Aprender na cidade

“Para pensar em Cidade Educadora, é preciso abrir espaço para aquilo que é novo”

Sob o tema “Cidades: Territórios de Convivência”, terá início nesta quarta-feira (1º/6) a décima quarta edição do Congresso Internacional de Cidades Educadoras. Durante quatro dias, a cidade argentina de Rosário concentrará debates, rodas de conversa, assembleias e atrações culturais que reunirão cidadãs e cidadãos de todo o mundo em busca de um novo modelo de urbanidade.

Se o conceito de Cidade Educadora caminha para a sua terceira década – a Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE), promotora do evento, surgiu em 1990 –, também é hora de pensar em como renová-lo. De que maneira conectar a necessidade de construir ambientes urbanos que estimulem a aprendizagem e convivência com as diversas reivindicações de coletivos e movimentos sociais?

Em entrevista, a secretária de Educação de Minas Gerais, Macaé Evaristo, reflete sobre o papel dos jovens na construção de uma Cidade Educadora.

Quem aponta saídas é a Secretária de Educação de Minas Gerais, Macaé Maria Evaristo dos Santos. “Para pensarmos na possibilidade de Cidade Educadora, é preciso abrir espaço para o novo, aquilo que emerge da organização e participação popular”, argumenta a gestora que, durante o Congresso, participará de duas mesas de diálogo.

Em entrevista ao Portal Aprendiz, Macaé fez valer tanto sua experiência na gestão educacional – também foi Secretária de Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do Ministério da Educação (MEC) entre 2013 e 2014 – como na própria sala de aula.

Dentre os desafios de se estar no poder público, afirmou que é preciso “abrir espaço ao que é novo, em uma estrutura muito precária e antiga”. Já no chão da escola, observou ser necessário dar mais espaço para os jovens definirem os rumos de sua formação. “Se a juventude está dizendo que a gente aprende na vida, e não só na escola, surge o desafio de concretizar essa conexão.”

Confira os principais trechos da entrevista com Macaé Evaristo:

Foi durante a gestão de Macaé na Secretaria Municipal de Educação (2004-2012) que a cidade de Belo Horizonte implementou o Programa Escola Integrada, política de Educação Integral que pretende interligar a proposta pedagógica das escolas municipais aos diversos espaços e equipamentos públicos da cidade. Leia mais sobre essa experiência.

Experiência em Belo Horizonte

“A partir de 2004, o município de Belo Horizonte passa a coordenar a Rede Territorial Brasileira de Cidades Educadoras [existente desde 1998] e promover diálogo e trocas de experiência com Rosário, que já coordenava a Rede Latino Americana de Cidades Educadoras. Em BH, o pontapé para esse momento foi a experiência de orçamento participativo, uma pauta de participação popular e entendimento de que a gestão pública deveria ser construída coletivamente.

A partir de então, várias políticas públicas foram formuladas com essa tônica – pensando sempre na Educação como um componente fundamental. Até que, em 2006, chegamos a um programa intersetorial que articulava ações de várias áreas do governo para garantir uma agenda de Educação Integral na cidade: o Programa Escola Integrada.

Agora, estamos desenvolvendo essa agenda na rede estadual – tanto no Ensino Fundamental quanto no Médio – e surgem novos desafios, como incorporar a dimensão do trabalho como experiência educativa e, ainda, permitir que jovens do Ensino Médio se vinculem a projetos científicos e de extensão comunitária.”

Cidade Educadora no Brasil

“Acredito que, nos últimos anos, o Brasil avançou muito no conceito de Cidades Educadoras, em especial por iniciativa de municípios que defendem a ideia. Vejo experiências muito significativas de abertura de museus e praças ao público, e estão surgindo novos modelos para pensarmos o espaço público e a vida comunitária, com movimentos populares e juvenis colocando em questionamento a lógica de organização das cidades.

Ao mesmo tempo, vivemos um momento político grave, no qual ocorre um golpe coordenado por setores conservadores que trazem uma concepção política que vai na contramão dessas questões.

