Criar na cidade

O que São Paulo perde com uma Virada Cultural fora do espaço público?

Às vésperas de assumir a gestão da maior capital do país, João Dória (PSDB) anunciou nesta segunda-feira (5/12), em encontro com empresários da Federação do Comércio de São Paulo, a transferência da Virada Cultural – evento que consta no calendário oficial da cidade e é uma prática de ocupação urbana reconhecida em todo o mundo – do centro de São Paulo para o Autódromo de Interlagos, na zona sul da capital.

Em outubro, o futuro prefeito já havia afirmado que o espaço, que costuma receber megaeventos como corridas de Fórmula Um e festivais de música, deverá ser entregue à iniciativa privada. O Anhembi também figura no pacote de privatizações de Dória.

Além de não ter consultado a população, a decisão sobre a Virada parece não ter sido acordada nem mesmo dentro de sua equipe: o futuro secretário de Cultura, André Sturm, afirmou na manhã desta terça-feira (6/12) que não foi consultado sobre o plano. Buscando acalmar o debate que tomou as redes sociais, Sturm assegurou que o evento continuará ocorrendo no centro da cidade, com possível deslocamento de grandes atrações para o Autódromo.

Mobilização contra a medida

A população paulistana também não deixou barato. Após o anúncio, um evento chamado Virada Cultural Clandestina foi criado no Facebook com o objetivo de manter as atrações no centro da cidade à revelia da prefeitura. Em menos de 24 horas, a iniciativa teve mais de 33 mil confirmações de presença entre os usuários da rede social.

O Portal Aprendiz conversou com diversos cidadãos para entender o que São Paulo perde com uma Virada Cultural fora do espaço público. Confira!

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Leandro Martins / Milenar Imagem

Durante o evento, Dória declarou que “a cidade é um lixo vivo”, anunciando um mutirão de limpeza que partirá da Praça 14 Bis até a Marginal Tietê.  Ainda em relação às formas de ocupação do espaço público, o futuro prefeito referiu-se aos pancadões como cancros que destroem a sociedade, ligando os bailes funks e fluxos que reúnem a juventude em bairros periféricos da cidade com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Minha Sampa lançou, nesta terça-feira, um abaixo-assinado online chamado Revirada Cultural, com o qual pretende recolher assinaturas em favor do “tombamento” do evento como patrimônio cultural e imaterial do centro de São Paulo. “Direcionar os grandes palcos do evento para um espaço fechado com capacidade para 80 mil pessoas [...] é descaracterizar o que já faz parte da identidade da nossa cidade”, afirma o texto, que já conta com mais de 1.300 assinaturas e será entregue ao Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e para o futuro prefeito.

Idealizadores do evento, criado em 2005 durante a gestão de José Serra, afirmaram que a ideia de Dória representa “o fim” da Virada. Há também quem critique o atual formato da festa, apontando o privilégio à região central como um empecilho para a participação da população periférica, além da escolha por grandes nomes da cultura em detrimento à artistas de origem popular.

O Portal Aprendiz conversou com diversos cidadãos – entre representantes de movimentos, coletivos, professores e produtores culturais – para entender o que São Paulo perde com uma Virada Cultural fora do espaço público. Confira!

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Luis Fernando Gallo

Guilherme Coelho, coordenador de mobilização do Minha Sampa, que lançou o abaixo-assinado Revirada Cultural

A declaração do futuro prefeito foi precipitada. Decisões políticas desse tamanho precisam de mais debate.

A Virada Cultural nasce com o propósito de levar cultura para os espaços públicos e pessoas a ocuparem o centro da cidade. Isso não quer dizer que não temos que levar a Virada para outros bairros. Há 12 anos, o evento criou um patrimônio cultural que precisa ser mantido. Esse patrimônio cria novas práticas sociais, novas conexões entre as pessoas, novos significados para o uso da cidade.

Não faz sentido colocar a Virada em um lugar com muros, fechado, onde não cabe nem um décimo do público que costuma aproveitar a Virada. A última edição [em maio de 2016] teve a participação de três milhões de pessoas e pouquíssimas ocorrências policiais. A segurança pública não pode ser justificativa para a mudança.

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Luis Fernando Gallo

Queila Rodrigues, integrante do Movimento Cultural das Periferias

A Virada Cultural já é excludente da maneira como existe, pois não contempla os coletivos de periferia. Artistas periféricos se apresentam na Virada, mas geralmente em palcos secundários e com cachês muito abaixo dos pagos aos grandes artistas.

Mas a transferência para Interlagos é limitar ainda mais a participação da população como um todo, pois, apesar das limitações, o centro ainda é um ponto de encontro. Em Interlagos, o evento terá o acesso dificultado e restrito, em um processo de higienização que vai ao encontro do discurso do futuro prefeito. Nós, da periferia, não cabemos na cidade que ele está propondo.

Mesmo fazendo críticas ao formato atual da Virada, essa mudança vai totalmente contra toda as pautas que viemos colocando. Entendemos que o recurso gasto em um único dia seria suficiente para subsidiar ações de diversos coletivos na periferia durante todo o ano. Descentralizar o recurso é fazer uso melhor dele. Será que 24h de Virada são mais importantes que um ano de programação cultural espalhada pela periferia?

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Taina Azeredo

Paula Dias, integrante do Hey Sampa, coletivo que promove a educação patrimonial em São Paulo

Está claro que a decisão foi tomada sem nenhuma conversa com alguém que pense em centros urbanos, cidade para pessoas e ocupação do espaço público. É uma ideia que vai totalmente contra o conceito da Virada, que mais do que trazer shows para o centro da cidade, traz as pessoas, sendo um grande facilitador desse processo que é reapresentar a cidade para a sua população, fazendo com que ela olhe para o espaço urbano e para o centro de uma maneira que não está acostumada.

