Aprender na cidade

No Glicério, antiga vila operária se transforma em sala de aula

Bastou atravessar uma rua para os alunos da EMEF Duque de Caxias verem sua rotina escolar completamente modificada. Ao ultrapassarem os muros da escola e chegarem à Vila Suíça, cerca de 30 estudantes dos quartos, quintos e sextos anos puderam conhecer um pouco mais sobre a história do bairro e da cidade que diariamente os cerca.

A rua atravessada, aliás, é nomeada dos Estudantes, e está localizada no Glicério, bairro central de São Paulo que, após anos de decadência e descaso público, vê brotar um movimento popular que aposta na presença de crianças e jovens em suas vias e espaços públicos como uma maneira de rearticular a comunidade local.

E foi justamente essa articulação comunitária a responsável por dar novas cores à região. Pintaram paredes e muros, promoveram cortejos infantis, levaram crianças à rua e perguntaram quais eram suas opiniões. Hoje, as paredes da Vila Suíça estão lotadas de grafites, assim como o próprio asfalto. Segundo os moradores, isso mudou drasticamente o uso do espaço.

Na EMEF Duque de Caxias, na região central de Sâo Paulo, aula de geografia é ministrada na Vila Suíça, antigo reduto operário erguido em 1910.

Vila Suíça foi erguida em 1910.

Danilo Mekari

“Isso aqui é uma aula pública”, anunciou Paulo Roberto Magalhães, professor de geografia da escola. “E aulas públicas são aquelas em que a comunidade pode participar.” O docente, responsável pela ação, pendurou um mapa estadual de São Paulo na parede, pediu para os alunos sentarem no chão e fez um panorama histórico da construção do bairro e, mais especificamente, da Vila Suíça.

De origem operária, a vila foi erguida em 1910 em uma chácara que pertencia à Ana Machado, que vendera o terreno para as autoridades em 1890. “Como será que era esse espaço há 150 anos?”, soltou a pergunta. “Tinha um rio!”, responderam em coro algumas alunas. “Perfeito. Aqui era a várzea do Carmo. O Glicério era uma grande área agrícola da cidade”, afirmou Magalhães.

“O processo de urbanização, porém, canalizou e retificou a maioria dos cursos d’água da cidade. Vocês sabiam que a rua da Glória era um grande cemitério de indigentes?”, questionou o professor, gerando reação descrente de seus alunos.

Na EMEF Duque de Caxias, na região central de Sâo Paulo, aula de geografia é ministrada na Vila Suíça, antigo reduto operário erguido em 1910.

Yara acompanha a aula pública de seu telhado.

Danilo Mekari

O ambiente era muito favorável à troca de conhecimentos. O professor de geografia teve a companhia de outros seis docentes de variadas disciplinas, que lembraram que a EMEF Duque de Caxias foi inaugurada em 1940. A Vila Suíça hoje é um patrimônio tombado da capital paulista, lembrou a moradora Yara, que apareceu no telhado de uma das casas, interessada em aprender mais sobre seu local de moradia.

Ela elogiou o trabalho realizado pelo projeto CriaCidade, que levou cores e mudou a dinâmica da Vila. “Agora as crianças voltaram a andar de bicicleta e jogar bola nessa rua. É bom porque valoriza o nosso espaço”, comemorou Yara.

“Precisamos preservar a cultura e preservar o espaço que é nosso!”, proclamou Magalhães, ao pedir para os jovens que desenhassem, em papel vegetal, aquilo que viam no trajeto de casa para a escola. A mudança no humor dos estudantes foi perceptível: saíram da escola quietos e cabisbaixos, voltaram alegres, abraçados e tirando fotos.

Na EMEF Duque de Caxias, na região central de Sâo Paulo, aula de geografia é ministrada na Vila Suíça, antigo reduto operário erguido em 1910.

Alunas desenham o que veem no caminho da escola para casa.

Danilo Mekari

O bairro do Glicério é um dos principais destinos escolhidos por imigrantes e refugiados que acabam de chegar ao Brasil, e isso reflete na escola: muitos alunos são de origem síria, haitiana ou colombiana, entre outras.

Paulo Magalhães participou da formação Potenciais Educativos do Território Urbano: rumo à Cidade Educadora, que teve seu encerramento no último final de semana. “O curso me proporcionou elementos para que eu pudesse agir sobre a minha realidade. Sozinho, sem o respaldo da escola e dos coletivos que estão trabalhando na região, minha voz não seria ouvida”, acredita.

Para além de coragem e humildade, que Magalhães julgou serem características fundamentais em todo esse processo, ele listou uma série de preparativos necessários para a ação ocorrer. “Isso não aconteceu da noite para o dia – tive antes várias conversas com os alunos, pedi algumas autorizações, preparei a aula e o material, li teses sobre o tema, analisei o trajeto, entreguei o projeto para a coordenação.”

Na EMEF Duque de Caxias, na região central de Sâo Paulo, aula de geografia é ministrada na Vila Suíça, antigo reduto operário erguido em 1910.

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Danilo Mekari

“Quando poderíamos imaginar que um professor de EMEF iria sair dos muros da escola e ocupar a rua, o bairro, o espaço urbano, com a comunidade percebendo a importância disso e recebendo bem os alunos?”, pergunta, para responder ele mesmo. “Essa ação existe porque houve uma iniciativa de pessoas que estão transformando o bairro e, como consequência desse trabalho, eu ocupo esse espaço junto com meus alunos.”