Aprender na cidade

Vivó Bairro resgata memória e propõe nova ocupação do centro histórico de Aveiro

Fundada em 1515, a cidade portuguesa de Aveiro carrega diversas marcas de seus cinco séculos de história. O centro da cidade, por exemplo, ainda hoje abriga as ruínas da antiga muralha que o rodeava – dela, algumas portas permanecem enfeitando a paisagem local.

Tais portas servirão como ponto de partida para um evento que resgatará a memória do centro histórico de Aveiro, com o objetivo de envolver moradores, comerciantes e instituições locais nas discussões e decisões sobre o seu futuro. Trata-se do Vivó Bairro, que aproveitará o final de semana dos dias 4 e 5 de junho para promover mais de cinquenta atividades em torno de quatro eixos:

1) Brincar no bairro
2) Memória e identidade
3) Troca de saberes
4) Ativação dos espaços públicos

Uma das ações programadas será um concurso de ideias para que os moradores do centro histórico reflitam sobre a existência das portas da cidade como convite para entrar e sair, deixando-as sempre abertas para a livre circulação de pessoas. De acordo com José Carlos Mota, urbanista e um dos idealizadores do evento, o Vivó Bairro tem a intenção de dar vida à região, trazendo novas possibilidades e funções ao local e permitindo que a própria comunidade definisse os seus rumos.

“Não estamos a construir algo para as pessoas, mas estamos a construir com elas. Há muitos interesses contraditórios, e o que estamos fazendo é um diálogo, ouvindo todos os moradores, comerciantes e instituições do centro histórico e fazendo duas perguntas: que recursos existem ali? Quais são os seus sonhos?”, observa Mota.

Vivó Bairro pretende dar vida à região central de Aveiro, trazendo novas possibilidades ao local e permitindo que a comunidade defina seus rumos.

Antigamente, portas do centro histórico funcionavam como ponto de encontro da população local.

Reprodução / Grupo Aveiro Antigo

O projeto nasceu de uma colaboração entre o projeto Community Participation in Planning (do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro), e a CORDA, associação que defende e promove o bairro histórico do município.  Apesar de ter pouco menos de 80 mil habitantes, Aveiro é considerada uma cidade inovadora e detentora de um domínio de investigação avançado.

“É um lugar singular”, define o urbanista, lembrando que, por ser plana, Aveiro sempre possuiu uma forte mobilização de ciclistas (a cidade, aliás, concentra várias empresas que produzem bicicletas, e Portugal é o terceiro país que mais produz o veículo na Europa).

Mota faz questão de retomar o histórico de participação cívica em Aveiro. No passado, para além dos ciclistas, a cidade foi sede do movimento Amigos da Avenida, que a princípio debatia o futuro da principal via municipal, a Central, mas com o tempo passou a discutir projetos importantes da cidade. “Foi um movimento inspirador e de ativismo muito forte. Gerou inclusive angústia e incômodo no poder público, que não gostavam de ver uma associação discutindo criticamente várias partes da cidade.”

A chegada da universidade, nos anos 1970, fez com que a cidade crescesse para regiões periféricas e distantes do centro histórico, facilitando seu processo de esvaziamento e perda de importância. A construção de shoppings centers também é apontada por Mota como fator de declínio da região.

Vivó Bairro pretende dar vida à região central de Aveiro, trazendo novas possibilidades ao local e permitindo que a comunidade defina seus rumos.

Iniciativa mapeou lojas, espaços e edifícios públicos do bairro histórico de Aveiro.

Reprodução / Vivó Bairro

Dentro do centro histórico, o Vivó Bairro mapeou seis espaços públicos, 20 edifícios com funções públicas e 37 estabelecimentos comerciais que estarão aptos a receber intervenções urbanas nos dias 4 e 5/6.

Entre as atividades já selecionadas estão a criação de parques infantis espalhados pelo bairro, jogos tradicionais de rua, encontro de fotografias antigas, livro gigante escrito pelos moradores, recriação das antigas muralhas, mostra de artes e profissões antigas, cinema ao ar livre e feiras temáticas. As inscrições de ações para o Vivó Bairro estão abertas até o dia 10/5.

“Queremos que o evento seja o início de um processo, nao o fim – mostrando que é possível fazer um exercício em que as pessoas estao corresponsabilizadas, experimentando outras metodologias e envolvendo cidadãos no projeto da cidade”, afirma o urbanista.

Vivó Bairro pretende dar vida à região central de Aveiro, trazendo novas possibilidades ao local e permitindo que a comunidade defina seus rumos.

Reunião do projeto Vivó Bairro.

Reprodução / Vivó Bairro

“Há uma razão básica por trás do Vivó Bairro”, confidencia Mota. “É a ideia de que Aveiro pode se tornar uma Cidade Educadora, onde a experiência social visa criar uma pedagogia sobre a cidadania, a participação cívica e a valorização dos recursos existentes em nosso espaço urbano.”

Os organizadores do projeto pretendem inspirar ações e fazer com que jovens, idosos, ativistas da bicicleta, de movimentos culturais componham uma agenda transvesal, e não apenas setorial, para o futuro da cidade. “Temos a expectativa de que as pessoas se entusiasmem com essa dinâmica e cada uma das organizações seja mais participativa e educadora”, finaliza.