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Construção de Parque Linear em São Paulo expõe conflitos da metrópole

Desde junho de 2014, um abaixo-assinado que pedia a construção do Parque Linear do Córrego Verde, na Vila Madalena, circula pela internet com 592 adesões. Ao mesmo tempo, quando uma emenda ao Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo previa o cancelamento do projeto, mais de 800 pessoas se mobilizaram em uma noite para marcar a audiência pública que anularia o texto adicional.

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A assimetria vista na participação social em uma questão importante para o futuro da cidade é observada com naturalidade pela arquiteta Anna Dietzsch, sócia do escritório Davis Brody Bond (DBB), responsável pelo projeto. “Em um ambiente urbano como São Paulo, temos várias opiniões divergentes, mesmo em um só bairro. No entanto, não temos uma prática da discussão democrática muito treinada”, acredita a arquiteta, conhecida por projetar o Memorial 9/11, em Nova York.  “Além de mediação, precisamos saber negociar certas coisas para ter outras, fazendo valer o convívio de democracia urbana.”

A polêmica sobre a execução ou não do Parque Linear completa cinco anos em 2015. Aprovado no final de 2010 pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o projeto, que nunca saiu do papel, consiste em redesenhar uma área de aproximadamente 65.410 m² entre as ruas Beatriz Galvão e Cardeal Arcoverde, atravessando os bairros Sumarezinho, Jardim das Bandeiras e Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista.

O beco da rua Belmiro Braga no projeto do Parque Linear.

O beco da rua Belmiro Braga no projeto do Parque Linear.

Divulgação

A instalação de parques lineares é um conceito que surgiu no Plano Diretor Estratégico da Cidade (lei nº 13.430/2002), com a intenção de recuperar fundos de vale e cursos d’água, resgatando seu papel como parte do sistema de drenagem natural e ajudando a construir uma cidade sustentável.

Becos, passagens, escadarias, canteiros e outros espaços não edificados compõem a área do projeto, situado na várzea de um dos braços do Córrego Verde. “O projeto sempre se propôs a ser de mediação. Também não há previsão de desapropriações e são usados espaços residuais e subutilizados da cidade”, aponta Anna.

“A desinformação é muito grande, o diálogo é emperrado, ninguém confia em ninguém e a discussão vira uma guerra – não um caminho para se chegar a algum lugar.” No pensamento da arquiteta, esse lugar não seria apenas um parque, mas sim uma importante infraestrutura para combater as enchentes que assolam a região, além de transformar-se em uma área de livre exposição cultural e um importante espaço público para a cidade. “O Parque Linear surgiu de uma concepção urbanística que pensa o corte vertical.”

Nova atitude

As discussões acerca de parques lineares se tornam cada vez mais urgentes à medida que a crise hídrica que assola a região sudeste aumenta. “O Parque Linear do Córrego Verde pode criar um modelo de recuperação dos rios ocultos da cidade”, prevê o arquiteto e paisagista Paulo Pellegrino, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Para ele, recuperar o córrego canalizado, melhorar a drenagem e aumentar a cobertura vegetal da região estão entre os principais benefícios da iniciativa.

O paisagista argumenta que canalizar e esconder os rios sob as ruas para facilitar a mobilidade de automóveis foi a grande tragédia urbanística de São Paulo. “O Parque Linear pode significar uma nova atitude capaz de mudar esse modelo”, aponta. Ele valoriza o espaço que a população ganharia – e os veículos perderiam –, assim como a reforma das galerias de detenção e escoamento das águas.

“Recuperar e trazer de volta os córregos, nascentes e rios da cidade talvez seja uma das últimas chances de acreditar em um futuro viável para os moradores de São Paulo.”

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Anna acredita que a crise hídrica está fazendo as pessoas finalmente terem consciência que, em uma metrópole como São Paulo, tudo está conectado. “Não dá pra ficar pensando só na sua casa, na sua rua ou no seu bairro.” Ela se refere à Associação dos Amigos do Jardim das Bandeiras (AAJB), grupo que se movimenta contra a construção do projeto – o Parque Linear seria a compensação ambiental de um reservatório a ser executado na praça Horácio Sabino, obra que não agrada os moradores do Jardim das Bandeiras.

“Porém, eles estão no topo da bacia, e sofrem menos com as enchentes relâmpagos que assolam o bairro no verão. Enquanto o pessoal de baixo fica submerso a três metros de profundidade, o pessoal de cima se movimenta contra um projeto que sanaria esse problema. Precisamos urgentemente de uma discussão democrática do urbanismo.”

Contrário ao projeto, o presidente da AAJB, Caio Machado, afirma que a recuperação das galerias pluviais danificadas e bloqueadas seria uma solução de custo adequado para o problema das cheias. “As enchentes são, de início, consequências de uma somatória de atitudes irresponsáveis, como o planejamento urbano alienado da realidade, com forte vínculo com a ideia de realização de grandes obras, postura cujas consequências vivemos.”

Machado acredita que faltem áreas verdes na cidade, “mas a reversão disso precisa ser considerada de modo adequado, feito sob medida para os endereços onde seriam pensadas de forma criteriosa e a um custo apropriado.” Ele também afirma que a região está recheada de espaços públicos de qualidade. “É fundamental cuidar deles e preservá-los como áreas vitais para a drenagem urbana e para desfrute da população.”

Drenagem alternativa

De acordo com Anna, o projeto do Parque Linear propõe técnicas de drenagem alternativa. “A bacia do Córrego Verde está muito urbanizada e impermeabilizada. Qualquer maneira de sanar isso envolveria custos e desapropriações muito grandes. Estudamos e chegamos à conclusão de que o projeto ajudaria de 10% a 15% na absorção da água de toda a bacia.”

Projeção do sistema de drenagem do Parque Linear.

Projeção do sistema de drenagem do Parque Linear.

Divulgação

A arquiteta garante que as discussões públicas sobre a execução do parque – que aconteceram em três momentos em 2010 – serão retomadas assim que a período de execução da obra finalmente se aproximar. Segundo ela, a licitação para a obra deve ser lançada no primeiro semestre deste ano, e o custo será financiado pelo governo federal, através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Todas as imagens que ilustram essa matéria são do projeto do Parque Linear do Córrego Verde, realizado pelo escritório de arquitetura DBB.