Transformar a cidade

Seis iniciativas revelam como São Paulo pode integrar os refugiados à cidade

São Paulo é conhecida por ser muito mais que uma cidade comum. Apesar de seus incontáveis problemas sociais, ninguém nega que a capital paulista é uma megalópole tão diversa quanto desigual, construída por pessoas que vieram de todos os cantos do Brasil e do mundo. Recentemente, novos rostos e culturas estão lutando para conquistar seu espaço na cidade: os refugiados e solicitantes de refúgio.

Nos últimos cinco anos, o número de refugiados que escolheram o Brasil para viver praticamente dobrou: de 4.218 em 2011 para 8.400 até agosto de 2015, segundo dados do Ministério da Justiça. Mantendo a sua característica histórica de polo migratório brasileiro, a cidade – que completou 462 anos nesta segunda-feira (25/1) – também é a preferida de quem chega ao país em busca de refúgio: em 2014, foram 3.612 solicitantes.

São mais de 80 nações hoje representadas no Brasil, fato comemorado por Paulo Farah, diretor da BibliAspa (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul – Países Árabes). “São Paulo e o Brasil como um todo têm que aproveitar a presença tão rica e importante dessas pessoas – tanto para conhecer e prestigiar suas culturas como para aprender sobre diversidade e convivência no espaço público”, acredita. “Devemos manter essa postura de acolhida, diferente do que acontece na Europa.”

 

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria, Líbano, Angola, Haiti e Congo, entre muitos outros. Para integrá-los da melhor maneira possível e dar oportunidade para que tenham uma vida digna em seu novo país, algumas iniciativas têm se destacado – desde trabalhos em parceria com equipamentos culturais e cursos de idiomas à possibilidade de valorizarem a culinária de seus países de origem.

O Portal Aprendiz selecionou alguns desses espaços e lugares que têm facilitado a integração dos refugiados e solicitantes de refúgio com a cultura e a correria do dia a dia de São Paulo. Confira!

#1 Museu da Imigração

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria e Angola, entre outros.

Exposição “Cartas de Chamada de Atenção”.

Museu da Imigração

Conhecido por hospedar grande parte da memória que se refere à imigração no Brasil, o Museu da Imigração tem trabalhado para dar voz aos refugiados e suas culturas através de atividades, oficinas e até mesmo exposições. Em 2014, em parceria com o ACNUR e a IKMR, o espaço cultural expôs desenhos realizados por crianças refugiadas e, em 2015, cedeu um local para o ensaio de coral delas.

A cidade de São Paulo será sede do VII Fórum Social Mundial de Migrações, que será realizado entre os dias 7 e 10/7 e reunirá imigrantes de diversas nacionalidades.

Também no ano passado, uma parceria com o Arsenal da Esperança levou o Museu a trabalhar em conjunto com alguns refugiados e solicitantes de refúgio que estavam alojados em uma casa de acolhida que funciona no local. Além de visitas educativas, foram expostas cartas em que os refugiados explicam as causas do migrar e suas consequências.

Segundo Tatiana Waldman, analista de relações institucionais do Museu, o espaço deve cumprir o papel de promover o diálogo e ser um ponto de encontro entre as migrações do passado e os deslocamentos contemporâneos. “Buscamos entender qual é a dinâmica atual das migrações”, observa.

No próximo dia 13/2, será aberta a exposição “Do retalho à trama”, que mostrará o trabalho de mulheres sul-americanas e africanas que utilizam o bordado em tecidos para contar suas memórias de migração – em técnica semelhante à utilizada pelas mulheres arpilleras.

#2 Abraço Cultural

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria e Angola, entre outros.

Alunos e professores dançam durante aula cultural do curso.

Ilana Goldsmid

Após a realização da 1ª Copa do Mundo dos Refugiados, em julho de 2014, os voluntários da plataforma Atados decidiram contribuir de maneira mais duradoura para a inserção dos refugiados na sociedade brasileira. Em parceria com o Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado – Brasil), foi desenhado um curso de línguas no qual os professores são os próprios refugiados.

“Desde então, já tivemos 300 alunos. A procura só cresce – acredito que as notícias sobre refugiados dão mais visibilidade. O curso propõe uma troca cultural muito intensa, além de gerar renda para os refugiados e permitir que mostrem sua cultura”, relata Mari Garbelini, coordenadora geral do Abraço Cultural.

Como a maioria dos professores do curso não exerciam essa profissão em seus países de origem, o projeto também os capacita para o mercado de trabalho. “Muitos deles já estão aprendendo português, e a ideia é que, com o tempo, consigam trabalhar na área de sua preferência.”

