Aprender na cidade

Uma mãe e cem livros infantis protagonizados por meninas negras

“Quando eu fui começar a ler sobre maternidade, não encontrava nada escrito por mães negras. Tudo era escrito majoritariamente por brancas, que não tocavam em questões essenciais para nós, de racismo à estética negra”, relata Luciana Bento, 31, socióloga, livreira e blogueira. A ausência deste tipo de reflexão, dessa falta de representatividade, é uma questão antiga em sua vida.

“Eu fui menina negra. E senti muita falta na minha infância de um material em que eu aparecesse. A maioria dos materiais didáticos tem o negro como coadjuvante. Isso se eles aparecerem. Quando tinha, era um menino ou menina com cabelo alisado”, critica. “Como eu sempre fui uma menina que gostava de ler, eu sentia essa ausência, que é um problema e uma demanda do povo negro em geral. É como se a gente não existisse.”

Armada desta constatação, Luciana partiu para o enfrentamento do que exclui. Fundou, há um ano, o blog A Mãe Preta, que trata de questões relativas à maternidade negra; e montou, junto com o marido, a livraria itinerante InaLivros, especializada em conteúdo de protagonismo negro. O contato com esse tipo de bibliografia começou a mostrar que não é que não existiam livros: é que eles não tinham visibilidade. E assim, começou mais uma iniciativa: o blog 100 livros infantis com meninas negras.

Luciana e seu maridos com suas filhas de 3 e 2 anos.

Luciana e seu marido com suas filhas de 3 e 2 anos.

Arquivo Pessoal

“Meninas negras precisam se enxergar em todos os espaços e a literatura é uma estratégia muito eficiente para a formação de uma autoimagem positiva. Por meio da literatura, procuramos fornecer ferramentas para que crianças possa lidar bem com o racismo e possa elevar sua autoestima a partir de referencias positivos. Que meninas negras possam se reconhecer em diferentes contextos, possam se inspirar e aprender com as personagens destes livros e possam escrever suas próprias histórias sem se importar pelas limitações impostas pesa sociedade”, afirma a descrição do blog.

A estudante e pesquisadora Aline Carvalho, do Cartografias da Infância, um projeto de pesquisa na área de Literatura Infantil e Juvenil, vinculado ao Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, faz um perfil dos personagens negros na literatura infanto-juvenil brasileira, no texto O lado negro da história: A trajetória dos personagens negros na literatura infantil e juvenil brasileira. Segundo ela, até os anos 70, a representação se dava sempre numa posição de subalternização e inferioridade, marcado por personagens analfabetos e sem instrução, retratados de maneira pejorativa.

De 1975 em diante, os livros começam a mostrar uma atenção maior às questões raciais, mas, de acordo com a autora, ainda estavam pesadamente influenciados por uma concepção racial que considera o branco não apenas o padrão, mas como o ideal a ser alcançado. Nos anos 80, autores negros iniciam um combate a essa visão e, a partir dos anos 2000, uma nova leva de escritores africanos e afro-brasileiros chegam ao mercado editorial, trazendo a “inserção de traços e símbolos da cultura afro-brasileira, das religiões de matrizes africanas, da capoeira, da dança e dos mecanismos de resistência; valorização da mitologia e das religiões como forma de ressignificação da ancestralidade e da tradição oral; ilustrações mais diversificadas”.

No entanto, a autora ainda acredita que mesmo com a crescente presença dos personagens negros, estes livros ainda são pouco adotados por escolas e, muitas vezes, caem na invisibilidade, mas apontam “para algo muito maior, que deve ser construído e disseminado pelo nosso país. E, principalmente, mostrado para as crianças negras no âmbito escolar – para que se identifiquem e se vejam com outro olhar, para que sintam orgulho da imensa riqueza cultural que carregam”, define Aline.

Nesse sentido, reforça-se a importância de trazer essa produção à tona. “Os pais e professores que se aproximavam da livraria se espantavam com a quantidade de material que nós temos e e eu não consigo entender como esses livros são produzidos e não chegam para o grande público. Eu mesma comecei a lista com 80 livros, com as indicações que estou recebendo, já passaram de 120”, afirma Luciana, que promete dedicar-se também na divulgação de autores independentes e editoras pequenas. Romper as barreiras do preconceito parar criar novas visibilidades é uma tarefa levada à sério por Luciana.

