Criar na cidade

O que a saúde da cidade tem a ver com a sua saúde?

A saúde da cidade é a nossa saúde. Foi esse o lema do Inspira São Paulo, evento realizado na noite desta quinta-feira (9/4) no Museu da Casa Brasileira, como parte da programação da Virada da Saúde, que acontece até o próximo domingo (12/4). De caráter inspiracional, a proposta da atividade era reunir 12 profissionais de diversas áreas do conhecimento para compartilhar suas histórias de transformação do ambiente urbano, com a intenção de torná-lo mais saudável e sustentável – afinal, 84% dos brasileiros vivem em cidades, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“A expansão urbana, a expansão econômica e a vida acelerada facilita que as pessoas adoeçam”, acredita a médica Evangelina Vormittag, fundadora do Instituto Saúde e Sustentabilidade e idealizadora da Virada da Saúde. Ela lembrou que entre as causas mais comuns de mortalidade – para além de doenças crônicas não transmissíveis, como câncer e infarto – estão a violência e os acidentes fatais, “evidentemente decorrentes da rápida urbanização do mundo nos últimos anos”.

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Meditação no teto do Copan foi uma das atividades da Virada da Saúde.

Meditação no teto do Copan foi uma das atividades da Virada da Saúde.

Jaime Leme

Dados mostram como essa realidade tem atingido os paulistanos – principalmente as mulheres. De acordo com a médica, nos últimos quatro anos houve mais internação de mulheres por conta de infarto do que de homens. Para ela, esse dado corrobora o fato de que cerca de 70% dos cidadãos de São Paulo sofrem de stress elevado.

A idealizadora da Virada da Saúde recorre à própria infância para defender uma Cidade Saudável. “A minha geração foi uma das últimas que pôde brincar na rua. Ali onde eu morava, na Avenida Juscelino Kubitschek era de terra e passava um rio. Hoje, não nos incomodamos de respirar um ar tóxico, de ter rios canalizados e milhares de nascentes abandonadas”, lamenta. “As gerações depois da minha não puderam mais brincar na rua, que passaram a ser dos carros. A ansiedade e o pânico quanto à violência nos impedem de conviver com a cidade e com o próximo. Nos afastamos dos nossos valores, da cultura, das histórias e da memória.”

“A poluição do nosso ar está relacionada a três tipos de câncer: pulmonar, de mama e de bexiga. Se não fossem obesas, 40% das mulheres poderiam ter o câncer de mama evitado.”

Para superar esses problemas de saúde, Evangelina enfatiza a importância da mobilidade ativa – seja caminhando ou pedalando – para reduzir o número de infartos, câncer e casos de depressão. A Organização Mundial de Saúde (OMS), aliás, prevê que em 2030 a depressão será a doença mais comum do planeta. “De 1970 a 2000 houve uma perda de 35% da biodiversidade. Restou um conjunto de vazios que não sabemos como proceder”, opina. “A nossa existência significa saúde. A preservação da espécie humana também, e uma vida saudável só é possível numa cidade saudável. Precisamos estimular a mudança de comportamento que traz benefícios para a saúde.”

Para João Figueiró, fundador do Instituto Zero a Seis, uma das soluções para reduzir desigualdades e violência é investir em políticas públicas dedicadas à primeira infância, fator que promoveria a saúde individual e social. Ele cita o prêmio Nobel de Economia de 2000, o estadunidense James Heckman, que defende a tese de que a cada dólar investido nessa etapa da vida há um retorno de nove dólares.

“A cidade, no seu planejamento, não pensa a criança no território. A ágora infantil desapareceu, aquele lugar de compartilhamento e estabelecimento de regras, normas e limites e de aprendizado social. Nossas crianças estão confinadas em espaços fechados e sedentárias, assistindo em média 4h50 de televisão por dia.”

O 'cozinheiro de quebrada' Matheus Oliveira participa do evento.

O ‘cozinheiro de quebrada’ Matheus Oliveira participa do evento.

Gabriela Silber

Figueiró ressalta que é nessa fase que se desenvolvem as bases das principais competências humanas. “É o período de mais intensa neuro-construção: aos seis anos, em torno de 90% do cérebro está desenvolvido. Os valores morais e princípios éticos também são estabelecidos nesse período”, afirma.

“Na periferia, temos o senso que em muitos lugares se perdeu: para ser saudável você tem que ser feliz”, aponta o cozinheiro Matheus Oliveira, que se autodenomina ‘crítico gastronômico da favela’. Ele elogia as novas opções de alimentação saudável que estão surgindo nas bordas de São Paulo, normalmente relevadas a uma alimentação de má qualidade. “O restaurante Dona Linda, na Vila Mascote, tem um buffet 100% integral. O Ateliê Sustenta CaPão também segue essa linha”, afirma.

Matheus sugere ainda uma reflexão em torno do conceito de saúde. “Ser saudável é ir no médico e ver se está tudo bem? Ou ser saudável é sentar numa mesa com quem você ama e ter uma boa conversa durante o jantar?”

O médico patologista Paulo Saldiva arrancou gargalhadas dos presentes quando fez uma analogia das doenças presentes em São Paulo. “A cidade cresce e a estrutura não suporta. Hoje, sofremos de trombose arterial, pois o tráfego está entupido; obesidade, por conta da densidade habitacional; a poluição do ar provoca diarreia, que resulta em nossos rios mortos; sofremos de insuficiência renal e impotência, pois não conseguimos limpar nossas águas; e, por fim, também somos vítima de um declínio cognitivo, pois os dirigentes esquecem rapidamente aquilo que prometeram.”

Ele defende que a saúde não é algo que se cura com vacina, antibiótico e novalgina. “Com o tecido social descontruído, as pessoas estão isoladas em carros, onde existe uma cidade que atrapalha o caminho entre a casa e o trabalho. Essa lógica há de ser desfeita para podermos curtir a cidade e estabelecer relações afetivas e sociais. Afinal, perdemos a riqueza da urbanidade quando nos enclausuramos dentro de nós mesmos.”