Transformar a cidade

Retrospectiva 2015: O movimento secundarista que chacoalhou a educação brasileira

Podemos afirmar tranquilamente que 2015 foi um ano histórico para a educação brasileira. Não por causa de uma melhora inédita nos índices de aprendizagem da população, ou por conta do sucesso de algum programa específico – a verdade é que o Brasil ainda se encontra muito distante da sonhada e divulgada “Pátria Educadora”.

Quem protagonizou um fato inédito na educação do país foram aqueles que deveriam estar sempre à frente das discussões sobre o tema, mas são repetidamente deixados de lado: os estudantes. Mobilizados contra a proposta de “reorganização do ensino” do governo de São Paulo, que pretendia fechar 92 escolas e transferir mais de 300 mil alunos da rede pública sob o argumento de que era necessária uma separação em ciclos únicos (Fundamentais I e II e Médio) para melhorar o desempenho, os jovens secundaristas foram ocupando, uma a uma, mais de 200 escolas estaduais, se posicionando frontalmente contra a proposta e, principalmente, à falta de diálogo sobre educação perante às autoridades públicas.

O movimento ocupou não só escolas, mas também as ruas de diversas cidades do estado e se espalhou pelo Brasil: em Goiás, secundaristas também tomaram suas escolas para barrar a privatização do ensino público. Após um mês de mobilização intensa, em que os estudantes conquistaram o apoio público de diversos segmentos da sociedade civil e descobriram uma nova escola – onde eles podem construir sua própria educação, livre das amarras de um projeto pedagógico conservador e alienante -, o governador Geraldo Alckmin se viu obrigado a revogar o decreto da reorganização.

Ciente da importância histórica da mobilização secundarista, o Portal Aprendiz preparou, nesta última retrospectiva de 2015, um especial com as diversas reportagens realizadas antes, durante e após as ocupações de escolas.

#1 Reestruturação “na marra” de escolas desterritorializa estudantes e prejudica qualidade de ensino

Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo), afirmou que o processo de reorganização escolar terá um impacto muito grande sobre a vida dos estudantes e suas famílias, já que em muitos casos eles serão obrigados a estudar em outro bairro, o que afeta a relação com o território.

“Um estudante que está na escola do bairro A pode ser transferido para o meio do bairro B. Quando você troca de bairro, pode não se sentir incluído; as pessoas serão obrigadas a trocar de escola na marra. Isso é muito ruim e afeta diretamente a qualidade do ensino”, afirmou.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#2 Em São Paulo, ocupações de escolas se fortalecem com o apoio da comunidade

A forma de resistência encontrada pelos estudantes da EE Antonio Manoel Alves de Lima foi chamar a comunidade, os pais e movimentos sociais para dentro das escola. Saraus, debates, rodas de samba e outras atividades ocupam o dia a dia dos estudantes. Eles também decidem o passo a passo da ocupação por meio de assembleias, que ocorrem muitas vezes ao dia. Nelas, socializam informações e levantam as necessidades da ocupação como comida, água e materiais.

Nesse ponto, novamente a comunidade entra como ator essencial ao auxiliar a luta dos estudantes. Os pais e moradores próximos ajudam a trazer aquilo que os alunos ocupados precisam. Os estudantes também passam de casa em casa, pelo bairro, pedindo solidariedade.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#3 Reorganização dissocia escola da vida no bairro, apontam especialistas

Para a arquiteta e educadora Beatriz Goulart, o momento é propício para reflexões sobre a educação contemporânea. Ela considera que a escola é mais do que espaço físico e vaga: ela é uma relação. “Esse corpo que luta, com apoio das famílias, essa integração de sujeito usuários, é algo quase inédito. Com isso, os estudantes têm a dimensão do que é ter uma escola com participação da comunidade. Então é uma boa hora para se perguntar: que escola a gente quer?”

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#4 Mãe pede demissão para apoiar ocupação de escola: “Eles estão aprendendo a lutar”

A informação de que a escola fecharia, em decorrência do processo de reorganização escolar, caiu como uma bomba na família. Primeiro, porque a filha perderia o espaço no qual havia acabado de se adaptar. Segundo, Ysabella teria que estudar em outra unidade, mais distante, e demoraria pelo menos uma hora e meia para chegar, ou seja, entre ida e volta, passaria três horas no trânsito por dia.

Quando Ysabella contou à mãe que, junto com outros estudantes, havia ocupado a escola em protesto contra o seu fechamento, Bárbara respondeu de pronto: “Por que você que não me avisou antes? Posso ajudar vocês no que precisarem”.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#5 Governo Alckmin faz manobra estatística em estudo que justifica fechamento de escola

Os argumentos oficiais não justificam o custo social e pedagógico que a reorganização acarretará. É razoável que as escolas que alcancem melhores resultados sirvam de inspiração para as reformas educacionais comprometidas com a melhoria da educação. No entanto, certamente este não é o caso da reorganização proposta. Se fosse, não encontraríamos na lista das 94 unidades a serem fechadas 30 escolas com desempenho acima da média no Idesp 2014.

