Pensar a cidade

A cultura cidadã como núcleo de uma Cidade Educadora

Por Jairo Hernando Gómez Esteban, para o Compartir Palabra Maestra*

logo compartir palabra maestra_peqO barão de Haussmann é considerado o primeiro grande reformador urbano. Diante do desmesurado crescimento populacional e econômico de Paris e da incapacidade cada vez mais ostensiva de seus governantes em controlá-la, foi-lhe encomendada, por ordem de Napoleão III, em 1860, a reconstrução da cidade. Seu legado para as cidades de nosso tempo, em que pese sua grande simplicidade, pode ser sintetizado em dois grandes pressupostos: a) É conveniente tratar dos problemas da cidade como um todo, ou seja, que as mudanças de um setor (espacial, arquitetônico, vial, recreativo) inevitavelmente transformarão outros setores da vida urbana (social, econômico, cultural e educativo; e b) ao se transformar o aspecto físico-espacial da cidade também se transforma a estrutura social do núcleo urbano.

*Jairo Hernando Gómez Esteban é doutor em educação e mestre em sociologia da educação. Psicólogo de formação, é professor titular do mestrado em Investigação Social Interdisciplinar da Universidade Distrital Francisco José de Caldas. Membro do grupo Vivencia e autor de diversos livros e artigos em revistas sobre educação, ético-política, metodologia de investigação social, subjetividades políticas e narrativas biográficas. Este artigo foi publicado originalmente no site Compartir Palabra Maestra e traduzido em parceria com o Portal Aprendiz.

Tais pressupostos nos levam a inferir que qualquer proposta de Cidade Educadora tem que ter em conta essa articulação orgânica entre, por um lado, as transformações físico-espaciais com as transformações das pautas sociais e, por outro, a influência e o efeito que produzem as políticas particulares de uma administração sobre a vida cotidiana de seus habitantes.

Não é sem razão que se considera que a dita cultura urbana, que para os propósitos desta coluna pode ser perfeitamente equivalente e equiparável com a cultura cidadã e a cultura política, se construa a partir de uma prática significante com a cidade, de uma interação com as múltiplas realidades que nos oferece a urbe, procurando lhe dar um horizonte de sentido e um significado para nossas ações e para o nosso estar no mundo.

Mas se os núcleos urbanos podem ser entendidos através do aspecto histórico, do urbanístico, do geográfico, do literário e até do religioso, são os meios infocomunicacionais  aqueles que estão progressivamente se encarregando não apenas de produzir segregações socio-espaciais, mas também, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, de democratizar os diferentes espaços públicos da cidade.

Ou seja, enquanto se segmentam e se realçam os espaços próprios para as classes altas, para o showbiz e para a classe política (discotecas, restaurantes, clubes, lojas de roupas etc); ao mesmo tempo são incorporadas e se assimilam linguagens (gírias, sotaques, prosódias e regionalismo), informalidades econômicas (circuitos de produção, distribuição e consumo), bairros e localidades, relações inusitadas entre o público e o privado e práticas culturais idiossincráticas.

Portanto, não se pode dizer que exista uma segregação total da sociedade nas cidades porque a coexistência de pessoas em diferentes cenários é dinâmica e complexa e, sobretudo, porque as fronteiras entre o formal e o informal podem estar inscritas em um arco temporal pela prevalência de uma ou outra posição em que, quem hoje é vendedor ambulante, amanhã pode se vincular a uma empresa ou se converter em proprietário de uma microempresa.

Tais pressupostos nos levam a inferir que qualquer proposta de Cidade Educadora tem que ter em conta essa articulação orgânica entre, por um lado, as transformações físico-espaciais com as transformações das pautas sociais e, por outro, a influência e o efeito que produzem as políticas particulares de uma administração sobre a vida cotidiana de seus habitantes.

“A Cidade Educadora tem que ter em conta essa articulação orgânica entre as transformações físico-espaciais com as transformações das pautas sociais e a influência e o efeito que produzem as políticas particulares de uma administração sobre a vida cotidiana de seus habitantes”.

Daniel Emba l Flickr/Creative Commons

Neste contexto político e social, a Cidade Educadora de hoje em dia não pode se reduzir, pois, ao fomento de virtudes cívicas ou ao auspício bem-intencionado de programas para fortalecer a capacidade de chegar a acordos entre cidadãos acerca de conflitos da vida cotidiana. Se faz necessário realçar a dimensão jurídica da cidadania mediante o reconhecimento do caráter democrático de sua construção e não apenas por sua capacidade de consumo e aquisição de bens.

Nesse sentido, poderíamos apontar uma pedagogia da legalidade e da convivência que torne visível a dimensão institucional e política dos acordos e dos consensos, apresentando estratégias dirigidas a fomentar a participação cidadã na definição e avaliação de políticas públicas, assim como para a reforma das práticas legais e das práticas culturais.

Se a cidade tem sido o espaço da representação do poder ao longo de toda sua história, é necessário que, através da educação e da pedagogia que ela mesmo nos oferece com seus códigos e símbolos, converta-se agora em um espaço de uma nova realidade política e social que se expresse no livre acesso ao espaço público, na resolução da contradição entre assentamento e movimento, no exercício natural da associação, que não é outra coisa senão a maior expressão da sociabilidade humana.

“É por todas estas razões que a educação, em todos seus níveis, desde a pré-escola até o doutorado, tem a obrigação de incrementar o uso dos procedimentos democráticos”

É por todas estas razões que a educação, em todos seus níveis, desde a pré-escola até o doutorado, tem a obrigação de incrementar o uso dos procedimentos democráticos para mudar as normas jurídicas, assim como proporcionar as ferramentas técnicas e cognitivas para ampliar e qualificar a discussão pública, procurando garantir que os cidadãos compreendam e aceitem sua utilidade para resolver diferenças, dirimir conflitos e celebrar acordos, e é claro, potencializar a capacidade das associações, construir nexos de solidariedade e representar os cidadãos nas decisões de caráter público. Tal objetivo implica na harmonização das relações da cidadania com suas convicções morais, com as normais legais e com sua identidade cultural, a qual implica na produção de transformações na forma com a qual os cidadãos se relacionam consigo mesmos, com os demais, com o Estado e, sobretudo, com essa cidade que elegeram como habitat, como refúgio e como morada.

(A imagem que ilustra o artigo é de Francisco Javier Gamboa, via Flickr/Creative Commons)