Criar na cidade

Cinco motivos para conhecer todos os lugares listados pelo guia Prato Firmeza

Guias gastronômicos tradicionais dificilmente dão conta de abarcar toda a diversidade cultural e as maneiras de se alimentar em uma metrópole como São Paulo. Pelo contrário: tais listas têm o costume de distribuir notas e estrelas aos melhores e mais caros restaurantes da cidade, restringindo sua área de mapeamento ao centro expandido paulistano, local que concentra a elite econômica da capital.

Os bons lugares para comer, porém, estão devidamente espalhados por todos os 1.523 km² de território que formam o município. Para provar que esses lugares, além de saborosos, são baratos, confortáveis e acessíveis, foi produzido o Prato Firmeza – Guia Gastronômico das Quebradas de SP. Como diz o nome, o guia tem o objetivo de abarcar a comida que é feita “da ponte pra lá”, ou seja, na imensa periferia que São Paulo abriga em suas margens.

Confira abaixo cinco razões que fazem deste guia uma importante novidade para a cultura gastronômica de Sampa:

 

1# Comida honesta

Lançada recentemente em formato de livro, mas também disponível virtualmente, a obra foi realizada pelos alunos da Escola de Jornalismo da Énóis, agência que estimula a produção independente de jovens entre 14 e 21 anos.

Os 40 locais escolhidos para compor a versão final – entre restaurantes, botequins, lanchonetes e carrinhos de comida – foram selecionados pela equipe de correspondentes locais da agência, formada por jovens moradores da periferia. Sua missão: promover estabelecimentos que estão fora do radar gastronômico da cidade.

Guilherme de Sousa, repórter da Escola de Jornalismo, descreve a empreitada como “um guarda-chuva de comida honesta no meio dessa tempestade de raios gourmetizadores que paira sobre nossas cabeças”.

Prato Firmeza tem o objetivo de avaliar a comida que é feita “da ponte pra lá”, ou seja, na imensa periferia que São Paulo guarda em suas margens.

Mapeamento compara locais contemplados pelo Prato Firmeza com guias gastronômicos tradicionais.

Reprodução

2# Incentiva a economia local da periferia

Segundo Amanda Rahra, cofundadora da Énóis, a provocação “onde vocês comem na região em que vivem?” deu vida ao Prato Firmeza, que começou em 2012 a partir de um projeto do aluno Matheus Oliveira. Com 20 reais no bolso, o jovem – então repórter gastronômico – começou a mapear lugares bons e baratos e a avaliar os pratos e serviços recebidos.

Para outra cofundadora da agência, Nina Weingrill, o Prato Firmeza é um serviço destinado a quem come e empreende na periferia. Entre os critérios para entrar na listagem, estavam o não aparecimento em nenhum outro guia semelhante. “Queremos dar visibilidade a quem não tem visibilidade”, observa Amanda. “Existe uma potência de mercado enorme, fazer o dinheiro circular mais na própria periferia.”

Prato Firmeza tem o objetivo de avaliar a comida que é feita “da ponte pra lá”, ou seja, na imensa periferia que São Paulo guarda em suas margens.

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Guilherme de Sousa

Além de contemplar as quatro zonas de São Paulo (menos a região central), o Prato Firmeza também mapeou locais de alimentação em Osasco, Guarulhos, São Caetano, Santo André e Diadema.

3# Estimula o sentimento de pertencimento

“A comida desperta afetos, memória e sabores”, prossegue Amanda que vê na alimentação local o potencial de despertar uma maior identidade da pessoa com o território. “Queremos que as pessoas parem, comem e pensem: ‘tem comida boa aqui, essa é minha quebrada, esse é meu lugar’”, acredita a cofundadora.

A estruturação espacial do guia está diretamente relacionada com as zonas de circulação dos jovens correspondentes do Énóis. “Ele reflete o espaço geográfico de cada um, então contempla também um mapeamento afetivo destes jovens.”

Opinião essa que é reforçada por Guilherme, para quem a comida proporciona uma ligação emocional das pessoas com o lugar aonde vivem. “Saber os bons locais para comer nos dá mais propriedade para nos sentirmos dentro daquela comunidade.”

Prato Firmeza tem o objetivo de avaliar a comida que é feita “da ponte pra lá”, ou seja, na imensa periferia que São Paulo guarda em suas margens.

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Guilherme de Sousa

4# Um lugar mais autônomo impulsiona a circulação de pessoas

De acordo com Amanda, estudos sobre o conceito de Cidade para Pessoas mostram que, quanto mais autonomia existe nos diferentes espaços, maior a circulação de cidadãos. “Este guia mostra que a autonomia nas periferias já existe, o que falta então é descentralizar o poder econômico e político também.”

Para ela, quem participou da produção do guia adquiriu um olhar diferente para a cidade. “Quando você diversifica, você amplia. Cada periferia tem sua vida comunitária, sua cultura, sua comida. Precisamos deixar de ser ensimesmados e achar que a cidade é o entre rios.”

Prato Firmeza tem o objetivo de avaliar a comida que é feita “da ponte pra lá”, ou seja, na imensa periferia que São Paulo guarda em suas margens.

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Guilherme de Sousa

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5# Comida para todos os gostos

Dentre os quarenta lugares listados pelo livro do Prato Firmeza – o formato virtual contempla 70 locais – constam hamburguerias, pizzarias, pastelarias, docerias, sorveterias e comidas para todos os gostos, como acarajé, churros, milho verde, coxinha, yakissoba e culinária oriental.

“Temos uma pluralidade muito grande de lugares, o que reflete como a cidade é múltipla”, aponta Guilherme. Para ele, a alta gastronomia “não pode ser a única coisa que vemos nas tevês, jornais e guias”.

“E o melhor de tudo é que não são lugares inacessíveis. Se você sentar em qualquer um deles, dá para falar com o dono ou com os cozinheiros. A ideia central é trazer de volta o contato das pessoas com a comida”, finaliza o repórter e fotógrafo gastronômico.

(A foto que abre esta matéria é de autoria de Guilherme de Sousa)