No momento, está sendo realizado um curso de férias e a próxima edição do curso intensivo já tem data para começar: 29/2. Ele durará quatro meses e terá 48 horas de aulas – uma vez por semana acontece a aula cultural, onde são apresentados aspectos como culinária, dança e teatro dos países envolvidos. “É um jeito legal de dar autonomia e fazer os refugiados se sentirem protagonistas, valorizados e sujeitos ativos de seu destino.”

#3 BibliAspa

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria e Angola, entre outros.

Roda de dabke na BibliAspa.

Acervo BibliAspa/Salim Mhanna

Desde que surgiu, em 2003, a BibliAspa trabalha com o tema do refúgio. Nos últimos três anos, porém, com a intensificação da chegada de refugiados ao Brasil, a biblioteca expandiu as atividades ofertadas. Uma delas oferece aulas gratuitas de língua portuguesa e cultura brasileira para os refugiados, além de transporte, alimentação e material didático.

Há também os cursos de línguas ministrados pelos próprios estrangeiros, que, de acordo com Paulo Farah, diretor do espaço e professor de estudos árabes e africanos da USP, valorizam o patrimônio intelectual e geram renda para essa fatia da população. “É uma oportunidade rara ter professores com uma cultura tão viva, efervescente e dinâmica.”

Além da parte educacional, a BibliAspa também tem atividades culturais, como grupos de música, dança e oficinas de caligrafia árabe e turbantes. Seu próprio espaço serve como local de socialização para os refugiados trocarem experiência e criarem vínculos uns com os outros. “Queremos estimular essa questão de preservação da identidade e da cultura”, aponta Farah.

A BibliAspa abrirá novas turmas para cursos regulares e extensivos logo após o carnaval. Durante o semestre, haverá também cursos de música árabe oriental, de meditação e um festival que celebrará a cultura dos refugiados em mais de 20 cidades do Brasil.

#4 Restaurante Al Janiah

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria e Angola, entre outros.

Refugiado prepara sanduíche no Al Janiah.

Reprodução

Intitulado com o nome de um vilarejo que faz parte dos Territórios Palestinos Ocupados, no centro da Cisjordânia, o Al Janiah quer ser mais do que um restaurante: ele propõe um espaço cultural palestino para o centro de São Paulo.

Além da saborosa e marcante comida árabe feita por três refugiados sírios-palestinos, o local pretende atuar como ponto de encontro, debates e reflexões sobre a situação atual do Oriente Médio. Para tanto, o Al Janiah – que funciona de quarta-feira a domingo, a partir das 18h30 – unirá memória, afeto, gastronomia, música e festa.

#5 Jantar dos Refugiados

Mais do que nunca, os paulistanos se preparam para receber de braços abertos os refugiados que vêm de países como Síria, Nigéria e Angola, entre outros.

Jantar dos Refugiados acontece todas as terças no Fatiados Discos e Cervejas Especiais.

Reprodução

O bar Fatiado Discos e Cervejas Especiais não costumava servir comidas nas noites de terça-feira. Quando conheceram alguns sírios e palestinos que participavam da Ocupação Leila Khaled, no centro de São Paulo, pensaram em ceder sua cozinha ociosa para os refugiados, recém-chegados ao Brasil, mostrarem uma parte de sua cultura.

O projeto foi concretizado com o Jantar dos Refugiados, que desde outubro de 2015 tem agitado as noites de terça do bar. “Começamos com um teste. A casa encheu e o sucesso foi tanto que agora ele acontece toda terça-feira, a partir das 18h”, narra Mário Rossi, um dos sócios do local. Todo o dinheiro arrecadado com a alimentação fica com os cozinheiros.

#6 Migraflix

RefugiadosSP

Baseada em workshops culturais ministrados por imigrantes e frequentados por brasileiros, a plataforma digital Migraflix busca promover uma aproximação entre as diferentes culturas e, dessa maneira, empoderar o imigrante por meio da divulgação de sua cultura.

De acordo com os organizadores, “com a geração de renda possibilitada pelos cursos e o apoio do Migraflix na sua elaboração, o projeto ajuda o imigrante a desenvolver novas habilidades e facilita a sua inserção na sociedade”.

Sob o lema “Viva o mundo na sua cidade”, a plataforma oferece cursos variados: de caligrafia árabe a tango, de cozinha andaluz a quitutes sírios. “Cada imigrante carrega uma riqueza em conhecimento e vivências que não pode3 ser ignorada ou desperdiçada”, observam os organizadores.