Aprender na cidade

Protagonizado por crianças, Cortejo Poético espalha sorrisos pelo centro de São Paulo

As buzinas e sirenes tão recorrentes no trânsito paulistano deram lugar aos sons de inúmeros instrumentos como trompete, flauta, escaleta e violão, acompanhados por uma potente batucada. A moto que acelera antes mesmo do sinal esverdear viu seu espaço tomado por um estandarte.

Aos poucos, o asfalto da rua da Consolação foi perdendo carros, ganhando cores e se transformando em passarela para um desfile catártico que tomou o centro de São Paulo nesta quinta-feira (20/8).

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

Fantasiados, os protagonistas da ação – estudantes das EMEIs Gabriel Prestes e Armando de Arruda e da EE Caetano de Campos – distribuíam alegria e arrancavam largos sorrisos de quem estava por ali, comprovando a ideia de que uma cidade que acolhe as crianças e jovens em seus espaços públicos se torna mais saudável, democrática e educadora.

Batizado de Cortejo Poético das Infâncias Paulistanas, a ação foi realizada pela segunda vez em São Paulo, através de uma parceria entre as três instituições de ensino e movimentos da sociedade civil que defendem o rompimento dos muros da escola, aproximando-a de seu entorno, fazendo-a dialogar com os diferentes atores comunitários, apropriando-se do território educativo.

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

Às 14h, o Cortejo saiu da EMEI Gabriel Prestes em direção à Praça da República, onde os alunos da Armando de Arruda esperavam os colegas com uma saudação carinhosa. Dentro do espaço escolar, as crianças apresentaram uma dança xavante, resultado de um estudo sobre a história e os costumes de 20 tribos indígenas do Brasil. Elas também portavam cocares inspirados nos pataxós e estavam pintadas como guaranis.

Após uma pausa para o lanche, o coro tomou as vias com energia renovada e proporcionou um momento inesquecível na rua General Jardim: dezenas de estudantes da Escola da Cidade e funcionários da Secretaria Municipal de Saúde saíram as janelas para saudar e aplaudir aquelas crianças que iluminavam ainda mais o dia ensolarado. A comitiva cruzou o Minhocão e seguiu até a Biblioteca Monteiro Lobato.

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

Para além das crianças, o Cortejo contou com a participação de professores, diretores, gestores, ativistas, famílias e músicos, além da ajuda da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Também contou com a adesão de quem estava à toa pelo centro e se encantou com a potência da infância. A estimativa oficial da GCM é que cerca de 250 pessoas participaram do Cortejo, que abriu os preparativos para a Virada Educação, a ser realizada no dia 19/9 (sábado).

O Portal Aprendiz estava presente e colheu a opinião de diversos atores sobre a ação que escancarou as possibilidades educadoras do centro da cidade. Confira!

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#1 A FAMÍLIA

“Meu filho está amando. Ele é todo musical e alegre e eu percebo que atividades como essa fazem uma diferença enorme no comportamento dele. A EMEI Gabriel Prestes estimula que as crianças brinquem mais, ao invés de serem alfabetizados tão precocemente. É uma escola que preza o desenvolvimento natural da criança. Aqui ele tem o tempo para brincar e essa é a fase ideal para isso, pois não vai voltar nunca mais.

Sair ao espaço público os torna responsáveis. Faz conhecer as pessoas, as ruas, a cultura. A rotina escolar não permite que você conviva com as diferenças sociais. Para mim é uma alegria, vejo que eles ficam felizes com o aprendizado. Eu mesmo tenho coisas que só estou aprendendo aqui e agora. Sempre que posso apoio e participo para melhorar a escola. Pedi folga do trabalho para não perder esse momento inesquecível.”

Tânia Oliveira, mãe de Rafael, 5

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#2 O GESTOR

“Este é um acontecimento muito importante. Mais do que o evento, o processo educativo que ele representa, sobretudo no que se refere à recuperação dos espaços públicos da cidade. Hoje, criou-se o mito de que a rua é um ambiente hostil, perigoso, dominado pelo crime, sobretudo no centro da cidade. Não é bem assim. Embora haja cuidados para serem tomados, a superação disso passa também pela retomada das pessoas na rua. Lugar de criança também é na rua.

A cidade vai ser um lugar seguro se as pessoas a ocuparem. Nada melhor do que trabalhar essa mentalidade já com as crianças, envolvendo educadores e famílias nessa ação, que considero vanguardista – o pontapé inicial está sendo dado pela EMEI Gabriel Prestes, mas julgo que é uma tendência, pois não há futuro com uma cidade hostil.”

José Luís Salmásio, supervisor escolar da Diretoria Regional de Ensino (DRE) Ipiranga

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#3 OS ATIVISTAS

“É muito poético esse movimento de andar pelas ruas vivenciando o que há de bonito nesse caminhar. A gente está possibilitando que as pessoas, crianças e educadores tenham uma experiência de cidade que crie uma memória afetiva marcante. Não tem nem como dimensionar o impacto disso na vida de um estudante, inclusive na vida de um adulto. Vale ressaltar que, para que uma ação dessas aconteça, muitas articulações e muitas pessoas precisam dialogar.”

André Gravatá, do Movimento Entusiasmo

“O Cortejo está acontecendo lindamente. É muito legal ver as escolas de um mesmo território se relacionando, alunos se conhecendo e dançando juntos.”