O governo, que se recusava a apresentar o estudo que fundamenta sua proposta, foi obrigado a fazê-lo, quando o jornal O Estado de São Paulo recorreu à Lei de Acesso à Informação. O governo tinha motivos (inconfessáveis) para ocultá-lo. O “estudo” apresentado somente embasa a reorganização se admitirmos a manipulação de dados e a inépcia metodológica. A divulgação desse documento seria razão suficiente para a queda de um secretário, mas parece que já nos conformamos às manobras estatísticas desse governo.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#6 “Zeramos a escola”: Jovens criam espaços vivos de aprendizado dentro das ocupações

“Não temos idade, mas temos maturidade”, afirma Leandro*, 18, na entrada da ocupação da EE Antonio Manoel Alves de Lima, localizada a meio quilômetro da EE Marilsa Garbossa. A ocupação também realiza frequentemente atividades culturais e educativas. Por lá já aconteceram o Sarau Preto no Branco; um debate sobre a formação da escola pública no capitalismo, com a presença do Coletivo Katu; exibições dos filmes Panteras Negras e A Revolução dos Pinguins; e a criação de uma horta no local.

A intenção do governo é fechar o ensino médio e o EJA e deixar na escola apenas o ensino fundamental. A estudante Graciane* definiu a experiência inédita da ocupação como a melhor de sua vida. “Zeramos a escola. Agora está bem mais limpa. Antes, pra cortar qualquer pedaço de grama precisava passar por uma burocracia enorme. Nós somos ação direta”, conclui.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#7 Estudantes anunciam continuidade das ocupações em São Paulo

A estudante Íris*, da ocupação da EE João Kopke, localizada no centro de São Paulo, estava na manifestação que foi duramente reprimida pelas forças de segurança na manhã dessa sexta-feira (4/12) e que terminou com a imagem de estudantes comemorando o anúncio de Geraldo Alckmin em frente ao Palácio Caetano de Campos, sede da Secretaria de Educação do Estado, na Praça da República. Ela, porém, garante que não abriu um sorriso.

“O pessoal da João Kopke e muitas outras ocupações não comemoraram nada. O motivo da nossa luta é a revogação total da reorganização escolar, e não apenas a sua suspensão temporária”, enfatizou. “Até lá, continuaremos ocupando a nossa escola.” Ela afirma que as atividades marcadas para acontecer no final de semana, como aulas e oficinas, acontecerão normalmente.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#8 Estudantes de Goiás ocupam escola contra terceirização e militarização da educação

Diante da ameaça de “terceirização”, “privatização” e contra a militarização da educação, estudantes , professores e um grupo de apoiadores de Goiânia (GO) ocuparam na tarde desta quarta-feira (9) a Escola Estadual Professor José Carlos de Almeida.

No último dia 14 de outubro, o governador do Estado, Marconi Perillo (PSDB), assinou um decreto que determina que a Secretaria de Educação de Goiás (Seduc-GO) faça até 31 de dezembro a seleção das Organizações Sociais (OS’s) que estariam dispostas a assumir a gestão de escolas. O plano do governo do estado é entregar já em 2016, cerca de 15% da gestão das escolas públicas estaduais para OS’s.

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#9 Pablo Ortellado: Movimento dos secundaristas deve ser visto como desdobramento do espírito de junho de 2013

“O movimento dos secundaristas e toda a rede de apoio popular que se formou em volta dele deve ser visto como desdobramento daquele espírito de junho de 2013 original, de defesa dos direitos sociais por meio de um antagonismo com o Estado”, defende o professor Pablo Ortellado, que enxerga nos dois episódios a consolidação de uma nova forma de fazer política no Brasil, longe do sistema partidário. “Me parece que a tendência é os movimentos experimentarem mais esse modelo de pressão política por fora das instituições.”

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.

#10 “A gente devia manter essas escolas ocupadas e falar para os estudantes: assumam”

O Portal Aprendiz entrevistou a diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda, que esteve no Ministério da Educação, entre 2007 e 2012, como Secretária Nacional de Educação Básica, além de ter presidido a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e atuado como Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte (MG). Em sua análise, a educadora mistura elementos de quem já esteve na institucionalidade com o entusiasmo de quem acompanha de perto os estudantes transformando de forma autônoma sua educação. E faz uma proposta ousada: por que não deixar a escola nas mãos dessa rapaziada?

2015 foi um ano histórico para a educação brasileira por conta da mobilização secundarista que ocupou mais de 200 escolas estaduais em São Paulo.