Aprender na cidade

Após feira de ciências, professora transforma sua casa em laboratório

Além de reunir jovens de diferentes países em torno de um mesmo propósito, a Mostratec vem promovendo mudanças na forma como os professores entendem o processo educativo. É o caso de Elizabete Rodrigues, docente de física e matemática da Escola Estadual Mineko Hayashida, localizada em Laranjal do Jari, no interior do Amapá. “A Mostratec me transformou como professora e me fez refletir sobre aquilo que eu ensino. Com os projetos científicos, aprendi que você pode fazer a diferença e mudar a realidade da sua localidade”, afirmou enquanto participava pela quinta vez da feira de ciências.

Ela revelou que, desde os seis anos de idade, sonhava em ser educadora – hoje, aos 37, dá aula para 10 turmas do primeiro ano do Ensino Médio. Nesta edição da Mostratec, Elizabete acompanhou a aluna Ariadne Nunes no estudo do composto das folhas do jambeiro – um pé de fruta comum na região – e na produção de um gel que acelera a cicatrização de pessoas com diabetes. As folhas possuem alta concentração de ferro e vitamina C, combatendo ainda a prisão de ventre e doenças respiratórias. “Queremos valorizar a nossa planta local”, conta Elizabete, lembrando que 87% dos habitantes da cidade não conhece as propriedades medicinais do jambeiro.

A professora já participou de cinco Mostratecs e duas Intel Isef.

A professora já participou de cinco Mostratecs e duas Intel Isef.

Danilo Mekari

Antes de estimular os alunos a produzirem projetos científicos, Elizabete se considerava uma “professora-dinossaura” que, seguindo instruções, sequer sorria em sala de aula. “Quando fui ensinada a pesquisar, percebi que professor e aluno deveriam ter uma interação, e a minha vida como docente se transformou.”

Confira aqui a cobertura completa da Mostratec 2014 e a lista de premiados no evento.

Hoje, ela dribla o problema da falta de laboratório na escola dando aulas de metodologia científica na cozinha de sua casa. Em seu clube de ciências, a professora recebe alunos de diversas escolas todos os sábados à tarde para criar e experimentar novas ideias. “É possível fazer da rua, da cozinha, do jardim de casa um laboratório. A ciência está em todo lugar.”

Elizabete faz questão de agradecer a organização da feira pela ajuda no financiamento das passagens aéreas do Amapá ao Rio Grande do Sul. “A Mostratec é a feira do meu coração”.

Confira os principais trechos da entrevista com a docente:

Feiras de ciência

Conheci a Mostratec através da Febrace, em São Paulo, mas não tinha noção da grandeza da feira – pensava que era pequena, mas quando cheguei no portão, e de cara percebi um grande número de pessoas só para me recepcionar, percebi que era enorme. Me senti valorizada.

Desde 2010, é a quinta vez que participo da Mostratec como orientadora de trabalhos científicos. Em 2011 e 2012, recebi a credencial para ir para a Intel Isef (International Science and Engineering Fair), um dos maiores prêmios da feira. Fui para Pittsburgh (EUA) e achei tudo fantástico, parecia um sonho.

Cada vez me surpreendo mais e mais. Ao ser um espaço onde a ciência impera, o seu ponto forte é mudar a vida dos seres humanos, mostrar o quão é importante pesquisar, estudar, buscar a melhora na vida de todos. Aqui, a gente respira ciência. Eu sou do Amapá e, ao conversar com estudantes e professores do Paraguai, percebo que estamos falando a mesma língua: a da ciência, uma língua universal.

Quando comecei a trabalhar metodologia científica com os alunos, percebi como eles começaram a se moldar, a aprender português e matemática, e ter um olhar sensível para os problemas de sua localidade. A partir do momento em que eu busco pesquisar a solução de problemas da minha comunidade, procurando melhorar a minha vida e as dos meus vizinhos e adquirir conhecimento, isso muda tudo.

Como a escola não possui laboratório, alunos preparam e testam experimentos na casa de Elizabete.

Como a escola não possui laboratório, alunos preparam e testam experimentos na casa de Elizabete.

Elizabete Rodrigues

Ciência no Brasil

No Brasil, vejo que o desenvolvimento da ciência está avançando, mas ainda é preciso escalar mais degraus. A ciência é mais forte no sul e mais fraca no norte do país. Ou seja, o vírus da ciência precisa conquistar mais pessoas principalmente na região norte. O desenvolvimento do Brasil só vai acontecer de fato quando as pessoas perceberem que o caminho para isso é a pesquisa.

A Mostratec tem um papel fundamental para a ciência brasileira. Acredito que ela deveria acontecer em todos os estados do Brasil. É um agente motivador, que leva os alunos para o caminho do desenvolvimento. Se pudesse traria todos os meus alunos.

Um olhar para além da sala de aula

A gente só sai do comodismo e da alienação a partir do momento em que passo a ver o mundo com outros olhos. E a ciência faz isso, faz o ser humano ser crítico e argumentador. Vejo alguns alunos que, antes de produzir projetos científicos, não sabiam nem falar direito; hoje, já conversam, já sabem expor seu trabalho para os colegas, professores, família e até para a direção da escola.

A mesma coisa aconteceu comigo. Quando comecei a dar aula, os alunos me viam como uma ditadora. Foi assim que aprendi: eu era um ser superior dentro da sala de aula. Quando fui ensinada a pesquisar, percebi que professor e aluno deveriam ter uma interação, e a minha vida como docente se transformou. Mudei a percepção do meu fazer pedagógico e a metodologia de ensino: meu aluno vai pra rua pesquisar e experimentar, minha escola não tem laboratório, mas pode se fazer da rua um laboratório, da cozinha, do jardim, de casa, enfim, a ciência está em todos os lugares.

A aula de Elisabete mudou quando ela passou a estimular a pesquisa científica.

A aula de Elizabete mudou quando ela passou a estimular a pesquisa científica.

Reprodução

Cheguei na escola em 2003 e percebia que os alunos eram muito indisciplinados. Professores me indicavam para não sorrir, ser séria e rígida. E aquilo ficou na minha cabeça. Quando entrei pela primeira vez, os meninos estavam gritando e virando a cadeira. Escrevi um cálculo absurdo na lousa, e eles foram silenciando até o momento em que passaram a me temer por isso. Eu não sorria, nem conversava, e via que os alunos não aprendiam. Alguma coisa estava errada.

De 2003 a 2007, fui “professora dinossaura”. Quando conheci um professor chamado José Antônio, a aula dele me atraiu. Ele me convidou para fazer projetos científicos, fizemos exposição na feira de ciências, e ele inscreveu o nosso trabalho na Febrace. Foi quando eu mudei meu modo de dar aula. Comecei a fazer das minhas aulas um ambiente diferente, lendo trechos de livros e poesias, dividindo a turma em grupos para cada um dar sua opinião. Construímos um jornal da escola, e todo esse trabalho foi ganhando outra dimensão, os alunos começaram a interagir e hoje minhas aulas de física não ficam sem experimentação.

Hoje concordo plenamente que o ensino tradicional não ensina. É preciso construir a experiência junto ao aluno. Só lousa e giz não funciona, não leva o aluno a desenvolver o seu próprio intelecto, não traz um aprendizado eficaz e significativo.

O repórter Danilo Mekari cobriu a Mostratec a convite da Fundação Liberato.