Matheus Andrade, do Coletivo Apé – Estudos em Mobilidade

“A quem a cidade deve ser feita? A quem cabe construí-la? É muito legal uma atividade como essa, a criançada despertando esse olhar de pertencimento, de reconhecimento, resgatando o olhar coletivo de construção da cidade. Vivemos um momento de explorar novos caminhos do ensino e participação cidadã, e é muito bacana mostrar que o ensino pode acontecer fora dos muros da escola.”

Gut Simon, coordenador de comunicação da Rede Minha Sampa

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#4 A PROFESSORA

 “A semana inteira as crianças ficaram na expectativa do Cortejo. Uma mãe me contou que seu filho, acostumado a acordar ao meio-dia, estava levantando às sete da manhã.

Foi muito emocionante ver os olhos deles descobrindo a cidade. É tanto aprendizado que a gente nem consegue mensurar. Eles nos dão retorno. Assim que voltamos, pedi para definirem o passeio em poucas palavras. ‘Parque de diversões’ disse um, ‘supimpa’, ‘muitas descobertas’ disseram outros. Foram muitos significados para eles – tanto que por vezes nem conseguem verbalizar, mas percebemos no sorriso, no olhar. Isso é trabalho realizado.

Quando paramos na Biblioteca Monteiro Lobato, uma mãe botou a mão no meu ombro e disse: ‘hoje eu descobri um pouquinho como é ser professor’. Os olhos dela marejaram. Fiquei tocada com o olhar dela, que continuou: ‘também descobri hoje que quero ser professora’. Então são descobertas para todo mundo, não apenas para crianças.”

Érika Silva, professora da EMEI Gabriel Prestes

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#5 A GUARDA CIVIL MUNICIPAL

“A direção da EMEI Gabriel Prestes fez o pedido para a GCM acompanhar o Cortejo, falando do caráter pedagógico do evento, das crianças conhecendo a cidade. Já é a segunda vez que fazemos esse tipo de trabalho. Fizeram uma visita pra demonstrar como era o deslocamento em alguns pontos e nos colocamos a disposição de ajudar.

A gente não poderia se furtar de dar apoio para a área de educação que fomenta nas crianças o conhecer na cidade. A GCM já tem um trabalho voltado para a área escolar: um de nossos programas é o de Segurança Escolar. Quando se fala no deslocamento de crianças a pé precisa ter o envolvimento do corpo docente, corpo discente e os pais têm que estar cientes. Deliberei que viaturas e motos acompanhassem o trajeto para conduzirem as crianças até a Biblioteca Monteiro Lobato.

Espero que as direções das unidades envolvidas tenham ficado satisfeitas com o nosso trabalho e me coloco novamente a disposição de poder ajudá-las em outros eventos. O nosso trabalho sempre foi focado no apoio às crianças.

A cidade é efervescente culturalmente. É muito legal essa iniciativa para que as crianças conheçam as bibliotecas, o teatro municipal e outros pontos turísticos da capital. Temos que dar apoio e estar junto. É legal que as crianças consigam enxergar no GCM um guarda educador. Não queremos um uniforme que afasta, e sim que aproxime.”

Inspetor Rubens, comandante da unidade Consolação/Pacaembu da GCM

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#6 OS PASSANTES

“Interessante as crianças conhecerem a cidade como é, e não apenas o trajeto de casa para a escola e vice-versa. Me parece uma atividade diferente, para elas aprenderem a se comportar na rua, a agir em grupo. Os professores que elaboraram tiveram uma boa ideia.”

Regina, que esperava ônibus na rua da Consolação

“Adorei ver as crianças passeando, todos caracterizados, muito bonitinhos. O pessoal animando na frente estava melhor ainda. Tem que mostrar um pouco da cidade para elas que, às vezes, só conhecem lugares com os pais, e é outra visão quando se está com professores e amigos. Foi a primeira vez que vi algo assim.”

Keite, que vende caldo de cana de segunda a sexta-feira na Praça da República

“Desde pequena, a criança tem que conhecer o local onde vive. É importantíssima a saída de dentro da sala de aula. Estou feliz vendo essa garotada passear na praça. Sou totalmente a favor da cultura e de uma nova educação.”

Domingos Nelson, engenheiro eletrônico que participava de manifestação de professores estaduais na Praça da República

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.

#7 OS MÚSICOS

“É maravilhosa a energia que as crianças passam para nós. Uma coisa de louco. A rua é da criança, ela tem que estar ali, brincando e se divertindo, e não presa em uma escola como se fosse uma cadeia. Tem que ser livre, mudar a rotina, botar a cara na rua, no sol. Todos os lugares onde passamos com as crianças, as pessoas pararam e ficaram felizes. Nada paga isso!”

Márcio, do grupo de maracatu Baque Atitude

“Para mim, o que aconteceu aqui foi uma revolução. Sair com as crianças pelo espaço público, fazendo um ato poético com elas, é sensacional, é pensar não apenas no futuro, mas sim atuar no presente.

Como interagir com a paisagem sonora de São Paulo? Podemos considerar os motores de carros roncando como música? As crianças interagiram e tentaram se harmonizar com esse barulho e isso é muito rico. Se algo ficar na memória deles, já vão ter outro contato com a questão da apropriação da cidade. O que fizemos hoje é uma revolução pelas crianças e com as crianças.”

Ivan de Carvalho, músico da banda Trupicalhada

Cortejo Poetico leva crianças às ruas de São Paulo.Todas as fotos são de Danilo Mekari.