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EMEI Chácara Sonho Azul catalisa fusão entre cultura e educação no Fundão do Ângela

Como a conexão entre cultura e educação podem potencializar o desenvolvimento de um Território Educativo? Foi buscando respostas para esse desafio que a EMEI Chácara Sonho Azul, em parceria com a Cidade Escola Aprendiz, realizou o “Seminário Conexões nos Territórios: Cultura e Educação – aproximações necessárias”, no último sábado (26/9), no Fundão do Jardim Ângela, extremo sul de São Paulo.

O evento recebeu representantes da Diretoria Regional de Ensino do Campo Limpo, de organizações sociais e de coletivos e projetos culturais para discutir como educação e cultura podem estimular o protagonismo de crianças e adolescentes. “Quem tem condições de valorizar o território é quem está no território. É também função da gestão escolar correr atrás dos equipamentos públicos de cultura”, afirmou o diretor da EMEI, Antonio Norberto Martins.

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

“Quem tem condições de valorizar o território é quem está no território.”

Danilo Mekari

Segundo ele, o Fundão do Ângela – região que compreende os bairros Chácara Sonho Azul (onde está localizada a escola), Chácara Bananal, Bombeiro, Jardim Capela, Vila Guiomar, Jardim Arizona, Jardim Vera Cruz, Jardim Aracati, Jardim Horizonte Azul e Vila do Sol – possui muitos potenciais culturais, expressos nas mais diferentes linguagens, como dança, teatro, grafite e hip hop.

O evento, que também contou com a exibição do filme “Território do Brincar”, de Renata Meirelles, e o lançamento do ateliê de artes da escola, denominado “Fazendo Arte”, foi também o encerramento do projeto “Fortalecimento dos Fóruns e Redes de Defesa da Criança e do Adolescente no Fundão do Jardim Ângela”, realizado pelo Aprendiz desde outubro de 2014. A iniciativa identificou pessoas, coletivos e instituições que atuam na região e promoveu rodas de conversas e encontros formativos sobre a realidade local.

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

No território, cores da escola saltam aos olhos.

Danilo Mekari

Diagnóstico

Para compreender melhor o território, o projeto realizou um diagnóstico a partir de um raio de dois quilômetros a partir de uma das escolas públicas do Fundão do Ângela, a Escola Estadual Honório Monteiro, foi revelado que quase metade da população local (48% de 134.910 indivíduos) é composta por crianças e jovens de até 24 anos; um quarto da população em idade escolar (cinco a 17 anos) não frequenta instituições de ensino; em 2010, 68% não possuía rede de esgoto; a taxa de mortalidade por agressão é a sétima maior entre os 96 distritos da capital paulista.

“O projeto mostrou a importância de abrir as portas das escolas para parcerias com a comunidade, sendo ela um lugar para discutir e pensar as vulnerabilidades do território”, observou Wendy Villalobos, gestora da iniciativa. Para Renato Rocha, articulador do projeto e integrante do Coletivo Dedoverde, “a região está se preparando para fazer algo diferente em relação à educação e cultura. Se começarmos a nos apropriar do espaço público, podemos fazer a diferença.”

Escola que transforma o território

O pernambucano José Jaílson da Silva conheceu o Jardim Ângela em 1997, através das notícias do programa televisivo Cidade Alerta. “Diziam que era o bairro mais perigoso de São Paulo”, relembra. No ano seguinte, Jaílson se estabeleceu na região. “Essa realidade mudou um pouco – mas não pela presença do Estado, e sim pela própria comunidade se conscientizando de seu papel transformador.”

Hoje, Jaílson é um líder comunitário e membro da executiva do Fórum Viva Fundão, além de ser agente comunitário de saúde da UBS Vila Calú e diretor do sindicado do setor. Ele elogia a parceria da EMEI Chácara Sonho Azul com os coletivos de cultura locais. “É um orgulho saber que no Fundão do Ângela muitas escolas particulares não têm a qualidade e o envolvimento dos profissionais que existe aqui. Sair do muro das escolas é fortalecer uma pedagogia que foge dos padrões que o Estado determina.”

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

Acompanhados de pais e professores, crianças produzem mosaicos no lançamento do “Fazendo Arte”.

Guilherme Perez

Fundada em novembro de 1997, a EMEI Chácara Sonho Azul atende aproximadamente 280 crianças da região. Desde 2007, a escola vem desenvolvendo atividades e projetos que buscam relacionar os conteúdos à realidade dos alunos.

“A EMEI Chácara Sonho Azul é protagonista da história de sua região e isso não é pouco”, elogiou o diretor regional da DRE Campo Limpo, Alexandre da Silva Cordeiro. Ele falou sobre a renovação do projeto político-pedagógico da DRE, que em 2013 ouviu moradores da região que pediam mais articulação entre cultura e educação. “É só nas escolas que esses temas se separam. O movimento tem que ser o contrário, a escola tem que ser catalizadora desse desejo.”

Cultura na escola

Uma das conexões estabelecidas no território aproximou o coletivo SPClan, que busca valorizar a produção cultural da periferia, da EMEI Chácara Sonho Azul. Desse contato, surgiu o evento “Revitavila – Cor na Quebrada”, realizado em maio deste ano e que uniu alunos, pais e moradores do bairro para atividades culturais, como sarau de poesia e apresentações de hip hop, e de requalificação dos espaços escolares. O muro da escola, por exemplo, ganhou desenhos das próprias crianças, reproduzidos por meio do grafite. O resultado é nítido: avista-se as cores da escola de longe.

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

Grafite feito pelos estudantes durante o evento Revitavila.

Danilo Mekari

Segundo Bruna Teotonio, integrante do coletivo, a maioria das escolas são pensadas para formar pessoas para o mercado de trabalho e não atuam como um meio de acesso à cultura e ao entretenimento. Ela revelou que o SPClan tem a intenção de produzir o Revitavila em outros lugares para além das escolas.

Gisleine Oliveira, funcionária da escola e idealizadora do projeto 3 As – Arte, Afeto e Acolhimento: a criança e o hip hop, lembrou que a parceria da EMEI com o SPClan continua aos sábados, com oficinas de cultura hip hop. No próximo dia 30/10, o grupo revitalizará a praça vizinha à escola, com plantação de mudas de árvores e limpeza.

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

MC Mirim se apresenta durante o debate.

Guilherme Perez

A escola também estreitou relações com a produtora “A Banca”. Marcelo Rocha, vulgo DJ Bola, é morador da região e se considera um sobrevivente da época em que o Jardim Ângela era o lugar mais violento do mundo. “Conhecemos a cultura hip hop, fortalecemos nossas raízes e fomos desbravando o mundo fazendo o que a gente sabe fazer”, afirmou. Durante o evento, seu filho, Pedro Henrique Silva da Rocha, de 10 anos – apelidado MC Mirim –, cantou o rap Versos Impactantes. “Isso é traduzir cultura e educação em música”, resumiu DJ Bola.

Fazendo Arte

Lançado no evento, o ateliê de artes da EMEI Chácara Sonho Azul possui materiais reciclados e um teto verde. “Assumir a arte como central significa uma postura política: a cultura no centro do trabalho da escola. Vai fazer diferença na maneira como convivemos na comunidade”, pontuou Cinthia Manzano, do Instituto Avisa Lá. “Aqui, as crianças pequenas são produtoras de cultura e isso pode ser partilhado com a sociedade.”

Conheça a escola que se abriu para a comunidade, mudou suas práticas na educação e fortaleceu o desenvolvimento de um território educativo em São Paulo.

Ateliê quer estimular a produção artística e autonomia dos estudantes.

Roberta Tasselli