Aprender na cidade

Ocupação da Praça da República é tema de curso sobre potenciais educativos da cidade

Cidades EducadorasLargo dos Curros, Largo da Palha, Praça das Milícias, Largo Sete de Abril, Praça 15 de Novembro. Antes de ser finalmente denominada como Praça da República, em 1889, este espaço público centenário do centro de São Paulo já havia sido apropriado de diferentes maneiras pela população paulistana.

Foi este o local escolhido para sediar a terceira etapa da formação “Potenciais educativos do território urbano: rumo à Cidade Educadora”, destinada a professores da rede pública municipal de São Paulo e elaborada após meses de encontros entre a Diretoria Regional de Educação Ipiranga e representantes de escolas, coletivos, museus e organizações da sociedade civil.

Além de discutir a formação histórica da Praça da República, destacando os diversos processos de ocupação do espaço público que aconteceram ali, o encontro – que ocorreu no último sábado (30/4), na EMEI Armando de Arruda – também serviu para os professores deixarem a sua marca no local, criando intervenções urbanas que buscaram dialogar com a dinâmica de utilização atual da praça.

Docentes discutiram a formação histórica da Praça da República e promoveram intervenções urbanas em um dos espaços públicos centenários da capital paulista.

A parceria entre a UMAPaz (Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz) e o Movimento Entusiasmo permitiu que diferentes narrativas sobre o local fossem colocadas em diálogo. “Para olhar para fora, é preciso olhar para dentro”, lembrou André Gravatá.

Marca humana no território

“A partir de agora, vamos sentir calor, frio, vento na cara, barulho de ônibus e talvez até de motosserra”, observou Lia Salomão, coordenadora do Programa Carta de Ação da Terra, da UMAPaz, ao introduzir a atividade de exploração da Praça da República que incentivaria os docentes a olhar atentamente para a fauna e flora que figuram no local.

De acordo com Débora Pontalti, também coordenadora do programa da UMAPaz, há mais de 700 espécies de animais vivendo na capital paulista, um número alto para um território tão transformado pela ação do homem. “Atentar para o que está invisível nos ajuda a abrir a percepção sobre o olhar e refletir sobre a marca humana que existe nos territórios”, afirmou.

A partir de um olhar para aquilo que não está dado, os educadores foram instigados a experimentar outros sentidos para além da visão e a criar uma trilha educativa que ativasse outros potencias da praça, percebendo seus sons, cheiros e texturas.

Docentes discutiram a formação histórica da Praça da República e promoveram intervenções urbanas em um dos espaços públicos centenários da capital paulista.

Ao caminhar pelas ruas da histórica praça, os professores presenciaram de tudo: conversas entre moradores em situação de rua, travestis, crianças pulando no lago, idosos descansando na sombra, feirantes e ambulantes oferecendo seus produtos, edifícios históricos, árvores centenárias e pássaros em suas copas, além de lixo espalhado pelo chão e até mesmo um pequeno rato morto na saída de um bueiro.

Uma das docentes afirmou que, ao conversar com quem por ali circulava, descobriu a lenda de um jacaré que vivia no lago, responsável por quebrar uma pedra com sua cauda. Outra lamentou o fato de este mesmo lago ter tanto lixo acumulado, prejudicando a vida de peixes e cágados que ainda se mantém no local. Discutiram então sobre a necessidade de cuidar da cidade de maneira coletiva.

Foi pontuando a necessidade de a escola olhar não apenas para dentro dela, mas também para fora – o território que a circunda – que teve início a intervenção do Movimento Entusiasmo. A proposta era que os professores deixassem sua própria marca na Praça da República, a partir das reflexões e percepções coletadas no primeiro momento da atividade.

Docentes discutiram a formação histórica da Praça da República e promoveram intervenções urbanas em um dos espaços públicos centenários da capital paulista.

A docente Izabel, da EMEF Regente Feijó, disponibilizou uma camisa branca para as pessoas definirem em uma palavra o que é São Paulo para elas: “incrível”, “complicada”, “boa”, “conturbada”.

Dentre as ações, um grupo caminhou pela feira e distribuiu selos de reconhecimento para quem sabia que no meio da Praça havia uma escola; outros utilizaram giz e lápis de cor para trabalhar artisticamente com restos de lixo que se acumulavam nos cantos; alguns colaram cartazes com desenhos e mensagens que discutiam a atual ocupação do espaço; ainda houve quem produzisse um varal de envelopes com mensagens de afeto aos pedestres.

O curso “Potenciais educativos do território urbano: rumo à Cidade Educadora” volta a se reunir no dia 14/5, na EMEF Celso Leite. O tema do encontro será Educação Patrimonial. Não perca a cobertura completa!