Transformar a cidade

Estudo traça panorama da mobilidade urbana de mulheres em São Paulo

Um estudo lançado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) traçou um panorama acerca da mobilidade urbana das mulheres em São Paulo. Realizado a partir de uma pesquisa de 2012 da Companhia do Metropolitano de São Paulo, a análise mostra que as mulheres utilizam o transporte público coletivo com mais intensidade do que os homens (40,5% a 34,7%) e também se deslocam mais a pé (34,1% a 27,8%).

“Ultimamente as mulheres participam de um monte de atividades, estão em todas as áreas e, portanto, circulam mais. Imagina-se, então, que o resultado pudesse ser igualitário, mas a pesquisa mostra que o carro continua sendo predominantemente masculino, enquanto o andar a pé é feminino”, explica a psicóloga, pesquisadora e militante feminista Raquel Moreno.

A pesquisa mostra que, na capital paulista, as mulheres utilizam o transporte público coletivo com mais intensidade e andam mais a pé do que os homens.

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Reprodução

Para ambos os sexos, trabalho e educação são os principais motivos de deslocamento diário. As mulheres, no entanto, apresentam maior variedade na finalidade de suas viagens (como saúde, assuntos pessoais, lazer e compras). De acordo com a pesquisa, essa diversificação “pode ser explicada pelas funções que recorrentemente recaem sobre as mulheres de levar e buscar os filhos na escola, acompanhar familiares em consultas médicas, realizar compras”, entre outras.

“Esses dados refletem a dupla jornada das mulheres”, aponta Raquel. “Elas gastam muito mais tempo na jornada doméstica do que os homens, que é encarada como um trabalho feito por amor.” Raquel observa que, mesmo sendo maioria nos usuários de transporte público, o assédio direcionado à mulheres neste espaço ainda é enorme. “Nós, mulheres, exigimos respeito e segurança. Há avanços quanto à prestação de queixas, mas ainda são muito burocráticos e insuficientes.”

A pesquisa mostra que, na capital paulista, as mulheres utilizam o transporte público coletivo com mais intensidade e andam mais a pé do que os homens.

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Geledés

De acordo com a SMDU, “as características socioeconômicas da população contribuem para que o acesso físico à cidade não seja homogêneo, influenciando além do acesso ao trabalho e à educação, o acesso à cultura, aos cuidados com a saúde”.

A diferença entre gêneros também acontece na direção de um automóvel. Enquanto somente 13,7% das viagens femininas são realizadas por elas mesmas dirigindo, quase o dobro deste número são realizadas por homens (26,4%). Se for dividido por renda familiar, os números mostram um enorme abismo entre mulheres de diferentes classes sociais. Mulheres que têm ganhos de até R$ 2.488 fazem 3% de suas viagens na direção de veículos. Já mulheres com renda mais alta (em valores que superam R$ 9.330) realizam 45% de suas locomoções dessa maneira.

Diferença entre classes sociais

O estudo aponta ainda que as mulheres com salários mais baixos são as que mais utilizam os transporte público coletivo e a caminhada. Em uma família com ganhos mensais menores que R$ 1.244, 50% das viagens são feitas caminhando e 28% de ônibus. “Elas acabam tendo um deslocamento mais penoso. O transporte coletivo de uma cidade como São Paulo é insuficiente, ainda mais com recursos escassos para pagá-lo.” Já a pesquisa argumenta que, “no limite, pode-se concluir que as mulheres das faixas mais pobres enfrentam uma tendência à imobilidade urbana”.

A pesquisa mostra que, na capital paulista, as mulheres utilizam o transporte público coletivo com mais intensidade e andam mais a pé do que os homens.

Com a intenção de qualificar o debate sobre políticas urbanas inclusivas e políticas públicas setoriais relacionadas ao tema, o estudo defende que “o modo como essas mulheres se deslocam pela cidade faz com que sejam atores centrais no planejamento urbano, uma vez que, por usarem mais transporte coletivo e se deslocarem mais a pé, vivenciam de maneira mais próxima e orgânica essa dimensão do espaço público e seus equipamentos”.

Políticas públicas

A Conferência sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável – Habitat III, promovida pela Organização das Nações Unidas em Quito, Equador, em outubro, estabeleceu a Nova Agenda Urbana incluindo recomendações específicas em atenção ao direito e necessidade das mulheres dentro dos compromissos de mobilidade igualitária e acessível e segurança viária.

Sugere-se, então, medidas como redução da velocidade máxima de vias, inclusão de motoristas mulheres, possibilidade de desembarque noturno de ônibus em locais seguros, instalação e melhoramentos em calçadas, iluminação, simplificação de tarifas de transporte com integração e elevação da oferta de modais, valor de tarifa por tempo e não somente por trecho de deslocamento.

“A mobilidade é crucial na realização da cidadania nas grandes cidades. É através dela que os indivíduos podem atender suas necessidades e desenvolver aptidões. Quando benéfica ao conjunto de indivíduos, em suas particularidades, contribui para a efetivação do direito à cidade”, aponta o documento. “Se temos direito à cidade, deveríamos ter direito de se deslocar pela cidade de maneira adequada”, finaliza Raquel.