Pensar a cidade

Carta para Florestan Fernandes

Por José Pacheco
Publicado originalmente na rede Românticos Conspiradores

Eu sei, meu amigo, que pode parecer inverossímil aquilo que te irei contar, mas crê ser a mais pura verdade.

Um governador de estado inaugurou uma escola construída no Padrão Século XXI, que custou quase três milhões (sic). Pouco tempo após a pompa e circunstância da inauguração, um jovem aluno foi morto a tiro dentro dessa (dita) escola modelo. A diretora disse que o rapaz tinha comportamento normal e boas notas. O porteiro prestou depoimento: “a Polícia Militar vem, ajuda, mas quando eles saem os marginais voltam”. Acrescentou que o colégio tinha encomendado uma barreira de proteção em volta do prédio onde os alunos estudam. Que um serralheiro colocaria as placas em volta da escola, “mas, antes de ficar pronto, infelizmente aconteceu essa tragédia”, disse. E tranquilizou os intranquilos, dizendo: “a Polícia Militar ficará na porta da escola entre os próximos 15 e 30 dias, até que o projeto de segurança seja implantado”.

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Um superintendente da secretaria de educação averiguou as condições da infraestrutura de segurança e, peremptoriamente, afirmou: “um circuito de câmeras de monitoramento será instalado ao redor de toda a escola”. E a Polícia Militar, por sua vez, informou que fará rondas. Porém, apesar das garantias dadas por quem pode dá-las, poucos alunos apareceram na instituição na manhã seguinte. E uma mãe decidiu mesmo tirar o filho daquela escola, porque se cansou de ouvir os relatos do menino, que afirmou ter testemunhado o uso de drogas no local.

Florestan Fernandes foi sociólogo e professor universitário, com mais de cinquenta obras publicadas. Transformou o pensamento social no Brasil e estabeleceu um novo estilo de investigação sociológica, marcado pelo rigor analítico e crítico, e um novo padrão de atuação intelectual. Fonte:Wikipédia

Culminando esta insana sequência de fatos, essa escola, que era pública, se tornou uma instituição militar e, a acreditar na mídia, pretende cobrar alguns reais pela matrícula, em mensalidade e uniforme. E os estudantes terão que jurar a bandeira, usar obrigatoriamente o uniforme escolar e respeitar uma rígida hierarquia (sic). A Secretaria de Educação admite que algumas escolas vão ser administradas pela Polícia Militar. E a Secretaria de Segurança Pública afirma que a medida foi tomada para diminuir a violência escolar.

Diz a minha amiga Ely que pais e governo comemoraram o “plano de recuperação da qualidade da escola”, através da colocação de policiais militares formados em pedagogia, uma solução retrógrada, talvez inconstitucional e desnecessária. Concordo com a Ely. Quanta ignorância a de pensar que se poderá acabar com a violência explícita com recurso à violência simbólica, numa escola-caserna! Quero crer que seria melhor solução juntar ao currículo de formação de professores disciplinas como: abordagem policial, balística, biologia forense, ou introdução à criminalística. Aqui fica a sugestão.

Caro Florestan, na minha provecta idade, estava crente de que já tinha visto tudo, mas estava imbuído daquele “engano de alma ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito”. Eis senão quando, este português, cioso da sua herança cultural, encontrou mais uma razão para reagir: a ocupação das escolas pela PM começará no Colégio… Fernando Pessoa. Por que não deixam o poeta em sossego? Por que se calam os educadores brasileiros, permitindo que a poesia e a pedagogia sejam vilipendiadas?

Quando passavas pelo DOPS, sabias que o teu sentido de dignidade poderia ditar para ti o mesmo destino do Herzog. Outro Fernando, o Azevedo, evitou que fosses torturado, mas foste cassado pelo regime militar e preso. Valeu a pena? Diria o Fernando poeta que “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. E o que não vale a pena é perder o dom da indignação.

Querido amigo, que os educadores brasileiros se orgulhem do teu exemplo e se oponham a políticas públicas desastrosas. Que sejam aquilo que disseste dever ser um professor: um cidadão e um ser humano rebelde.