Criar na cidade

São Paulo terá a maior rede Fab labs públicos do mundo. O que isso significa para a cidade?

Durante a abertura da Campus Party 2015, em São Paulo, o secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo, Simão Pedro, anunciou que até o final do ano a capital paulista terá 12 laboratórios de fabricação digital (Fab labs) públicos e gratuitos, tornando-a a cidade com a maior rede de Fab labs do mundo. Mas o que são estas oficinas digitais?

Em 2001, como parte de uma aula chamada “Como fazer (quase) qualquer coisa”, ministrada pelo professor Neil Gershenfeld, do Massachussets Institute of Technology (MIT), foi criado o primeiro laboratório de fabricação digital, que visava dar oportunidade aos alunos de desenvolverem protótipos de qualquer coisa. Com o surgimento de impressoras digitais, cortadoras a laser de alta precisão e novas máquinas e ferramentas, a ideia começou a se espalhar pelo mundo e fazer parte do que é chamado de cultura “maker”. Ou, como explica Felipe Fonseca, em seu artigo Fablabs, makersplace, gambiarras e consertos:

“São espaços em que se disponibilizam equipamentos para a criação e modificação de objetos a partir de arquivos digitais. Usam fresadoras, cortadoras de vinil e outros materiais, máquinas de bordar, impressoras e scanners 3D, entre outros. Boa parte destas tecnologias já existem há algumas décadas. Até recentemente, entretanto, estavam associadas exclusivamente à produção industrial ou à arquitetura, e seu uso era complicado. Mas diversos desenvolvimentos recentes colaboraram para baixar seus custos e tornar sua operação mais simples.”

Essa cultura, que também engloba as comunidades hacker e de software livre, visa baratear e facilitar o acesso aos meios de produção. Já foi batizada de a “nova revolução industrial” e tem se expandido. Segundo Edgar Andrade, do Fab Lab Recife, em outubro de 2013 eram 150 dessas unidades pelo mundo. Hoje são 454.

Entusiasmado, Andrade sonha que, em dez anos, haverá laboratórios desse tipo “em cada esquina” e que a maneira como as pessoas se relacionam com a produção mudará completamente. “Eu imagino as pessoas desenvolvendo produtos de acordo com as suas necessidades, sem a imposição da mídia para que haja consumo em massa. Claro, estamos vivendo uma fase de catequização, democratização dessa tecnologia, mas o que está por trás disso é muito mais amplo: diz respeito a como nos relacionamos com o consumo”, acredita. Nesse sentido, para ele, a abertura dos 12 telecentros em Sâo Paulo, é vista com entusiasmo. “É fantástica. Terá um papel importante na difusão dessa filosofia e espero que isso inspire outros gestores”.

"Makers" trabalham na sede do Fab Lab Recife

“Makers” trabalham na sede do Fab Lab Recife.

Fab Lab Recife l Divulgação

São Paulo

Centro Cultural Cidade Tiradentes, Centro de Convivência de Heliópolis, Olido Cibernarium, Centro Esportivo Tietê, Centro Cultural Casa da Memória, Centro Cultural da Juventude, Espaço São Luis, Espaço Vila Maria, Chácara do Jockey, Centro Cultural da Penha, Vila Itororó e Centro Cultural São Paulo. São estes os espaços que ganharão, ainda neste ano, minifábricas de produção digital na cidade – que já possui dois: um na USP, para uso dos alunos, e um privado. Abertas ao público, as unidades também ministrarão cursos técnicos e disponiblizarão atendimento.

“Esperamos que isso potencialize a criatividade e a inovação na cidade. Será a maior rede de Fab labs do mundo e isso é muito significativo do ponto de vista do combate à exclusão digital, especialmente porque vamos levar essa tecnologia de ponta para a periferia da cidade. Não é só o mais rico, que tem condição de pagar um curso de modelagem 3D, que terá acesso”, afirma João Cassino, responsável pela Coordenadoria de Conectividade e Convergência Digital da Secretaria de Serviços da Prefeitura de São Paulo.

As unidades serão equipadas com  impressoras e scanners 3D, fresadoras, cortadoras laser e de vinil e computadores de alta capacidade, tudo com software livre. Os cursos de formação serão realizados em parceria com  organizações da sociedade civil, a partir de uma chamada pública, que deverá ser divulgada em fevereiro.

