Criar na cidade

Na cidade que educa, espaços públicos devem promover a saúde

A urbanização é apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos maiores desafios do século 21 para a área da saúde. Em um contexto no qual mais da metade da população mundial vive em cidades – no Brasil esse número atinge 84% –, é importante que esteja claro quais são os impactos visíveis e invisíveis que o modo de vida urbano traz à vida de seus habitantes.

Até o momento, não há dúvidas de que esse impacto é negativo: o stress causado pelo trânsito, a ansiedade de se conseguir um emprego, o surto de obesidade por conta da falta de atividade física, as doenças respiratórias causadas pela poluição do ar – tudo isso potencializado pelos hábitos alimentares baseados em fast food e comidas industrializadas, compõem os resultados da rotina acelerada que se vive nas metrópoles.

Contudo, para além dessas consequências visíveis, a saúde em uma cidade envolve questões maiores do que a saúde do próprio corpo: acesso a habitação, transporte, saneamento e lazer são influências indiretas na sustentabilidade de um ambiente urbano.

Para a presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Evangelina Vormittag, a expansão desenfreada das cidades, aliada à pressão econômica e ao modo de vida urbano, trouxe uma série de mudanças não apenas no meio ambiente, mas nos hábitos cotidianos das pessoas.

“Os impactos da complexidade do metabolismo urbano produzem efeitos dramáticos sobre diversos aspectos da saúde”, aponta Evangelina, uma das idealizadoras da Virada da Saúde, evento que pretende aproximar os cidadãos do tema da saúde utilizando formatos lúdicos. “Em São Paulo, por exemplo, as pessoas que moram na periferia acordam mais cedo para chegarem ao trabalho. Isso significa horas de sono perdidas, prejudicando a capacidade da pessoa de estudar e ter lazer.”

Para ela, a solução transcende o desenvolvimento de novos hábitos como a corrida e a caminhada diárias. “É claro que a prática de atividades físicas reduz o risco de doenças cardiovasculares e promove benefícios significativos à saúde. Mas, indo além, o sentimento de pertencimento à cidade deve fazer parte do cotidiano do morador. Devemos usar a cidade, os parques, as praças e a rua para promover a saúde, assim como conviver com as pessoas e com as diferenças.”

Evangelina defende uma oferta maior de espaços públicos de qualidade onde se possa realizar esse tipo de mobilidade ativa: calçadas, ciclovias, parques, praças, pistas de caminhada e equipamentos esportivos. “São ambientes que promovem a saúde do cidadão urbano. O exercício físico é fundamental para garantir o futuro e uma vida saudável.”

Em busca de uma cidade saudável, Virada da Saúde ocupou diversos espaços de São Paulo.

Em busca de uma cidade saudável, Virada da Saúde ocupou diversos espaços de São Paulo.

Jaime Leme

“Quando entendemos que essas mudanças também precisam ser realizadas no espaço em que vivemos, isto é, as cidades, vejo que tais espaços de promoção à saúde nada mais são do que os próprios espaços públicos. É necessário que os cidadãos possam ocupá-los e fazer uso deles, mas, para isso, é importante que eles sejam também melhorados, reabilitados e replanejados. Pensando em uma cidade para as pessoas, estaremos pensando, consequentemente, na saúde de seus habitantes”, analisa Evangelina.

De acordo com a OMS, uma cidade saudável é aquela que sugere políticas públicas voltadas à utilização dos diversos espaços da cidade como promotores de qualidade de vida. Foi nesse conceito que Sorocaba, no interior de São Paulo, se inspirou para instaurar o programa Cidade Educadora, Cidade Saudável.

Em 2005, a proposta reuniu as pastas da Educação, Saúde, Esporte, Lazer e Cultura, Cidadania e Segurança com a intenção de promover um ambiente urbano mais sustentável, criando parques municipais, ciclovias, academias ao ar livre, megaplantios e despoluindo o Rio Sorocaba.

Diretora da área de Gestão Pedagógica na Secretaria de Educação sorocabana entre 2002 e 2009, Silvia Donnini afirma que, à época, a gestão municipal passou a administrar a saúde ao invés da doença.

“As ações de prevenção de saúde são fundamentais, mas insuficientes. Vacinação é prevenção. Criação de novos hábitos e mudança de comportamento são políticas de promoção de saúde. Ambas são importantes e complementares e devem ser planejadas em sinergia para que possamos potencializar a capacidade educadora da saúde”, afirma.

Silvia também defende o empoderamento do território pela comunidade como fundamental para uma cidade saudável. “A educação na cidade é um bem público. Se isso tornar-se consenso, toda a infraestrutura da cidade pode se voltar para esse princípio.”

