Aprender na cidade

Ambientes de aprendizado precisam ser como um lar, afirmam especialistas

Há quem acredite que uma das soluções para os problemas da educação no Brasil esteja no reforço da disciplina e na rigidez das regras aplicadas no interior das escolas. Por outro lado, há também aqueles que defendem a ideia de uma escola mais democrática, onde as crianças possam circular livremente, andar descalças, subir em árvores e pintar as paredes.

É o caso da arquiteta Doris Kowaltowski, professora da Unicamp e autora do livro “Arquitetura escolar – o projeto do ambiente de ensino”. Ela acredita que, além de primar pelos bons professores e alunos e ter uma gestão de qualidade, as escolas precisam de prédios bem projetados para se tornarem centros de educação de excelência.

Arquitetura-escolar

Em Heliópolis, em São Paulo, projeto liga moradia a centro educativo.

Divulgação

“Se o espaço é mal cuidado, o prédio é vandalizado mais facilmente. Ao mesmo tempo, se tiver muitas grades, a criança se sente insegura. Os prédios escolares ruins incentivam a timidez entre as crianças e a prática do bullying”, afirma Doris.

Ao lado de Beatriz Goulart, urbanista e coordenadora do projeto Cenários Pedagógicos, e Pedro Barrán, arquiteto uruguaio e pesquisador do tema, Doris participou do debate “Prédios também ensinam – arquitetura voltada ao desenvolvimento pleno do aluno”, realizado no dia 21/5, durante a Feira Educar Educador 2014.

Conhecimento no claustro

Beatriz lembrou que a requalificação dos espaços escolares e urbanos deve ser feita em conjunto. “Não adianta o espaço ser lindo e a gestão e o currículo continuarem atrasados. Desse jeito, vai ser apenas um presídio colorido”, desabafa. “Notas, chamada, armário trancado, biblioteca fechada. Se o prédio for destinado a ensinar ordem e disciplina, ele estará falido. O edifício escolar moderno deve incentivar a convivência e a autonomia.”

Para Barrán, as escolas antigas, com arquitetura rígida e simétrica – um verdadeiro “claustro” –, são do tempo em que a educação era “simplesmente levar aos alunos o conhecimento que já estava dado. Hoje, em uma escola ideal, o protagonismo tem de estar no estudante.”

Aproveitando espaços

Doris elencou alguns exemplos que, de maneira educativa, aproveitam os espaços, as paredes e até os chãos da escola. Na Índia, o projeto BaLA (Building as Learning Aid) desenhou tabelas periódicas, linhas do tempo com a história do país e os ângulos que se formam com a abertura das portas – tudo isso na superfície dos edifícios.

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Escola antes e depois da intervenção do BaLA.

Partindo de uma visão holística de como planejar e usar a infraestrutura da escola, o BaLa trabalha atividades baseadas na aprendizagem, na amizade infantil e na inclusão de crianças com deficiência. “No cerne, assume que a arquitetura da escola pode ser um recurso no processo de ensino e aprendizagem.”

A arquiteta também citou a importância da iluminação natural e a necessidade de haver variedade espacial para quebrar a monotonia. “Além disso, a criança que fica o dia inteiro na escola precisa de um espaço para descansar”, adverte. Lembrou ainda da acústica de uma sala de aula: “se ela não funciona, o professor precisa gritar e fica rouco. Desse jeito o barulho vai se instalando aos poucos”.

“Não pode”

“Em um espaço mais calmo e agradável as pessoas vão se sentir em casa. A ideia essencial é tornar os ambientes de aprendizados um verdadeiro lar”, reflete Doris. Para ela, como um museu, a escola deveria expor e valorizar o trabalho de seus alunos. “Apenas colar com fita crepe não é correto.”

“A vida fora da escola é tão rica, e quando a criança entra no espaço escolar é uma sucessão de ‘não pode’. Não pode brincar, não pode correr, não pode tirar o tênis, não pode subir na árvore”, afirma Beatriz.

Ao longo da discussão, um consenso emergiu entre os participantes: a necessidade de que os projetos arquitetônicos das escolas sejam debatidos entre todos os envolvidos com o processo de aprendizagem. “Principalmente o aluno”, reforça Doris.