O que esperar na Educação em 2014

Final do ano é tempo de balanços e previsões. Então arrisco os meus na educação, especialmente a brasileira.

Aqui, em 2013, deu-se a continuidade da disputa, que já dura décadas, entre duas visões sobre a melhor estratégia para conseguir o que, à princípio, parece ser o objetivo comum a todos: que as novas gerações aprendam, se socializem nos nossos valores, se desenvolvam enfim.

De um lado, há a visão tecnocrática: a melhor forma de conquistar este objetivo deve ser definida nos gabinetes, amparados por dados internacionais, produzindo orientações, políticas e recursos a serem entregues e implementados por funcionários, considerados de um modo geral, bastante despreparados para a função que exercem. Os resultados devem ser aferidos de forma homogênea, externa, com base em critérios únicos, que possibilitem comparações, e, como consequência destas, intervenções precisas em situações consideradas graves pelos técnicos, além de bonificações para os que demonstram mérito atingindo as metas estabelecidas por eles. A referência de qualidade, em geral, é o modelo das escolas particulares voltadas para as classes médias e alta.

Em 2013, esta visão, que já orientava boa parte dos governos, foi reforçada por novos prefeitos, inclusive por alguns pertencentes a partidos historicamente contrários à tecnocracia.

Do lado oposto, há os que apostam que não só os agentes da educação – professores, educadores populares, equipes técnicas de escolas e organizações – mas os próprios estudantes e suas famílias têm capacidade de debater e definir os rumos do seu processo de aprendizado e desenvolvimento. Entendem que, para isso, as instituições de ensino precisam ter autonomia pedagógica e devem ser avaliadas e controladas por seu público direto.

No ano que agora se encerra, esta linha se fortaleceu significativamente. Desde os primeiros meses, e depois das manifestações de junho, greves de professores das redes municipais e estaduais em lugares como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro incluíram ao lado da pauta salarial, também questões pedagógicas, reivindicando liberdade de escolha sobre material didático, redução do número de estudantes por turma, infraestrutura adequada. Em 2014, ano de eleição, as greves e movimentos reivindicatórios deste tipo devem se acirrar.

Para além das greves, começou a chamar atenção movimento bastante alternativo que há anos se organiza em fóruns e redes de discussão. Trata-se de um movimento que une educadores de escolas públicas e privadas, de organizações educativas não escolares, pais, estudantes, pesquisadores, ativistas não só da educação, mas também da cultura, da comunicação, da causa ambiental, do direito à cidade, da economia criativa e solidária. Na pauta, a autonomia das escolas públicas, a educação democrática, o ensino domiciliar, a constituição de cidades educadoras, uma política de juventude.

Em 2013, este movimento elaborou um Manifesto, que foi entregue ao Ministro da Educação, debatido em algumas dezenas de Câmaras Municipais e também durante conferência nacional em Brasília. Este movimento deve crescer.

Sua conferência, chamada CONANE, foi marcada por falas combativas e emocionadas, seguidas de ovações vibrantes, em claro contraste com as conferências municipais, intermunicipais e estaduais preparatórias da CONAE (Conferência Nacional da Educação), marcadas por debates burocratizados, manutenção das disputas corporativas e esvaziamento da participação popular.

2014 é o ano da CONAE. Podemos esperar que o Plano Nacional de Educação, dela resultante, revelará, de forma fragmentária e contraditória, como é próprio de todos os documentos orientadores da educação no Brasil, as vitórias de ambos os lados – o tecnocrata e o democrático.

Mas, mesmo entre os defensores da linha tecnocrática, em 2014 deve se acentuar um processo de autocrítica e revisão de estratégias já em curso em diversos países. Novas linhas de pesquisa, estimuladas pela UNESCO e até pelo Banco Mundial, vêm buscando indicadores diferenciados da qualidade da educação, tanto no que se refere à aprendizagem quanto a outros aspectos como relevância, inovação e flexibilidade. Os resultados pífios de mais de duas décadas dominadas pela lógica dos testes padronizados, dos ranqueamentos, da redução dos objetivos escolares à alfabetização e domínio das operações matemáticas obrigaram a esta revisão.

As novas tecnologias também vêm contribuindo para o questionamento do modelo educacional predominante. Crescendo de forma exponencial, o que é próprio da sua natureza, dado que cada nova invenção atinge de modo cada vez mais rápido público sempre maior. A ausência de impacto disso no sistema escolar chama a atenção dos expertos e causa a revolta de crianças, adolescentes e jovens, conectados ao mundo em novas bases.

Em 2014, devem se multiplicar, de um modo geral, as novas ferramentas digitais para a educação, o que poderá contribuir para a transformação das escolas, com salas de aula onde são os estudantes que ensinam uns aos outros, currículo que se adapta aos interesses e habilidades dos estudantes etc. Vão se fortalecer ainda os MOOC – Massive Open Online Course em nível mundial, o que pode impactar nas universidades brasileiras, criando um novo tipo de concorrência.

Por fim, é preciso falar da Copa no Brasil. Esta representa um risco para as crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, já que crescem as oportunidades para o trabalho infantil e a exploração sexual desta população. Em 2014, ano de Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, esta pauta deve ganhar destaque. Vamos torcer para que o Brasil ganhe também na garantia dos direitos de seus meninos e meninas.

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Helena Singer

Helena Singer

Helena Singer, socióloga com pós-doutorado em Educação, é diretora pedagógica da Associação Cidade Escola Aprendiz.

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(2) Comentários

  1. Marcelo disse:

    o que não está sendo discutido antes de mais nada é a capacidade dos professores em ensinar a arte do raciocínio.
    es.: se os pais analfabetos não tem capacidade de ensinar os filhos, não cabe aos professores fazê-lo?
    lembra daquele causo do ditador, do gerrilheiro e do analfabeto: se o ditador não ensina o analfabeto a ler e o guerrilheiro o faz, quem está errado o ditador ou guerrilheiro, ou o analfabeto é que está errado por querer aprender a ler? tá certo que os professores, principalmente da rede pública estão sobrecarregados e mal-pagos, mas é custoso ensinar a raciocinar?

    • cidadão disse:

      vc está certo que o professor deve ensinar a arte do raciocínio…mas isso se torna complicado por ex:em uma sala com 40 alunos em diferentes niveis de aprendizagem, defasagem idade/série e sem nenhum apoio tecnológico e apoio mínimo familiar, pois uma grande parte pensa que na escola o professsor tem que ensinar e educar. Educar é função principal da família, na escola a criança deverá ser alfabetizada e não educada. Ela aprenderá a conviver com outras crianças…