O site já apresenta 19 livros com uma pequena descrição feita pela blogueira, que pretende futuramente catalogar de acordo com a temática abordada no livro, como cabelo, estética, auto-afirmação, história, adoção e racismo.

Confira abaixo cinco indicações de livros que já constam no 100 livros infantis com meninas negras e acesse o site da iniciativa para acompanhar as novidades. As descrições são de autoria da Luciana Carvalho:

5# A Princesa e a Costureira

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O livro conta a história da princesa Cíntia, que quando nasceu foi prometida em casamento para Febo, o príncipe do reino vizinho, para que se mantivessem os laços de amizade entre os reinos. Quando chegou a época da cerimônia, a princesa foi encomendar seu vestido e, então, conheceu a costureira Isthar, por quem se apaixonou. Quando Cíntia anunciou para os pais suas intenções com Ishtar e disse que não mais se casaria com Febo, seu pai mandou que a prendessem na torre do castelo, pois desafiou o interesse e a tradição dos reinos, que dizia que moças deveriam se casar com rapazes. Para garantir um final feliz, a princesa e a costureira receberão ajuda da irmã da princesa, do próprio príncipe, da Fada Madrinha e de uma Agulha Mágica. O livro pretende auxiliar famílias e escolas, tanto na discussão sobre a diversidade humana como sobre a luta mais ampla pelos direitos das pessoas LGBT.

Autora: Janaína Leslão
Ilustrador: Júnior Caramez
Editora: Metanóia
Onde encontrar: InaLivros

#4 Meninas Negras

meninas-negras

Griot é o contador de histórias africano que passa a tradição dos antepassados de geração em geração. O objetivo dessa coleção é trabalhar a identidade afrodescendente na imaginação infantil. E é justamente à imaginação que esses livros falam a partir de uma composição sensível, de textos curtos e poéticos, associados a belas ilustrações. Modo lúdico de reforçar a autoestima da criança a partir da valorização de seus antepassados, de sua cultura e de sua cor. Em Meninas Negras, Madu Costa fala da vida e dos sonhos de 3 meninas negras, que aprende e respeitam sua ancestralidade africana.

 Autora: Madu Costa
Ilustrador: Rubem Filho
Editora: Mazza Edições
Onde Encontrar: InaLivros

#3 O mundo no black power de Tayó

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 Tayó é uma menina negra que tem orgulho do cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta uma personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe, que dizem que seu cabelo é ‘ruim’. Mas como pode ser ruim um cabelo ‘fofo, lindo e cheiroso’? ‘Vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos’, responde a garota para os colegas. Com essa narrativa, a autora transforma o enorme cabelo crespo de Tayó numa metáfora para a riqueza cultural de um povo e para a riqueza da imaginação de uma menina sadia.

Autora: Kiusam de Oliveira
Ilustradora: Taísa Borges
Editora: Peirópolis
Onde Encontrar: InaLivros

#2 Bucala: a pequena princesa do quilombo do Cabula

cabula

O livro narra a história de Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula. Retrata as suas vivências: a afetividade com a mãe, Lacabu, e com o seu pai, Calabu. Fala do contato com o mais velho (o ancião bem-preto-de-barbicha-bem-branca) sábio que lhe contava histórias, casos dos ancestrais africanos. O livro ainda demonstra a forma mítica e poética que Bucala se relaciona com a natureza do quilombo. Traz à tona e reconstrói ficcionalmente a infância feliz de uma menina no Quilombo do Cabula, que fora, no século 19, um lócus de resistência à escravidão e um dos importantes aquilombamentos da Cidade do Salvador-BA.

Autor: Davi Nunes
Ilustrador: Daniel Santana
Editora: Uirapuru
Onde Encontrar: InaLivros

#1 A garota que queria mudar o mundo

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Bel é uma menina especial, quando aprendeu a falar logo disse: Quero mudar o mundo! Ela tem a cabeça cheia de dúvidas, quer saber: por que as pessoas jogam lixo nas ruas e furam a fila? Mas as respostas para essas perguntas terão de aguardar, já que hoje é a grande final da gincana em sua escola, onde seu amigos disputarão lado a lado com o grupo das Chatetes, quem vencerá a competição. Será que durante a gincana Bel conseguirá descobrir o segredo para mudar o mundo?

Autora: Cinthya Rachel
Ilustrador: Adriano Vidal
Editora: Uirapuru
Onde encontrar: InaLivros