Criar na cidade

Em Joinville, plano de mobilidade ativa prioriza o caminhar pela cidade

Uma pesquisa realizada pelo engenheiro viário Philip Gold, em 2010, mostra que até 40% dos deslocamentos nas áreas urbanas brasileiras são feitos exclusivamente a pé, e quase todos os demais deslocamentos (automóvel, ônibus, trem) incluem trechos percorridos a pé.

Aqueles que optam unicamente pelo modelo pedonal de transporte têm evidentes benefícios não apenas para a saúde, mas também para o aprimoramento da relação com o espaço, com o tempo e com o outro. Afinal, o tempo do caminhar é único e dispensa previsões de tráfego; possibilita a observação de detalhes e aspectos pouco valorizados em espaços urbanos; e, em suma, deixa aberta a possibilidade de descobrir o novo, onde quer que ele esteja.

Nas cidades, andar a pé pode ser uma alternativa aos caóticos sistemas de transporte público e coletivo e também ao crescimento do número de veículos motorizados individuais. Foi pensando nisso que a Prefeitura de Joinville, em Santa Catarina, lançou no dia 18/12 o caderno prévio do Plano Diretor de Transportes Ativos (PDTA).

O PDTA foi fundamentado em conceitos sobre mobilidade urbana sustentável divulgados pelo Ministério das Cidades através da Política Nacional de Mobilidade Urbana.

O documento faz parte da estratégia de implementação do Plano Municipal de Mobilidade Urbana (PlanMob), instituído em março de 2015. Além de versar sobre o transporte cicloviário, o PDTA tem o objetivo de qualificar os deslocamentos a pé através da renovação das calçadas e da elevação da segurança de pedestres nas travessias viárias.

Atualmente, 23% dos deslocamentos em Joinville são realizados a pé. Para manter essa taxa acima dos 20% – uma das metas do plano para o ano de 2025 –, está prevista a elaboração de um estudo quantitativo e qualitativo que determine o índice de caminhabilidade (walkability) das calçadas na cidade.

“A caminhabilidade busca avaliar o grau de adequação das calçadas aos deslocamentos a pé, ou seja, o quanto as calçadas das cidades proporcionam aos pedestres um caminhar seguro e confortável, através da valoração de critérios e atributos”, afirma o documento. “Andar é a maneira mais natural, acessível, saudável e limpa de se movimentar, mas requer mais que apenas pés e pernas. Requer ruas onde se possa andar e isto é fundamental para a construção de uma cidade sustentável.”

O Plano Diretor de Transportes Ativos quer qualificar a mobilidade a pé através da renovação das calçadas e da elevação da segurança de pedestres.

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Itens como arborização e mobiliário urbano nas calçadas serão qualificados, assim como a implantação de iluminação pedonal em locais de maior fluxo de pedestres e a inclusão de sinalização tátil e sonora para pessoas com deficiência visual, além da possibilidade de aumentar o tempo de travessia para pedestres idosos ou com mobilidade reduzida. Ao recomendar a criação de passeios públicos próximos aos rios de Joinville e à Baía da Babitonga, o Plano fala em estimular “o caminhar e inserir a paisagem no cotidiano da cidade”.

Joinville também é conhecida como a “Cidade das Bicicletas”. Na década de 1970, 30% dos deslocamentos diários eram realizados por bicicleta – número que caiu para 11% em 2010 (taxa muito acima da média brasileira). A meta do PlanMob é elevar para 20% até 2025.

Entre os resultados previstos, espera-se reduzir anualmente em 10% o número de acidentes de trânsito até 2020, assim como o número de vítimas fatais. A produção do documento foi compartilhada por vários órgãos municipais – entre eles o de planejamento, de meio ambiente, de trânsito, de infraestrutura e de administração –, mostrando a importância da intersetorialidade na criação de políticas urbanas.

Segundo Carolina Silveira, arquiteta e urbanista do Instituto de Pesquisa e Planejamento para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville (IPPUJ), o PDTA ficará aberto para consulta pública durante o mês de janeiro de 2016, quando serão recolhidas sugestões e opiniões dos habitantes. Em fevereiro, deve ocorrer uma audiência pública sobre o tema.

O Plano Diretor de Transportes Ativos quer qualificar a mobilidade a pé através da renovação das calçadas e da elevação da segurança de pedestres.

O processo de produção do PDTA também contou com pesquisas virtuais e encontros presenciais para debater a mobilidade pedonal e cicloviária. As pesquisas mostraram que 58% da população joinvillense utiliza os transportes coletivo e ativos – portanto, “tanto o PlanMob quanto o PDTA foram pautados nas premissas de priorização desses modais”, prossegue o texto.

“Transmutar os hábitos de uma sociedade não é tarefa fácil. Fazê-la migrar de uma cultura automobilista e focada em atividades (em espaços fechados) para uma cultura de liberdade e apropriação da cidade, através do caminhar, é missão desafiadora, mas necessária”, conclui o PDTA.