Melhorar infraestrutura das escolas é prioridade dos secretários municipais de educação

Por Mariana Mandelli, do Todos Pela Educação

Pesquisa do Inep traçou o perfil dos gestores de Educação.

A principal prioridade da gestão de secretários municipais de Educação é melhorar a infraestrutura das escolas, seguida de perto por melhorar os níveis de aprendizagem dos alunos. A conclusão é da Segunda Pesquisa Nacional sobre o Perfil dos Dirigentes Municipais de Educação do Brasil, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A preocupação com os prédios e aparelhos precários das escolas aparece como primordial para 46,2% dos secretários. Já a aprendizagem dos estudantes vem logo a seguir, com 45,3%. Outras prioridades citadas foram: promover a formação continuada dos professores, com 33,4%; elaborar ou atualizar o Plano Municipal de Educação, com 28,8% e aumentar a participação das famílias e da comunidade, com 26,5%.

A pesquisa foi realizada entre março e agosto de 2010 e concluída no fim de 2011, o que significa que seus dados revelam a opinião de secretários das gestões que se encerraram em 2012. Segundo a Undime, com a posse dos novos prefeitos no início de 2013, houve uma renovação de 60% nos cargos de secretário de Educação no país. A participação foi voluntária e o questionário foi respondido pela internet. O estudo reúne informações e opiniões de 3.410 secretários municipais de Educação, representando 61% dos municípios brasileiros e 64,4% do total de matrículas sob responsabilidade dos municípios, segundo o Inep.

“O fato de a infraestrutura aparecer em primeiro lugar é uma preocupação, porque revela que o foco está na questão imediata, deixando a essência – o aprendizado – em segundo plano”, afirma Cleuza Repulho, presidente da Undime. “Isso não significa, é claro, que as más condições das escolas tenham de ser deixadas de lado. Existem escolas no Piauí, por exemplo, onde a temperatura nas salas de aula chega a 43 graus.”

Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), concorda. “Os dados refletem uma concepção que ainda temos no Brasil de não colocar a aprendizagem no centro. Se ela não é tudo, deveria ser, no mínimo, o centro”, afirma. Segundo ele, a infraestrutura aparece com tanto destaque por razões políticas – porque ajuda a agregar votos – é mais visível. “Sabemos que a escola brasileira não é conhecida pela boa infraestrutura. Ela revela a realidade das unidades de ensino, o que gera sensibilidade.”

Transição
A pesquisa também traz dados nada animadores sobre os processos de transição pós-eleitoral. Mais da metade dos gestores (53%) afirmou que não houve transição política em seu município. Ou seja, nessas cidades, o dirigente assumiu sem ter conhecimento dos projetos e das atividades que estavam em processo na gestão anterior, o que compromete a continuidade das políticas públicas.

Avaliação
Um dos objetivos da pesquisa também foi avaliar o conhecimento do gestores sobre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). De acordo com os dados, o percentual de dirigentes que consideraram o resultado de sua cidade ruim foi de 14,7%. A maioria, 42,7%, no entanto, acredita que o resultado conquistado em 2007, o mais atualizado na época em que a pesquisa foi feita, era bom. Cerca de 34% consideraram o nível como regular e somente 9,3% pensam que o resultado de sua rede foi ótimo.

Diagnóstico
Os secretários também foram perguntados sobre qual era, naquele momento, o principal problema que enfrentavam. Mais uma vez, a infraestrutura ocupou a primeira posição. O tema foi citado por 24% dos secretários. Já o baixo nível de aprendizagem dos alunos apareceu em nono lugar, numa lista de vinte itens, com 9,56%. Em segundo lugar, apareceu a pouca participação das famílias e da comunidade na vida escolar, com 16,2%, seguida, nessa ordem, pelos seguintes problemas: dificuldade de inclusão de alunos com necessidades especiais, com 13,1%; analfabetismo de jovens e adultos, com 13%; dificuldade na gestão dos recursos financeiros, com 12,23%; dificuldade em realizar o transporte escolar, com 12,2%; alunos estudando longe de casa, com 10,53%, e falta de vagas na Educação Infantil, com 10,82%. Os secretários podiam escolher mais de uma opção.

Famílias
O alto índice de respostas indicando como um dos principais problemas a falta de interação entre as famílias e a escola é, segundo os especialistas, parte de um discurso pronto. “Essa relação é importante, mas existe uma certa repetição dessa frase, sem muita reflexão. É preciso quebrar com isso para entender o que é e como realmente essas duas esferas podem interagir”, afirma Maria Amabile Mansutti, coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Cleuza também destaca essa dificuldade em chamar as famílias para as escolas. “Será que a unidade de ensino consegue acessar os pais? Será que os pais querem? Ou tentam e não são acolhidos? Como eu atraio as famílias? É complicado”, afirma.

Ela destaca um viés cultural para essa posição dos dirigentes. “Focar na aprendizagem e incorporar a ideia de que a escola é para todos ainda são coisas novas no Brasil”, afirma.

Para alguns especialistas, existem propostas bem sucedidas. Um exemplo é o Programa Interação Família e Escola de Taboão da Serra (SP), que promovia visitas dos professores às casas dos alunos. Os docentes recebiam cerca de R$ 30 por visita, realizada fora do seu horário de trabalho. Os encontros eram pré-agendados com a família da criança.

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