Aprender na cidade

ISA lança livro para crianças sobre povos indígenas do Brasil

 Os povos indígenas representam hoje no Brasil mais de 900 mil pessoas, divididas em 246 povos, falando 150 línguas diferentes. Entre essa ampla gama de culturas, abundam modos de se viver, de se entender a vida, de nomear as coisas, de brincar com as crianças, de se alimentar e de aprender. Para tentar dar conta desse mosaico de culturas, que vivem ao longo dos mais de 8 milhões de km² do território brasileiro, o Instituto Socioambiental lançou, neste final de semana, o livro “Mirim – Povos Indígenas do Brasil”, inspirado no site de mesmo nome mantido pela instituição.

Capa do livro traz representação pictórica de 5 povos indígenas que habitam o Brasil.

Capa do livro traz representação pictórica de 5 povos indígenas que habitam o Brasil.

ISA/Reprodução

Voltado para crianças e adolescentes, o material de referência é dividido em quatro capítulos: “Quem são”, “Onde estão”, “Como Vivem” e “Antes de Cabral”, ornados com ilustrações, mapas, infográficos, fotos e textos produzidos por diversas etnias indígenas que vivem no país. É um roteiro, detalhado e acessível, que traz informações contemporâneas e atualizadas que oferecem uma leitura abrangente, para todas as idades.

Só as crianças conhecem os passarinhos?

Caçar, brincar com as penas, olhar passarinhos são brincadeiras comuns entre as crianças yanomamis. Uma vez crescidas, elas se focam em caças maiores, mamíferos e reptéis e muitos adultos afirmam esquecer os nomes e cantos dos passarinhos, que nunca saem da ponta da língua dos pequenos.

O interessado que folhear o livro irá descobrir o que faz uma pessoa ser índio e como isso se dá dos pampas gaúchos à floresta amazônica, passando pelo cerrado, mata atlântica e até pela Favela do Real Parque, que abriga Pankararus em plena zona sul paulistana. Línguas indígenas, palavras incorporadas ao português e as muitas contribuições culturais levam o leitor, de maneira simples, para muito além do senso comum.

A criança também encontrará brincadeiras dos Kalapalos e dos Yudjas que podem ser reproduzidas em qualquer escola, praça, rua ou parque do país. Para quem tiver curiosidade, o livro conta como os diferentes povos aprendem, como as comunidades garantem o desenvolvimento dos seus jovens e como se dão as diferentes transmissões de saberes e jeitos de ensinar e até como se relacionam os saberes tradicionais e as escolas indígenas.

Semente contra o preconceito

“Quando a gente vê uma deputada dizendo que um texto não pode ter sido escrito por um índio ‘porque eles não sabem escrever’, você vê que a gente ainda tem muito a percorrer. E, também, como é relevante um material desses”, analisa Tatiane Klein, do Instituto Socioambiental e editora da publicação, que acrescenta que as populações indígenas no país estão sob ataque.

Aprendizado Xavante

“Os Xavante, que vivem no estado do Mato Grosso, no Cerrado Brasileiro, se autodenominam A’uwé que, na língua Akwén, quer dizer ‘gente’. O aprendizado entre os Xavante é um processo que acontece ao longo de toda a vida, desde quando se é criança, até a velhice. Em cada etapa deste longo caminho, novos conhecimentos são adquiridos nas mais diferentes situações: algumas são entendidas como momentos de aprendizagem (como é o caso dos rituais), outras estão relacionadas com as pequenas atividades do dia a dia. As situações mais cotidianas são momentos de aprendizagem valorizados pelos A’uwé. As crianças costumam caminhar livremente pela aldeia acompanhando outras pessoas (sejam crianças, velhos ou adultos) em suas atividades e são nestas ocasiões que elas aprendem a identificar as regras que orientam sua sociedade” (“Jeitos de Aprender”, pps. 83 e 84 do PIB – Mirim).

No último mês, uma criança Kaigang foi morta em Florianópolis, no colo da mãe. Cerca de 40% de todas as mortes entre índios brasileiros, registradas desde 2007, foram de crianças de até quatro anos – nove vezes maior que o percentual nacional.  No dia 31 de janeiro, um acampamento inteiro de Guaranis Kaiowás, no Mato Grosso do Sul, foi carbonizado e os indígenas vem sendo ameaçados com tiros. As populações indígenas também lideram o ranking de suicídios no país. De 2007 a 2014, foram 351 suicídios indígenas reportados e 833 homicídios, segundo levantamentos do Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), reportados pela BBC.

“É contra isso que nós lutamos com esse livro”, afirma Klein. “E o esforço que a gente faz é o de falar com as pessoas não apenas no campo da cosmologia, da religião, do histórico, mas de mostrar a vida contemporânea dessas populações no Brasil. Achamos que isso instiga as pessoas a respeitarem mais, é uma sementinha na luta contra o preconceito e pode oferecer ferramentas para os professores. Pouca gente ainda tem esse mosaico dos povos indígenas na cabeça.”

Desde 2008, com a aprovação da lei nº 11.645, é obrigatório o ensino de história e cultura indígena no Brasil, mas ainda faltam, pondera a editora, materiais de referência sobre o tema. Os diversos pedidos recebidos, por parte de professores de todo o país, de materiais para trabalhar essas questões, motivou a criação do site Povos Indígenas do Brasil Mirim, que agora foi transformado em livro.

O site traz muito da estrutura e dos conteúdos do livro, além de jogos e até espaço para engajamento das crianças nas questões indígenas. A versão física dele, com tiragem de 3 mil cópias, pode ser comprada pelo site do Instituto Socioambiental, mas escolas indígenas e públicas devem receber cópias de cortesia.

“As regiões onde há estudantes indígenas são os locais com mais preconceito. Se uma dessas cai nas mãos de um secretario de educação, ou de uma criança indígena, pode fazer uma diferença enorme”, acredita Klein, que informa que a publicação aguarda a aprovação de uma verba de um edital do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para chegar a 30 mil cópias e povoar as bibliotecas do país.

(A foto que ilustra essa matéria foi escaneada das páginas 8 e 9 do livro Povos Indígenas do Brasil Mirim).