Criar na cidade

Mostratec Júnior se consolida como espaço de produção científica juvenil

Desde 2011, quando passou a ser realizada em paralelo à feira principal da Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), a Mostratec Júnior não parou de crescer. Se há cinco anos atrás foram apresentados 11 projetos científicos de estudantes do Ensino Fundamental, em 2016 este número chegou a 220.

Na avaliação dos organizadores do evento, trata-se de um sinal positivo para a disseminação da prática de pesquisa científica, com foco na criação de espaços de protagonismo ao estudante/pesquisador.

O número de feiras afiliadas à Mostratec Júnior também disparou: de 10 em 2015 para 44 em 2016, mostrando que a criação de uma rede de colaboração de feiras de ciências tem muito a contribuir para a constituição de uma cultura da pesquisa no Ensino Fundamental.

Na edição de 2016, projetos de 32 cidades gaúchas estão representadas na edição juvenil da Mostratec. A grande maioria dos projetos escolhidos para a feira (80%) são desenvolvidos em escolas públicas.

Em entrevista para o jornal oficial da Mostratec, a coordenadora da Mostratec Júnior, Sandra de Oliveira, afirmou que a criança é pesquisadora por natureza. “Sua curiosidade mobiliza os avanços na aprendizagem. Utilizar a pesquisa como ferramenta pedagógica é aproveitar algo que é natural à criança e ao jovem.”

Em 2011, a feira, que ocorre em paralelo à Mostratec, teve 11 projetos apresentados; em 2016, este número chegou a 220.

Assim como na edição principal da feira, a cidade foi tema para muitos pesquisadores da Mostratec Júnior. Cinco pré-adolescentes de Novo Hamburgo, estudantes da EMEF Francisco Kunst, resolveram explorar o bairro onde nasceram. O projeto “Descobrindo o Bairro” colocou Chaiane, Rian, Larissa, Ludiane e Gabriel, todos com 13 anos, em contato direto com a história e memória da comunidade da Morada dos Eucaliptos.

“Para isso utilizamos a arte, com fotos, desenhos, pintura, poesia e mapas”, lembrou Chaiane. Eles entrevistaram 53 moradores antigos e ouviram as mais diversas versões sobre o surgimento do local, que foi cedido pela prefeitura em 2002 após um alagamento que tirou a moradia de muita gente.

Os jovens programaram ainda intervenções na comunidade, especialmente na área de lazer, com a intenção de criar mais espaços para a brincadeira. Também enviaram uma carta para o atual mandatário de Novo Hamburgo com todas as suas demandas para o local.

Em 2011, a feira, que ocorre em paralelo à Mostratec, teve 11 projetos apresentados; em 2016, este número chegou a 220.

A premiação da Mostratec acontece nesta sexta-feira, a partir das 20h, no Teatro Feevale.

Também na cidade-sede da Mostratec, Max dos Santos, 15, e Eloísa Ribeiro, 14, estão criando o app Noia Busão, que mostra horários e itinerários do transporte público da cidade em tempo real. “Vejo muitas pessoas pedindo informação ao próprio motorista do ônibus. Falta acesso à informação”, acredita Eloísa. Em busca de patrocinadores e apoio da prefeitura, o projeto pretende instalar QR Codes nos pontos de ônibus.

Já no bairro de Campina, localizado no município de São Leopoldo, o problema está na falta de sinalização das vias. Há, inclusive, logradouros sem nome. “Isso causa diversos problemas, ninguém acha tua casa, nem a correspondência chega”, apontam as alunas do EJA Luana Silva, Thamires Ribeiro e Gislaine Borba. “O poder público largou nossa sinalização faz tempo. Tivemos que nós mesmos mapear o bairro e fazer placas-modelo. Tudo isso junto com a comunidade.”

Em 2011, a feira, que ocorre em paralelo à Mostratec, teve 11 projetos apresentados; em 2016, este número chegou a 220.

Soluções referentes aos problemas que atingem o espaço escolar também foram propostas pelos pesquisadores. Na EMEF Castro Alves, em São Leopoldo, o alvo era o machismo. “Há muito tempo vivenciamos o machismo, muitas vezes sem perceber”, denuncia Vitória Peres, 15, que ao lado dos colegas Eduardo Correa, 14, e Emily dos Santos, 15, produziu o projeto “Feminismo: Fuga da Opressão e Liberdade de Expressão”.

Ao pesquisarem a história de vida de importantes mulheres brasileiras, como Maria da Penha, Dilma Rousseff e Bertha Lutz, tinham a intenção de mostrar o que de fato propunha o feminismo para as relações entre os colegas. Tarefa árdua: no questionário que passaram em sala de aula, muitos meninos avaliaram a questão como desimportante e secundária. “É uma questão realmente enraizada em nossa cultura”, analisa Eduardo. “Não é à toa que a cada quatro minutos o SUS recebe uma mulher violentada pelo parceiro”, observa Emily.

Em 2011, a feira, que ocorre em paralelo à Mostratec, teve 11 projetos apresentados; em 2016, este número chegou a 220.

O repórter Danilo Mekari cobriu o evento a convite da Fundação Liberato.

As pequenas Sarah Martins e Gabrielly da Silva, de 10 anos, buscaram respostas sobre como conviver pacificamente dentro da sala de aula. Na EMEF Getúlio Vargas, em Parobé, havia muitas brigas e palavrões desnecessários. Passaram então a estudar conceitos de ética e cidadania, além de promoverem um mutirão de limpeza na escola. Nessa toada, retiraram o acúmulo de lixo e exigiram que a diretoria adquirisse novas lixeiras.

As jovens Bruna Hickmann e Lorete Dorneles, de 14 anos, também estavam incomodadas o espaço de sua escola, a EMEF Odila Scherer, em Venâncio Ayres. Mais especificamente com a biblioteca. “Estava imprópria para uso, não era atraente e, por isso, vivia vazia”, observou Bruna. Com a ajuda da comunidade escolar, entre eles pais e alunos do grêmio, reformaram a biblioteca e colocaram piso laminado e tapetes para as crianças. Não demorou para a frequência de usuários crescer.

(A foto que abre esta matéria foi gentilmente cedida por Sidney Scaravonatti)