estima-se que a população desaparecida chegue a 200 mil, sendo que 40 mil são menores de idade – só no estado de São Paulo, são mais de 9 mil, anualmente. Em geral, 15% jamais são encontradas. No caso dos adultos cadastrados na ONG, cerca de 60% são homens. Já entre os adolescentes, existem mais meninas desaparecidas do que meninos.

No dia-a-dia

Cópia do boletim de ocorrência, do documento do desaparecido e uma foto são solicitados para fazer o cadastro do desaparecido, quando uma mãe chega ao escritório. A família assina um termo de autorização para veiculação da imagem e, então, começa o trabalho de divulgação da foto no site da Mães da Sé e nas embalagens de produtos de empresas parceiras.

O Jornal Agora estampa quatro fotos de crianças desaparecidas todas as segundas-feiras em sua páginas. Além disso, oito empresas de concessão rodoviaria fazem as imagens circularem para até além de São Paulo, quando entregam aos motoristas comprovantes de pagamento de pedágios. Atrás, estão as fotos dos desaparecidos.

Outro serviço prestado pela ONG é o apoio psicológico. A mãe pode frequentar um grupo de terapia coletiva, reunido uma vez por semana. O atendimento é resultado da iniciativa do Núcleo de Saúde Coletiva e Direitos Humanos do Mackenzie.

Já na área do direito, a advogada Cléo Dumas faz a assessoria das mães, “porque o desaparecimento torna-se um problema jurídico. Um adulto que desaparece e estava trabalhando, não pode ser demitido por abandono de emprego. Há necessidade da família entrar com um processo de declaração de ausência”, exemplifica Ivanise.

Antes da Mães da Sé
Ivanise nasceu em São Luiz do Quitunde, cidade do interior de Alagoas, a 54 km de Maceió. De família pobre, ela e os nove irmãos ajudavam o pai, agricultor, na roça. Para ela, o trabalho começou aos quatro anos de idade. “Quando criança, quase não brinquei de boneca. Não aprendi a dançar, porque minha mãe não deixava. A educação foi rígida e sem liberdade nenhuma”, relembra.

Para fugir da vida de miséria, Ivanise casou aos 18 anos e foi morar em São Paulo. O marido saia para trabalhar e ela ficava chorando, porque se sentia sozinha. “Então, pensei em constituir minha família. Engravidei da Fabiana, logo em seguida da Fagna”.

“Sempre me achei uma mãe muito presente. Esperei elas crescerem para eu voltar a estudar. Quando entraram na adolescência, terminei o colegial”. Quando a filha sumiu, ela entrou na faculdade de direito. Largou depois de sete semestres. Mas diz que ainda pretende se formar e fazer pós em antropologia.

Desaparecimento da filha

Ivanise criou a Mães da Sé aproximadamente três meses depois que sua filha desapareceu. Por volta das 21h da ante véspera do Natal de 1995, Fabiana foi vista pela última vez. Ela retornava da casa da colega Damaris, com outra amiga, Luciana, que morava nas proximidades. Em determinado ponto do trajeto, cada uma seguiu em direção à sua casa. “Foi em um supermercado que elas se despediram. Há 120 metros de distância de onde morávamos”, conta Ivanise.

“Quando cheguei em casa, perguntei da Fabiana e minha filha mais nova disse que ela voltava logo. Em seguida, começou a cair uma chuva muito forte, então deduzi que ela estava esperando passar para voltar”. Quando amenizou o temporal, a mãe começou a busca pela filha. Casa da Luciana, da Damaris, das amigas próximas até 2h, quando resolveu ir à delegacia.

Ivanise morava com a família na região de Pirituba, na zona oeste da cidade de São Paulo (SP). O 87º Distrito Policial atende a região. Ela ouviu do delegado de plantão que deveria completar 24h para considerar um caso de desaparecimento. “Comecei a procurar nos hospitais da região. Nas delegacias para ver se tinha algum BO de atropelamento ou violência sexual. E assim o dia foi amanhecendo, quando voltei para casa já eram 6h.”

Após conseguir o boletim de ocorrência de desaparecimento, Ivanise foi informada de que a partir daquele momento teria de procurar a Delegacia de Pessoas Desaparecidas, que estava fechada no dia do Natal. No dia 26, já tinha percorrido quase todos os hospitais da região metropolitana da cidade.

