Criar na cidade

Espalhado pelas periferias brasileiras, Fluxo é um grito dos jovens por diversão nos espaços públicos

Nos espaços públicos da zona leste de São Paulo, Bin Laden não morreu. Lá, o MC que leva o nome do ex-líder da Al Qaeda tem apenas 20 anos, é um fenômeno na internet e sua música agita os fluxos – bailes funk que surgiram nas ruas da periferia paulistana e rapidamente se espalharam para as bordas urbanas de todo o Brasil.

NoFluxo espaços públicosPara se ter uma ideia da força e tamanho desses encontros, há estimativas que aconteçam de 300 a 400 fluxos a cada final de semana em São Paulo. Os videoclipes de MCs que participam da festa batem recordes no Youtube: Bonequinha e Iraquiana, parceria dos MCs Bin Laden e Brinquedo, foi lançado em setembro e já possui mais de 3,5 milhões de visualizações – número que ainda está longe dos 16,7 milhões alcançados pelo vídeo de Dom Dom Dom, lançado em julho por MC Pedrinho.

A ausência de espaços públicos de qualidade nas grandes cidades é um dos estopins para o Fluxo ocupar as vias. “O crescimento desordenado faz com que milhares de pessoas não tenham lugares para se encontrar com amigos. Na periferia isso é ainda mais crítico, então a galera faz a festa no meio da rua, que acaba sendo a única maneira de se divertir”, analisa Renato Barreiros, diretor do recém-lançado documentário No Fluxo.

Em 2013, os vereadores Coronel Camilo (PSD) e Conte Lopes (PTB) apresentaram um Projeto de Lei (02/2013) que proibia a realização de bailes funk em vias públicas de São Paulo. O PL, porém, foi vetado pelo prefeito Fernando Haddad (PT) – que acabou assinando um decreto que bane e impõe multa aos proprietários de veículos que utilizem som automotivo em alto volume nas ruas.

Barreiros compara os Fluxos com os antigos coretos de praça em cidades interioranas. “Na periferia quase todas as pessoas se conhecem. Vejo um movimento semelhante com aquele dos coretos, onde as pessoas se reuniam para tocar violão e cantar. Hoje, a melhor forma de diversão noturna para o sujeito periférico é o Fluxo”, observa. Ele credita o alto número de adeptos às mídias sociais, que facilitam a divulgação. “O WhatsApp é o novo boca-a-boca.”

Autonomia

Se as festas que ocupam as ruas e túneis do centro de São Paulo são um fenômeno recente, na periferia elas acontecem faz tempo. “As quermesses de junho, por exemplo, são momentos tradicionais de festejar nas vias públicas. Os Fluxos existem desde 2005”, afirma Renato, ressaltando o caráter anárquico de sua organização e o que chama de nova tendência da juventude: planejar autonomamente novos espaços de lazer, sem contar com ajuda ou autorização do poder público.

Evento reúne jovens em busca de lazer nos espaços públicos.

Evento reúne jovens em busca de lazer nos espaços públicos.

Reprodução

Ele cita o exemplo de Larissa, moradora da Cidade Tiradentes, região onde Barreiros já foi subprefeito. “Era seu aniversário e ela foi convidando os amigos, que começaram a aparecer com outras pessoas e, quando viu, a rua já estava cheia. Como deu certo, ela continuou organizando esses encontros que, em sua essência, não possuem dono nenhum.”

Quando era subprefeito, uma das ordens superiores era coibir as festas que terminavam depois da 1h da manhã. Tentou criar alternativas como o Baile Permitidão, que ocorria das 18h às 23h. Atualmente, a prefeitura tenta organizar um Fluxo oficial no Autódromo de Interlagos.NoFluxo

Funk de diversão

A proposta do filme de Barreiros é mostrar o novo cenário do funk. Segundo ele, o estilo ostentação vem perdendo força entre os jovens da periferia, pois está se afastando da vivência deles. “Houve um momento em que o funk paulistano estava muito organizado: os bailes de salão cresciam, MCs eram disputados por produtoras, tinham assessoria de imprensa e apareciam na TV. A molecada dos Fluxos não quer saber de profissionalização.”

Além de “No Fluxo”, Renato Barreiros já dirigiu o documentário “Funk Ostentação – O Filme”. O diretor tem gosto por pesquisar fenômenos de massa, principalmente que envolvam a juventude. “Tenho a intenção de produzir um filme sobre a música gospel no Brasil, que vai muito além da religião. Na periferia, a cena gospel é gigantesca, talvez a única manifestação que possa ser comparada ao funk.”

Hoje, um carro equipado com um som potente e o convite espalhado pelas mídias sociais são suficientes para o Fluxo acontecer. “Após a aproximação do funk ostentação com o estilo de vida dos rappers americanos, o Fluxo tornou-se um grito de que os jovens apenas querem se divertir, e não possuir um carrão e aparecer na TV.  Voltou a ser o velho funk de diversão”, analisa o documentarista, que vê nesse movimento um maior estímulo à criatividade dos jovens, já que eles dispensam produtoras e videoclipes milionários para produzir e alcançar o reconhecimento.

Apesar de não considerar o Fluxo uma iniciativa politizada, Barreiros acredita que esses jovens buscam direitos e um espaço onde possam ter algo próximo da tão sonhada liberdade. “Trata-se de uma atitude adolescente: eles querem sair e se divertir. A vida deles é cheia de dificuldades e nas festas podem desconectar desses problemas. O Fluxo é um momento de lazer que todo mundo merece”, encerra.