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Na ponta do pé: Futebol leva cooperação e democracia para comunidades

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Enquanto o Mundial de Futebol não chega – e há quem garanta que ele não será realizado devido aos protestos que devem voltar a ocorrer durante o período –, o jogo com a bola tem ganhado releituras em sua maneira de competir. Em misturas que integram participação, cidadania e cooperação, três experiências selecionadas pelo Portal Aprendiz se destacam por mostrarem ao Brasil que o esporte mais popular do país pode ser completamente diferente daquele previsto para 2014.

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Uma delas é o Movimiento Fútbol Callejero (Movimento Futebol de Rua), rede que abrange dez países sul-americanos e ajuda a organizar a IV Conferência Latino-Americana de Futebol e Desenvolvimento, que acontece nessa semana em São Paulo. Já a I Copa Rebelde, a ser realizada seis meses antes do torneio da FIFA, promete reunir movimentos sociais em torno de um futebol “de resistência”. E, por fim, o projeto Futebol e Cidadania revela como o esporte pode ser uma ferramenta estratégica na garantia de equidade e resolução de conflitos.

A bola das ruas

Imagine uma partida onde um gol marcado por uma mulher vale o dobro – ou que seja obrigatório passar a bola por todos os jogadores do time antes de balançar as redes. Esses são alguns princípios do Fútbol Callejero, movimento criado pelo ex-jogador argentino Fabian Ferraro. As regras variam, porém, de acordo com as realidades de cada comunidade.

Partida de Fútbol Callejero realizada em Buenos Aires.

No Callejero, a partida é dividida em três tempos: no primeiro, os jogadores estabelecem as regras, dividem as equipes e acordam um sistema de pontuação; no segundo, acontece o jogo; no terceiro, os dois times avaliam se os acordos iniciais foram cumpridos e fazem as contas para definir o vencedor. “É um jogo onde prevalece o fair-play (jogada limpa), com base em um futebol que tenha menos rivalidade”, explica Antônio Eleilson Leite, coordenador de Cultura da Ação Educativa que está articulando a criação de uma rede nacional de futebol de rua.

O evento acontecerá em São Paulo nos dias 4 e 5/12, no Centro Cultural Vergueiro (Rua Vergueiro, 1000 – Sala Adoniram Barbosa), sob o tema Futebol e Direitos Humanos. O objetivo é debates as questões ligadas aos jovens por meio da implementação do Fútbol Callejero e contará com a participação da vice-prefeita Nadia Campeão, do jornalista Juca Kfouri, da ex-atleta Ana Moser e do criador da metodologia, Fabian Ferraro. Clique aqui para ver a programação e se inscrever na Conferência.

Simultaneamente ao torneio da FIFA de 2014, a rede está organizando o Mundial de Futebol Callejero, a ser realizado entre os dias 1º e 12 de julho do próximo ano. O evento será direcionado a adolescentes e jovens que tenham entre 17 e 22 anos, e contará com delegações de 32 países – não os mesmos que participam da Copa oficial. “Haverá uma equipe da Índia, e estamos empenhados para trazer um combinado de jogadores israelenses e palestinos”, revela Leite.

A rede também pretende organizar um amistoso entre equipes de Brasil e Argentina no dia do aniversário de São Paulo (25/1). “Essas movimentações podem canalizar o sentimento de rejeição à FIFA e, acima de tudo, criar um espaço de celebração do futebol”, acredita Leite, que vê no futebol “padrão FIFA” muita homofobia e machismo, reproduzindo as desigualdades existentes na sociedade.

“Os torcedores e jogadores pouco participam das decisões. O futebol de rua traz debates sobre democracia e igualdade de gênero, sendo uma boa forma de oxigenar o pensamento sobre o futebol e instigar novas ideias”, argumenta o coordenador. “Queremos um futebol que abdique de estratégias de marketing e táticas comerciais, um futebol dos movimentos sociais. Não à toa, ele se constituiu nas periferias, se tornando uma ferramenta de organização comunitária e mediação de conflitos”, conclui.

A bola rebelde

Quem compõe os movimentos sociais que reivindicam melhorias em diversos espaços da sociedade está convidado a participar da I Copa Rebelde, que ocorrerá a partir das 10h do dia 15/12 em uma antiga rodoviária do centro de São Paulo (Avenida Duque de Caxias, 907).

Organizado pelo Comitê Popular da Copa, o encontro pretende reunir não apenas militantes, mas também moradores de rua, trabalhadores ambulantes e qualquer cidadão que esteja “indignado” frente ao padrão FIFA.

I Copa Rebelde quer reunir “indignados” frente ao padrão FIFA.

“Realizar a Copa Rebelde de Movimentos Sociais há seis meses da Copa do Mundo é uma forma de retomar o futebol das ruas. O povo vai entrar no jogo e não ficará apenas assistindo”, garante Juliana Machado, membro do Comitê. As regras da peleja também não serão semelhantes às da entidade máxima do futebol: serão negociadas entre os movimentos e trabalhadores presentes. As equipes poderão misturar homens, mulheres, crianças, idosos e jovens.

Juliana acredita que a realização da Copa Rebelde será um momento de afirmação da resistência popular não apenas no futebol, mas também no centro de São Paulo. “Nas cidades, vemos campos de várzea desaparecem para dar lugar a empreendimentos imobiliários, como todo espaço público comum das metrópoles. Vamos ocupar esse espaço e mostrar que nem o futebol nem a cidade são mercadorias”, afirma. Para 2014, o Comitê pretende realizar manifestações e debates pelas cidades-sede do torneio.

A bola que educa

Sediada em Diadema (grande São Paulo), a Associação de Apoio à Criança em Risco (ACER Brasil) criou em 2011 o projeto Futebol e Cidadania, que oferece aulas da modalidade a crianças, adolescentes e jovens das comunidades vulneráveis da região.

“O futebol possui um impacto social imenso. Não trabalhamos com o alto rendimento, mas sim com a socialização entre os cidadãos e diversos temas que permitem usar esse esporte como ferramenta estratégica, como equidade de gênero, resolução de conflitos e saúde e bem-estar”, assegurou Luiz César Madureira, coordenador do núcleo de esportes da Associação.

Futebol e Cidadania pretende estimular convivência saudável entre jogadores.

Madureira afirma que, ao revitalizar e promover o uso contínuo de espaços antes dominados pelo narcotráfico, “sem uso de bombas nem polícia”, a iniciativa permitiu aos adolescentes ter um projeto de vida e buscar o primeiro emprego, além de aproximar a comunidade do cotidiano desses estudantes. “Foram as famílias que pintaram as quadras, ajudaram a organizar e a convencer o pessoal a limpar o espaço”, conta.

Cerca de 700 pessoas são atendidas pelo projeto. As aulas são dadas em quatro diferentes espaços, de terça a sábado, das 8h às 21h. “O futebol que estamos acostumados é destinado apenas aos melhores, àqueles que se destacam. Contudo, nosso público alvo não são jogadores habilidosos. Estimular uma convivência saudável é o maior objetivo do projeto.”

Um dos grandes desafios do Futebol e Cidadania, a ampliação dos times femininos está sendo realizada com sucesso a partir de ações pontuais referentes à Copa do Mundo. “Usaremos a mobilização que a competição trará para incentivar o futebol feminino, principalmente no mês de março, quando acontece o Dia Internacional da Mulher”, observa Madureira.

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