“A partir daí começou uma peregrinação muito grande. Fui me desgastando fisicamente e psicologicamente. Parei de trabalhar para procurar minha filha”. Ivanise era operadora de caixa, mas não podia mais prosseguir. Ficou 53 dias em estado de choque.

“Quando perdi minha filha, perdi junto com ela a vontade de viver. Planejava que Fabiana estudasse, fizesse uma faculdade, casasse, me desse netos. Todos aqueles sonhos acabaram. Não aceitava viver sem ela. Cheguei no limite da loucura.”

Ivanise foi internada. Um psiquiatra que a atendeu teve uma conversa muito séria: “olha mãe, a única pessoa que pode te ajudar é você”, lembra ela das palavras rígidas do médico. Já não se alimentava e não sentia sono.

Após cinco dias, quando saiu do hospital, estava determinada “a juntar todos os caquinhos que tinham se quebrado”, como ela mesma define. Passada uma semana, soube do Centro Brasileiro em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, onde Ivanise cadastrou seu caso.

Por meio desse contato, foi chamada para participar da novela Explode Coração, da Rede Globo. A cada capítulo, depoimentos de mães que tinham os filhos desaparecidos eram divulgados. “Com o apelo, criei uma expectativa muito grande de encontrá-la.”

Há 15 anos, as mães se reúnem nas escadarias da Sé com fotos de seus filhos.

Nos bastidores, conheceu outras mães que estavam na mesma situação. “Tinham 72 naquele dia. Me chamou atenção a organização delas, ali emanadas pelo mesmo objetivo, pela mesma dor”. Ivanise quis saber como se articulavam. Quando a informaram do trabalho feito nas escadarias da Cinelândia, no Rio de Janeiro (RJ), onde as mães se reuniam com cartazes com fotos de seus filhos, na forma de um protestos silencioso.

Nas escadarias da Sé

O depoimento de Ivanise foi ao ar numa quinta-feira. Na sexta, duas repórteres de grandes jornais a entrevistaram. “Pude falar sobre o desaparecimento da minha filha, a revolta que sentia, o abandono do Estado. No último paragrafo, fiz um convite para que me ligassem as mães que estivessem passando pelo mesmo drama e deixei meu telefone.”

“No dia seguinte, acordei por volta das 8h com o telefone tocando e não parou mais até hoje”. Naquele momento, as mães queriam saber quando e onde poderiam encontra com Ivanise. Então, teve a ideia de juntar todas elas em um único lugar.

“Sempre vi a Praça da Sé como palco de grandes atos de reivindicações da sociedade civil. Marquei com elas lá, no próximo domingo”. Era 31 de março de 1996, dia em que as escadarias ficaram repletas de mães com cartazes de seus filhos desaparecidos. A organização, então, nasceu dessa espontaneidade. Já ali, a imprensa começou a chamá-las de Mães da Sé.

Os cartazes são espalhados nas escadarias e as mães ficam sentadas com camisetas estampando os desaparecidos.

Passados 15 anos, as mães continuam indo ao mesmo local. A cada duas semanas, aos domingos, das 10h às 12h, elas espalham as fotos dos desaparecidos nas escadarias e vestem as camisetas com fotos de seus filhos. A divulgação funciona. As pessoas, inicialmente pegas pela curiosidade, param para olhar.

A busca continua

Apesar de grande repercussão na mídia, nunca surgiram notícias contundentes sobre Fabiana. “Infelizmente,  apareceram trotes. Todas as informações que recebia eu fui checar, mas nada”, afirma a mãe.

Ivanise já enfrentou situações perigosas atrás da filha. Esteve em morros no Rio de Janeiro, prostíbulos no interior paulistano, em favelas no bairro Jardim Ângela. “Uma vez na favela, o carro foi cercado pelos traficantes e pedi ajuda à eles para entrar. Com a foto da minha filha na mão e o BO na outra. E assim tem sido minha vida.”

Ela conta que não perdeu apenas sua filha. “Com o desaparecimento da Fabiana, veio a separação. Comecei a ter problemas de saúde”. Ela toma remédios para pressão e coração. Tem dia que não tem vontade de voltar para casa. “Só volto, porque tenho outra filha lá”, diz em meio as lágrimas. Ivanise mora na Freguesia do Ó, em São Paulo (SP), com a caçula Fagna, de 28 anos.

“Mas, aprendi que cada dia é uma nova esperança. Tenho um carinho e respeito muito grande por essas mães que estão comigo. Se eu estivesse continuado minha busca sozinha, provavelmente não estaria aqui.”

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