Quando pensamos no espaço público como lugar de democracia, convivência e diversidade, o que tem acontecido no Brasil nos últimos meses é um encurtamento do espaço público, na medida em que, se aos poucos vinha acontecendo o seu alargamento, agora ele volta a se descolar da questão dos direitos – dos negros, mulheres, pobres, indígenas – e passa a ser desconstruído.

Ao desconstruir a cultura como política pública, por exemplo, há um encurtamento da percepção de direito, retomando a desgastada ideia de um estado excludente e mínimo.”

Em entrevista, a secretária de Educação de Minas Gerais, Macaé Evaristo, reflete sobre o papel dos jovens na construção de uma Cidade Educadora.

Escola Integrada promove visita ao museu aberto Inhotim.

Reprodução

Participação no XIV Congresso Internacional de Cidades Educadoras

“Em Rosário, vou participar de duas mesas de diálogo. Na primeira [“Políticas Territoriais – Estratégias para a apropriação do espaço público e a participação cidadã”, que acontece no dia 3/6, das 9h às 10h], vou apresentar o trabalho de reestruturação do Ensino Médio que a Secretaria tem realizado em conjunto com a juventude mineira, construindo projetos inovadores para a escola com os próprios estudantes.

Durante as rodas de experiência que promovemos com jovens de todo o estado [Projeto Virada Educação Minas Gerais], uma questão foi recorrente: a necessidade de a escola se abrir para a participação da juventude, não apenas naqueles modelos concebidos de participação – como grêmios estudantis e conselhos escolares – mas também na gestão do currículo e no desenvolvimento de processos mais autônomos de produção e construção do conhecimento.

A segunda mesa [Por uma pedagogia dos espaços públicos, dia 4/6, das 9h às 10h30] tratará da possibilidade de construir políticas de educação integral que, assim como o Escola Integrada, articulem a escola e equipamentos públicos e privados que podem estar a serviço de alunos da rede pública, como espaços culturais, museus e universidades, entre outros.”

O futuro da Cidade Educadora

“Para pensar na possibilidade de Cidade Educadora, é preciso abrir espaço para o novo, aquilo que emerge da organização e participação popular. Temos em nosso país inúmeros coletivos e movimentos que estão trabalhando essas agendas, com proposição distintas que precisam coexistir, garantindo políticas e estratégias que fundem uma nova cultura política.

A grande estratégia dos movimentos contemporâneos é construir suas bandeiras coletivamente, a partir de uma arca de culturas de diferentes identidades, e criar estratégias de luta para romper com esta cultura política que está posta, e transformá-la.

Em entrevista, a secretária de Educação de Minas Gerais, Macaé Evaristo, reflete sobre o papel dos jovens na construção de uma Cidade Educadora.

Mural de sugestões proposto por estudantes que participaram da Virada Educação Minas Gerais.

Divulgação / Virada Educação Minas Gerais

Coletivos e movimentos de feministas, passe livre, secundaristas e ativistas que trabalham com sarau e literatura estão construindo novas narrativas para diferentes linguagens, com a ideia de subverter uma cultura política que está entranhada no Brasil. Esses jovens estão dizendo que é preciso transformar o Estado, que essa estrutura que se fez sob determinada cultura política é insuficiente para resolver as demandas da contemporaneidade – quando vemos uma diminuição de ministérios essenciais e diversos, como o da Cultura, quer dizer que não há nenhum espaço para o novo, muito menos para as novas narrativas que estão sendo produzidas principalmente pela juventude, que nos apontam caminhos e o que querem para hoje e para o futuro.

Um grande desafio do gestor público é como não atrapalhar nem abafar essas iniciativas populares, mas também como transformar o Estado brasileiro, abrindo espaço ao que é novo em uma estrutura muito precária e antiga.

Os jovens estão nos dizendo que esse modelo de escola já não os representa. Eles querem entrar na cena política e ter participação ativa, escolhendo o que produzir, não ser só passivo. Acredito na possibilidade de isso acontecer se os gestores públicos se colocarem em uma posição de escuta, construindo novas estratégias na escola e nos espaços das cidades.

Se a juventude está dizendo que a gente aprende na vida, e não só na escola, surge o desafio de concretizar essa conexão.”

(A imagem que abre esta matéria é uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva. Via Flickr/Creative Commons)