Pensar a cidade

Por uma educação que dê voz e vez aos jovens

Por Neca Setubal
Publicado originalmente no Promenino | Fundação Telefônica

A escola do século 21 precisa se constituir como um espaço privilegiado para que a juventude vivencie e experimente processos de participação na esfera pública. Mesmo porque a atuação em conselhos, fóruns, conferências demandará dela um aprofundamento de conhecimento, fluência nas expressões oral e escrita, habilidade para argumentar, negociar e acessar, selecionar e analisar informações.

Neca Setubal é formada em Ciências Sociais pela USP, com mestrado em Ciências Políticas pela mesma instituição e doutorado em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Preside o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e a Fundação Tide Setubal. É autora do livro Educação e Sustentabilidade – Princípios e valores para a formação de educadores (Editora Peirópolis, 2015).

Essas características não podem ser desenvolvidas à parte do currículo - como se fosse necessário parar a aula para debater cidadania e participação -, e sim dentro dele. Além disso, uma vez que a escola deve preparar as pessoas para a vida, ela tem de enfocar questões atuais como mobilidade urbana, saúde, economia, meio ambiente e política, em níveis local e global.

Personalizar o aprendizado é um dos modos de contemplar as múltiplas inteligências e de alcançar os melhores resultados no processo de aprender e ensinar, assim como fazer uso do acesso à internet e ofertar uma aprendizagem mais ligada ao cotidiano e com experiências mais autênticas, que possam ser úteis e duradouras para o jovem.

Não podemos nos esquecer ainda de que a escola é um importante espaço articulador para outros lugares sociais, que compõe o exercício da cidadania, o reconhecimento social e a diversidade cultural. A conexão dela com a comunidade e com outros integrantes do território fortalece a possibilidade de formação desses jovens.

Uma escola que considera e potencializa a iniciativa juvenil precisa ter escuta para as demandas que afloram nas ruas, como nas manifestações de junho de 2013, com maciça participação juvenil pelo país. Deve estimular a apropriação dos espaços da cidade e o acesso aos equipamentos culturais, ampliando o repertório e enfrentando a segregação espacial das cidades.

Engajar o jovem na participação pública e na mobilização social já tem se mostrado como uma via para o desenvolvimento. No meu novo livro Educação e Sustentabilidade – Princípios e valores para a formação de educadores, produzido a muitas mãos, verificamos que já existem dezenas de iniciativas, no Brasil e fora daqui, em que o jovem é, ao mesmo tempo, beneficiário e agente de ações, programas, projetos e políticas de desenvolvimento local.

Por exemplo: práticas educativas que promovem a expressão comunicativa do jovem e o auxiliam a saber como a mídia funciona desenvolvem o senso crítico e a autonomia. Essa leitura crítica da mídia leva o jovem a ler o seu mundo de uma nova forma, a participar politicamente dele e a se envolver com a comunidade da escola e de fora dela.

Uma educação realmente compromissada com o mundo contemporâneo tem de ajudar o jovem a achar nele o seu lugar, por meio de questionamentos sobre o que significa se relacionar em comunidade e construir uma sensação de pertencimento. Nesse quadro, nosso grande desafio, como educadores, é construir, na prática, uma educação de qualidade para todos, centrada em valores duradouros, que colabore para fortalecer a coesão social e as novas formas associativas que constituem a cidadania.