Pensar a cidade

Glicério: a disputa pelo território e o potencial criativo das crianças

Por Tiago Castro

Há alguns meses desenvolvo um trabalho em educação popular no Glicério, com o projeto “Criança Fala no Glicério – Escuta Comunidade”. O bairro é historicamente tido como a periferia do centro de São Paulo, com toda narrativa cotidiana das margens que consigo carrega o enredo dos territórios em vulnerabilidade: condições precárias de moradia, falta de vagas em creches e escolas, diversos níveis de violência policial e, por ser um bairro do centro da cidade, existe também a questão dos moradores em situação de rua.

Tiago Castro é geógrafo e educador do projeto ”Criança Fala no Glicério – Escuta Comunidade”, do Criacidade.

Dentre tantos fatores que intensificam a precarização da vida imposta à população moradora do Glicério, como também é comum em outros territórios de São Paulo, paira o medo da expulsão pela especulação imobiliária. Afinal de contas, o Glicério está cercado por bairros da tradicional classe média paulistana – Liberdade, Aclimação e Cambuci – que estão em constante movimento de expansão. Ou seja, é o capital impondo sua perversidade pela especulação imobiliária, explorando as dificuldades de compreensão e acesso a direitos por parte de uma população vulnerável e contando com o descaso do poder público.

Nenhuma novidade.

Essa descrição, que traz ao nosso imaginário um lugar perigoso e triste, não deixa entrever que o território é construído por uma composição populacional muito diversa e curiosa. São famílias, trabalhadores e trabalhadoras, jovens e crianças que convivem e sobrevivem, apesar da violência, apesar da restrição ao acesso a direitos, apesar do que está ao alcance e fora dele, apesar do crime, da cadeia, da vala.

Fizemos um circuito brincante para que as ruas sejam ocupadas mais pelas crianças, menos por carros. Mais pelas crianças, menos pelas viaturas ostensivas. Mais pelas crianças, menos pelo acúmulo de lixo.

São piauienses, cearenses, potiguares, baianos, famílias de todos os lugares do norte e nordeste do país e muitos, muitos imigrantes haitianos, palestinos e angolanos que, ao chegarem refugiados ao Brasil, são recebidos pela Igreja da Paz e passam a também ocupar o território. Essa diversidade tem feito do dia-a-dia nas ruas do Glicério um espaço rico em diversidade cultural, musical, com formas criativas de luta pela sobrevivência.

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Claro que não faltam também os conflitos cotidianos motivados pela principal barreira entre brasileiros e imigrantes: o idioma. Os haitianos – maioria entre os estrangeiros do Glicério-, por exemplo, falam apenas o creole e o francês. Seus filhos e filhas, crianças e adolescentes, são os primeiros a quebrar essa barreira – uma vez que são os primeiros da família a serem alfabetizados em português – e de forma tímida, inocente e gradual, passam a estabelecer outros vínculos no território, com a escola, com outras crianças, com a cidade. A escola municipal do bairro, a EMEF Duque de Caxias, conta com crianças de pelo menos 13 nacionalidades, além das centenas de brasileiros e brasileiras.

E elas são a razão desse relato.

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É a partir delas que temos buscado travar a disputa por esse território. Crianças que sofrem um precoce processo de amadurecimento, tornando-se pais ou mães de seus irmãos mais novos, que se tornam trabalhadores e trabalhadoras para ajudar na renda familiar, crianças em situação de semi abandono que tem de se virar para sobreviver. Apesar disso tudo, ao aguçarmos o olhar inventivo, criativo, potencializador das crianças na criação de um bairro que seja construído também para elas, tem sido possível despertar nos adultos a vontade de transformar o lugar. É um despertar para o fato de que assistência social não é um favor, mas sim um direito, e que pela organização coletiva é possível realizar pequenas transformações.

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Na semana passada construímos, junto às crianças, moradores e moradoras da rua Sinimbu e da chamada “Vilinha”, um circuito brincante para que as ruas sejam ocupadas mais pelas crianças, menos por carros. Mais pelas crianças, menos pelas viaturas ostensivas. Mais pelas crianças, menos pelo acúmulo de lixo.

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Com elas, temos viva a utopia de consolidar uma auto-organização comunitária que discuta suas necessidades coletivas e lute para alcançá-las, pressionando o poder público para que lhes atenda naquilo que lhes é de direito e que, infelizmente, é visto ora como privilégio, ora como propaganda eleitoral.

As ruas do Glicério serão ocupadas novamente nesta quinta-feira, com cerca de 300 crianças, de três a 10 anos, com o tema “O Glicério tem muita história”. Contando com a apoio de diversas escolas públicas da região, as ruas serão fechadas com muita brincadeira, contação de história, estandarte e bonecos. As atividades começam às 13h45.

Nessa difícil conjuntura, onde muito pouco está claro e não se sabe quais são os caminhos de organização, resistência e luta, mergulhar no Glicério e colorir suas ruas, pensões, comércios e postes foi uma simbólica experiência da potência dessa e de outras populações que sobrevivem em condições de aguda precarização – mas que, juntas e organizadas, podem ter outra perspectiva para o presente e o futuro de suas vidas, de suas famílias e de suas crianças.

E essas últimas parecem já estar mais ligadas nisso tudo do que os adultos.

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(As fotos que ilustram essa matéria são de Lucas Prado, no destaque, Flink Ark, Mariana Rocha, Lucas Prado e Thiago Mundano)