A iniciativa, que custará R$ 9 milhões e, aproximadamente, R$ 5,5 milhões por ano gastos com insumos e cursos de formação, faz parte do programa de inclusão digital da prefeitura, que, como explica Cassino, tem quatro eixos: as 120 praças wi-fi, a reforma dos telecentros, os Fab labs e o edital Redes e Ruas, que contempla iniciativas de ocupação do espaço público que tenham interface com a cultura digital.

Cidade e máquina

Na capital pernambucana, o Fab lab surge em diálogo com a ideia de transformar cidade em código e código em cidade. Emerge da demanda por espaços de fabricação do mobiliário urbano – no caso, lixeiras eletrônicas – que seriam utilizadas na reformulação do Parque Santana, um dos mais importantes de Recife. Quando o parque estiver pronto, o Fab Lab terá sua sede instalada ali dentro.

“Temos uma pegada muito forte de pensar mobiliário urbano, pensar em artefatos interativos que promovam um novo olhar sobre a cidade, que incentivem as pessoas a voltarem para o espaço público”, projeta Andrade, que destaca o caráter aberto desses laboratórios. “Desde o começo, na ideia desses laboratórios, existem os ‘open days’, nos quais as oficinas são abertas ao público. Mesmo quando são pagas, há uma tentativa de tornar esses espaços acessíveis”, pondera.

A razão para isso, acredita, é que a inovação pressupõe o erro. E se for caro arriscar, ninguém faz nada. “No Brasil, inovador é o cara que copia primeiro. Você sempre vê um empresário sendo elogiado por ter trazido uma ideia de Nova Iorque. Precisamos de espaços que criem oportunidades e mecanismos que fomentem o novo e a liberdade de experimentar”, argumenta o coordenador do Fab Lab Recife.

Gambiarra

Felipe Fonseca, co-criador do UbaLab - um núcleo de articulação de cultura digital experimental, que funciona como um espaço de trabalho e encontro para pessoas que atuam com tecnologia, comunicação e cultura em Ubatuba, litoral norte de São Paulo -, chama atenção para o fato de os Fab labs estarem associados a um ideal e a uma linguagem industrial, além de reproduzirem divisões sociais do trabalho, em alguns casos. Em entrevista ao Portal Aprendiz, Fonseca afirmou que muitos desses laboratórios acabam servindo como incubadoras de “designers gênios”, que irão pensar em objetos para serem produzidos em massa por países em desenvolvimento, como a China.

O UbaLab realiza mapeamentos ambientais que usam softwares livres para monitorar a qualidade da água, do ar e do clima ubatubense. O laboratório também está por trás da Gaivota FM, uma rádio comunitária e cultural.

“Não sei como está sendo pensado a implementação em São Paulo, mas imagino que seria muito potente pensarmos em comos os espaços de tecnologia digital poderiam diminuir a quantidade de lixo e não apenas gerar mais plástico de difícil reciclagem”, sugere.

Ele propõe que os Fab labs abordem lógicas como a do “conserto de objetos”, investindo na produção de peças sobressalentes e que contrapõem a obsolência programada, que caracteriza a indústria de bens de consumo não duráveis em um planeta em crise ambiental. “De fato, em uma época na qual a humanidade produz quantidades imensas e crescentes de lixo, cuja proporção potencial de reciclagem pode, no máximo – e com otimismo, manter-se estável, a mera sugestão de multiplicarem-se os meios de fabricação de novos objetos deveria ser profundamente questionada. A alternativa, utilizar as tecnologias de fabricação para produzir peças que possibilitem a reutilização de materiais, equipamentos e objetos, parece muito mais apropriada”, defende Fonseca em seu artigo.

A solução para esse paradoxo, de acordo com ele, poderia partir de algo tipicamente brasileiro: a gambiarra. “No limite, a perspectiva da gambiarra estimula uma maior diversidade de maneiras de apropriação e invenção, a partir da exploração de indeterminações materiais. Mais do que replicar em escala local os processos industriais, as tecnologias de fabricação poderiam assim indicar outras formas de articulação entre criatividade e objetos materiais, carregadas de significado e relevância”, indica Fonseca aos Fab labs vindouros.