Olhar para cidade, para seus aspectos belos e não belos, gera uma reflexão para que continuemos sendo cidadãos ativos no nosso espaço.

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Gil Marçal, produtor cultural da periferia, foi curador das últimas duas edições da Virada Cultural

Primeiro ponto: a Virada não cabe em Interlagos. Uma parte dela, talvez. Nem de longe o Autódromo é suficiente para dar conta do público que a Virada envolve.

Outro ponto a ser considerado: a ocupação do espaço urbano, relacionado ao conceito de direito à cidade. O centro é um território de todos os moradores, ponto de encontro onde é possível conectar a zona leste e a zona sul. Se apenas os grandes shows acontecerem em Interlagos, como alguém que mora na zona leste vai fazer para ir? Atravessar 70 quilômetros dentro da própria cidade?

Ainda há tempo para uma mudança de estratégia que contemple Interlagos, o centro e outras regiões da cidade. Na última Virada, houve palcos em diversos pontos da periferia, em todas as macro zonas da cidade, e isso precisa ser aprofundado para que a população possa participar da Virada em seu território e também passar pelo centro se tiver vontade.

Houve um avanço no sentido de promover esses palcos no território da cidade, envolvendo artistas daquele território, e também tiveram palcos no centro da cidade que receberam artistas relacionados à cultura periférica. Não de maneira suficiente, mas acredito que a tendência do processo era fazer esse encontro do artista do território com os artistas que dialogam com as massas.

Acredito que a cidade deveria promover muito mais eventos como a Virada, talvez não com tanta oferta de shows no mesmo dia e hora, mas distribuídos ao longo do ano, para que a população possa ter acesso permanente à cultura.

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Heloisa Ballarini / SECOM

Renato Cymbalista, professor de história do urbanismo da FAU-USP e diretor do Instituto Pólis

A Virada ajudou os paulistanos a reaprenderem a usar a cidade.  Foi um passo importante de reconquista das ruas e espaços públicos, assim como o Carnaval de Rua, a Paulista Aberta, entre outras iniciativas.

O sucesso da Virada foi transformando-a. Por um lado, é verdade que com o passar do tempo ela foi ficando mais intensa e que em alguns eventos específicos passamos da qualificação à desqualificação dos espaços, dada a quantidade de gente e de ruído. Mas o caso é de estudar em que situações os desequilíbrios acontecem e tentar evitá-los, compatibilizando as atividades com o espaço público. Segregar a Virada em apenas um lugar, e fechado, como se fosse um show, é tirar toda a vitalidade da proposta original.

Não sou contra existir algo da Virada em Interlagos, pode ser até interessante. Mas sou contra a Virada acontecer só em Interlagos. Em primeiro lugar, é um mito que lá o incômodo é menor. Ele é, talvez, até maior, porque o ruído que acontece em Interlagos reverbera por toda a região da represa de Guarapiranga, o som é audível de muito longe. Mas quem ouve o barulho não mora no centro, nos Jardins. Tem uma questão de classe colocada aí.

Em segundo lugar, tem uma perda para a própria sociabilidade. A Virada só é ela mesma se acontecer na cidade, se interferir no que a cidade tem para oferecer em suas ruas, calçadas e parques. Concordo que não devemos colocar qualquer atividade em qualquer lugar, mas sou a favor de estudar que tipo de atividade combina com determinada vizinhança. Jazz, Bossa Nova, Chorinho, Samba de Roda, tem tanta coisa possível. Segregar o ruído é a decisão mais simplória. Eu esperava mais sofisticação do novo prefeito, que se acha tão chique. Está fazendo um raciocínio muito básico com essa proposta.

Acho que a Virada deve acontecer na cidade toda, e o impacto maior dela é mostrar a nós que os nossos espaços públicos são viáveis e possíveis de serem ocupados. Mas para mim, é importante que ela aconteça também no centro, que é o lugar mais bem servido de transporte, o lugar com espaços públicos mais qualificados, onde a memória da cidade é mais visível. A Virada traz gente para o centro que não iria de outra forma, e isto é bom quando mostra a região como um lugar possível e acessível à todos.

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Heloisa Ballarini / SECOM

Paulo Noviello, criador da página A Paulada Diária, que convocou o evento Virada Cultural Clandestina

Sou paulistano e adoro minha cidade, apesar dos problemas. Resolvi criar o evento porque a Virada é, na minha opinião, uma das coisas mais legais de São Paulo, não só pelas atrações mas pela troca humana que acontece no centro, as pessoas ocupando de fato o espaço público, se reconhecendo, curtindo juntas. Claro que tem problemas, eu mesmo já tive celular furtado em uma Virada, mas acho esse tipo de evento fundamental para a cidade ser menos dura e hostil. Não faz o menor sentido urbanístico confinar a Virada em um autódromo, vai descaracterizar totalmente.

Eu não esperava essa repercussão da Virada Clandestina. Fiquei muito feliz, principalmente com a quantidade de gente que está se dispondo a ajudar na organização, se apresentar. Não sei o que vai acontecer, mas fazer um evento desse de forma independente é viável, temos muitos coletivos e iniciativas na capital que ocorrem de forma independente.

Acho muito bacana os cidadãos se apropriando da cidade, de diversas formas, e essa é mais uma. Essa tendência não tem volta. Se não fosse eu, com certeza outros teriam tido essa ideia. Acho que, mesmo que a Virada aconteça normalmente, todas essas pessoas podem e devem realizar seus eventos de forma independente e aberta nos espaços públicos da cidade, como já vem ocorrendo.

(A imagem que abre esta matéria é de autoria de Carlos Severo / Milenar, via FotosPúblicas)