Pensar a cidade

Dois mil e catarse, por José Pacheco

Adentramos o século XXI ancorados em velhas e nefastas práticas, buscando no hemisfério Norte aquilo que temos de sobra no hemisfério Sul. Vamos adiando uma catarse, que nos liberte de atávicos procedimentos. Mas, recebi boas notícias: algumas secretarias de educação emanciparam-se de práticas fósseis e uma universidade brasileira trocou a aula pela aprendizagem por projetos.

Juro que pretendia escrever um textinho feito de esperançosas palavras. Mas, ao meu lado, alguém matraqueou o celular – cena comum nas salas de espera de aeroporto – até fazer uma ligação: Vou chegar à faculdade em cima da hora da aula. Poderás xerocar as páginas que os meus alunos de pedagogia vão ler hoje? Haja paciência! Quando Gadotti afirma que a pedagogia tradicional, centrada sobretudo na escola e no professor, não consegue dar conta de uma realidade dominada pela globalização das comunicações, da cultura e da própria educação, continuamos a enfeitar o obsoleto modelo de ensino com aulas de apoio, de reforço, de “bem-estar”, ou de ética; com rankings, jogos, olimpíadas, “qualidade total”, cursos de “planejamento de aula” e “capacitações para dar aulas com alegria” (sic).

José Pacheco é educador e fundador da Escola da Ponte (Portugal) e do Projeto Âncora (Cotia), instituições reconhecidas por terem projetos pedagógicos baseados na autonomia e na democracia estudantil. Colabora com a Rede Românticos Conspiradores, que reúne educadores em torno de propostas para transformar a educação pública brasileira.

Os jornais informam que professores universitários vão ser inscritos em cursos, para adotarem novos modelos de aula (…) Adoção de novos tipos de aula, para que os alunos possam absorver melhor os conteúdos (sic) nas suas universidades. Peremptório, o diretor de uma universidade afirma: Não dá para abandonar as aulas tradicionais de uma vez. E, somente neste ano, essas universidades vão pagar trezentos e trinta e cinco mil reais a norte-americanos dadores de aula. Um absurdo! Mais dinheiro jogado no lixo em pedagogia requentada, quando, no Brasil, há muito melhor formação do que aquela que vão comprar no Norte. E quase gratuita! Dizei-me se não haverá razão para nos preocuparmos com o futuro da educação no país da Copa.

Os doutos personagens deste imbróglio não conhecem o elementar princípio do isomorfismo na formação, não sabem que o modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Nem percebem que, mesmo adjetivada de tradicional, invertida, ou híbrida, aula é aula, dispositivo central de um modelo de escola, que condena à ignorância trinta milhões de brasileiros. Trinta milhões de seres humanos não serão tragédia suficiente? Quantas mais vítimas as escolas e as universidades das aulas irão fazer? Não será já tempo de a universidade assumir a sua quota parte de responsabilidade? Se a universidade é matriz e produtora de ciência, não deverá abandonar práticas desprovidas de qualquer fundamento científico?

Se ainda há professores universitários, que, podendo dispensar aula e xerox, recorrem a práticas medievais, não me surpreende o fato de a educação seguir ao compasso de vontades e decisões de economistas, empresários, especialistas em novas tecnologias e outros leigos, gente para quem a pedagogia ainda é ciência oculta.

Diz-nos o dicionário que catarse (do grego kátharsis) é a palavra pela qual Aristóteles, na sua “Poética”, designa “purificação”. Na Psicologia, catarse equivale a experimentar liberdade em relação a situações opressoras. Psicanaliticamente, também poderá significar trazer à consciência recordações recalcadas, enquanto, na Medicina, catarse é o mesmo que purgação, libertação do que é estranho à natureza do sujeito, evacuação dos intestinos. Em dois mil e catarse, talvez seja tempo de escutar Freire e começar a expulsar o sarro da velha escola, que se mantém enraizado nas nossas entranhas. Ao invés de importar novos modelos de aula enfeitados com novas tecnologias, conheçamos aquilo que de bom temos cá dentro.