A ex-diretora acredita que a população de Sorocaba não apenas incorporou a bandeira do Cidade Educadora, Cidade Saudável, como cobra resultados do projeto. Para ela, a ligação entre a cidade educadora e a qualidade de vida da população – incluindo aí a saúde – é intrínseca. “Perde-se menos tempo de locomoção, pois o trânsito é mais organizado e menos ruidoso; a população tem oferta e se sente mais propensa e encorajada à convivência entre pares na cidade; se torna mais crítica, informada e capaz de contribuir nesse ciclo virtuoso da educação como um bem público e perspectiva intersetorial.”

Rio Sorocaba vIsto do Parque Campolim; limpeza do curso d'água foi uma das prioridades do CIdade Educadora, Cidade Saudável.

Rio Sorocaba vIsto do Parque Campolim; limpeza do curso d’água foi uma das prioridades do CIdade Educadora, Cidade Saudável.

Felipe Demelohra

Fruto de uma parceria das pastas de Educação e Saúde, o PSE pretende proporcionar a participação das comunidades e escolas em programas e projetos que articulem saúde e educação, de modo a contribuir para o fortalecimento de ações na perspectiva do desenvolvimento integral. De acordo com Danielle, o programa é um dos mais capilarizados do Ministério da Saúde e atinge hoje 86% dos municípios brasileiros. “O PSE abre a porta da escola para temas que normalmente não entrariam, como saúde reprodutiva e mental, criando um caminho para a vazão desses conteúdos”.

Gestora de programas de promoção da saúde do Ministério da Saúde, como o Programa Saúde na Escola (PSE), Danielle Alencar Cruz relembra dos tempos de educadora ao citar a importância de o programa extrapolar os muros da escola e ocupar o território do entorno. “Ou isso ou os problemas de dentro da instituição não serão resolvidos. Os alunos vêm com a sua realidade e não a deixam no portão. O tempo todo você tem que considerar ele de forma integral: onde vive, sua família, o que come, quantas horas dorme, se tem direito ao lazer, se o lugar onde mora é violento, tudo isso influi na formação.”

Segundo Daniele, desde 2007, a pasta fomenta programas que utilizam os espaços públicos como locais de lazer e promoção da saúde, incentivando a comunidade a se organizar para reivindicar a construção ou a requalificação desses espaços. “Saúde é uma questão integral. Não estou falando da doença, mas sim do sujeito integral e todo ambiente influencia isso. O espaço favorece a promoção de escolhas. Se a minha cidade tiver um parque eu acrescento opções a minha escolha.”

Ampliando o recorte da saúde, a gestora aponta que esses espaços promovem possibilidades de várias vivências e são favoráveis à socialização, construção de grupos e ao apoio social para alguma prática corporal. “Eles incitam as pessoas a visitarem e a repensarem seus modos de vida.”

Escola de Sâo José dos Pinhais recebe atividade do programa Saúde na Escola.

Escola de Sâo José dos Pinhais recebe atividade do programa Saúde na Escola.

Divulgação

De acordo com pesquisas divulgadas pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, até 2030, a poluição do ar pode causar 250 mil mortes e um milhão de internações no estado de São Paulo, com um gasto público aproximado em mais de R$ 1,5 bilhão. “A poluição atmosférica mata pessoas por infarto do coração e acidente vascular cerebral e está relacionada a três tipos de câncer: o de pulmão, bexiga e mama”, completa Evangelina.

O professor de teatro e dramaturgo, Roberto Otaviano, vê com clareza a necessidade de aproximar a saúde da população em geral e, especificamente, do Jardim Vera Cruz, bairro paulistano que só perde para Cidade Tiradentes em número de jovens grávidas. Para isso, ele utiliza seu conhecimento em cultura.

“Através das artes eu posso dizer alguma coisa para essa comunidade”, observa. Para tanto, ele reuniu 19 estudantes das escolas estaduais Amélia Kerr Nogueira e Doutor Honório Monteiro e, em parceria com a Unidade Básica de Saúde (UBS) da região, está produzindo um espetáculo sobre gravidez na adolescência. A proposta incentiva a discussão do assunto entre os jovens da comunidade e também busca o apoio dos familiares nesse processo.

“Construir o roteiro e atuar dá autonomia à eles. A ideia é que possamos discutir sexo com naturalidade. Por que tanto tabu com o jeito que nós viemos ao mundo?”, questiona. As apresentações começarão em junho e percorrerão cinco escolas do Jardim Vera Cruz, a própria UBS, CEUs e centros culturais, além de um cortejo público e aberto que será feito ao ar livre.

Ensaio de leitura da peça "(In)Desejados", que será encenada em junho no Jardim Vera Cruz.

Ensaio de leitura da peça “(In)Desejados”, que será encenada em junho no Jardim Vera Cruz.

Divulgação

“A possibilidade de impacto é muito grande. Depois da apresentação fazemos um debate com o público, formado por pais e professores, e é uma das partes mais interessantes. Vamos falar de aborto, um tema polêmico que precisa ser aprofundado”, reflete Roberto, que acredita no poder da informação. “Nosso trabalho é justamente espalhar conhecimento que salva, de forma cultural e lúdica, através do teatro.”