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“Vivos os levaram, vivos os queremos”: Familiares dos 43 estudantes desaparecidos no México visitam o Brasil

Pouco mais de oito meses após a trágica noite do dia 26 de setembro de 2014, quando estudantes normalistas da Escola Normal Rural Raul Isidro Burgos foram alvejados, reprimidos, violentados e sequestrados por policiais municipais do estado de Guerrero, no México, as cenas daquele momento não saem da cabeça de Francisco Sanchez Nava, 19, sobrevivente do massacre que vitimou seis jovens e fez desaparecer 43 pessoas.

“Infelizmente, tivemos que passar pela dor do 26 de setembro para que muitas pessoas vejam a situação dos normalistas e do México”, declara o jovem. Naquela noite, estudantes de Ayotzinapa arrecadavam verbas para viajar à Cidade do México e participar dos atos em memória do massacre de Tlatelolco, ocorrido em 2 de outubro de 1968, quando centenas de estudantes que se levantavam contra o governo mexicano foram duramente reprimidos e assassinados.

Separados por 46 anos, é inegável o paralelo entre os dois massacres. “No México, a guerra é contra o povo. Não estamos em uma ditadura, mas parece que é, com tantos crimes de Estado e desaparições forçadas”, relata Francisco. Os dados sobre a violência no maior país da América Central comprovam a teoria: entre setembro e dezembro de 2014, o México registrou cinco desaparecimentos por dia, e o número de homicídios no país cresceu 300% entre 2007 e 2011.

Manifestação "Nos faltan 43", na Cidade do México.

Manifestação “Nos faltan 43″, na Cidade do México.

Fernando García

Um dos estudantes sumidos é primo de Francisco, que, ao lado de um pai e duas mães de outros desaparecidos, participa da Caravana 43 Sudamérica, iniciativa organizada por coletivos e movimentos sociais autônomos para prestar solidariedade com a luta dos familiares. Já foram percorridas as cidades de Rosário, Córdoba e Buenos Aires, na Argentina, além da capital uruguaia, Montevidéu.

Para além da América do Sul, a Caravana 43 já levou familiares dos desaparecidos para os Estados Unidos, Canadá e 12 países da Europa, como Alemanha, França, Espanha e Itália.

Para marcar a chegada dos mexicanos, foi realizada uma coletiva de imprensa na terça-feira (2/6), na sede da Kiwi Companhia de Teatro, no centro de São Paulo – a Caravana passará ainda por Porto Alegre (de 5 a 8/6) e Rio de Janeiro (de 9 a 12/6). No mesmo dia, ocorreu uma intervenção teatral do Coletivo de Galochas, na Praça da Sé, em homenagem à luta dos mexicanos, e um debate com a participação das Mães de Maio, movimento que aponta o Estado como responsável pelo genocídio de jovens, pretos e pobres das periferias brasileiras.

Hilda Rivera, mãe de um dos 43 desaparecidos, Cesar Manuel Gonzáles Hernandez, aponta a semelhança existente entre as reivindicações mexicanas o movimento brasileiro. “Queremos ter uma só voz. Assim como ocorrem absurdos no México, sabemos das injustiças aqui no Brasil também.”

Coletiva de imprensa lotou a sede da Kiwi Companhia de Teatro.

Coletiva de imprensa lotou a sede da Kiwi Companhia de Teatro.

Danilo Mekari

Cabrón!”, exclama Francisco, ao lembrar que antes do sumiço dos 43 estudantes, dois normalistas de Ayotzinapa foram assassinados, em 2011, por se manifestarem pacificamente contra a redução de matrículas da escola por vontade do governo de Guerrero – de 140 para apenas 40 por ano.

Os familiares dos desaparecidos em Ayotzinapa visitarão uma aldeia indígena na zona sul de São Paulo. Ainda nesta quarta-feira (3/6), uma edição especial do Sarau do Binho, em conjunto com outros saraus das periferias paulistas, prestará solidariedade e homenagem a eles, a partir das 20h, no Espaço Clariô (rua Santa Luzia, 96 – Taboão da Serra).

“A Escola Normalista de Ayotzinapa sempre lutou pelos direitos do povo, dos estudantes, e sempre foi reprimida e atacada pelo Estado – podemos dizer que é um estorvo para o Estado, pois protestamos a cada injustiça que vemos, e nos manifestaremos para que respeitem os direitos humanos.”

No México, as escolas normalistas foram criadas em 1926 e possuem estrutura simples. Os alunos – em sua maioria filhos de camponeses ou de indígenas das zonas rurais – vivem em regime de internato e dividem quartos e refeitório. Idealizadas para formar professores que suprissem as necessidades educacionais das áreas mais vulneráveis do país e que atuassem como líderes comunitários, a escola carrega consigo uma tradição de repassar um pensamento diferente do dominante: desde cedo, os alunos costumam protestar contra o modelo econômico mexicano, que marginaliza os camponeses, os indígenas e as comunidades rurais.

Na Sé, coletivo apresenta trecho da peça "Revolução das Galochas", em cartaz aos sábados, às 16h, no coreto do Parque da Luz, até o final de junho.

Na Sé, coletivo apresenta trecho da peça “Revolução das Galochas”, em cartaz aos sábados, às 16h, no coreto do Parque da Luz, até o final de junho.

Danilo Mekari

Jorge Antonio Tizapa Legidero, de apenas 20 anos, sonhava com a profissão de educador. É o que conta Hilda Vargas, sua mãe. “Há oito meses que vivemos um desespero muito grande. A Caravana é uma maneira de nós sairmos do México para difundir essa causa.” Ela afirma que não cansará até encontrar com vida os 43 desaparecidos, mesmo tendo o governo mexicano declarado o caso como encerrado desde o dia 26 de janeiro.

Para Mario Cesar Gonzáles Contreras, pai de Cesar Manuel, nada é maior do que a dor de perder um filho que batalhava por uma melhor qualidade de vida para a sua comunidade. “Não acreditamos na versão do governo porque, cientificamente, nada é demonstrado para a gente de que aqueles corpos queimados são de nossos meninos. Inclusive, podem ser animais ou outras coisas.”

Gratuitas, as escolas normalistas encontram dificuldades para se manter, já que o governo mudou as regras de financiamento escolar. Boa parte dos seus recursos vem de doações arrecadadas pelos próprios estudantes, que não têm apenas aulas sobre plantio e cultivo agrícola, como também formação sobre política.

“Temos que ensinar nossas crianças a se manifestarem, a não se deixarem pisotear pelo cerco às liberdades. Ayotzinapa é uma Normal que se indigna com as injustiças”, reforça Francisco. Segundo ele, as autoridades têm planos de fechar e reprimir todas as 17 escolas normalistas do México, pois sabem que elas trabalham com o despertar da consciência. “Não é à toa que elas estão nas zonas rurais e longe dos grandes centros econômicos.”

O jovem descarta o apoio de qualquer governo institucionalizado do mundo. “Queremos o apoio do povo, dos movimentos sociais, dos meios de comunicação alternativos, pois são eles que nos ajudarão a seguir lutando”, acredita. “Em contrapartida aos governos e economias globalizadas,  que também globalizam a repressão, temos que globalizar a resistência e a luta para fazer a mudança. Cabrón, a injustiça está globalizada. Viemos pedir para que se manifestem por Ayotzinapa, pois vivos os levaram e vivos os queremos!”, encerrou.