Criar na cidade

Em visita a Fab Lab, escola revela como a tecnologia pode promover a diversidade

“Olha isso! Tá derretendo e virando tinta!”

A exclamação veio da pequena Melissa, surpresa com a impressora 3D que trabalhava a todo vapor em sua frente. Ao seu lado, colegas e familiares também estavam boquiabertos diante da máquina e da estrutura tecnológica do Fab Lab Livre do Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Enquanto uma pequena mão azul – com articulações idênticas às de uma mão natural – era impressa em três dimensões, estudantes do Infantil I da EMEI Heitor Villa Lobos conheciam o espaço, localizado no subsolo do CCSP. Fábricas de produção digital, os Fab Labs proporcionam cursos e formações para jovens estudantes da rede pública criarem, de forma colaborativa, protótipos de baixo custo para manufatura em larga escala. Hoje, a capital paulista conta com 12 Fab Labs.

Estudantes da EMEI Heitor Villa Lobos visitam Fab Lab do Centro Cultural São Paulo e, através de desenhos, fortalecem a própria identidade.

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Danilo Mekari

Desenhos pela diversidade

As crianças desenharam a si mesmas com canetas coloridas e massinhas de moldar, brincaram com objetos já impressos pela máquina e puderam conhecer de perto a alta tecnologia proporcionada ao público pelo laboratório. Familiares dos estudantes também acompanharam a visita – muitos nunca tinham ouvido falar do espaço.

“Nesse último semestre, trabalhei com as crianças sobre respeito e tolerância e sobre a questão das etnias, das diferenças entre nós. Usamos o desenho como base para esse trabalho”, explica a professora Carol Laiza. Com os autorretratos das crianças em mãos, a docente decidiu entrar em contato com o Fab Lab para transformar esses desenhos em objetos 3D.

A professora usou o caso de Melissa para mostrar os resultados do processo. A menina não gostava de seu cabelo cacheado e afirmava querer ser loira. Após o trabalho de identidade e diversidade realizado pela escola, Melissa passou a se ver de outra forma. “Fizemos autorretratos tanto no começo como no fim do ano. A diferença é enorme.”

Estudantes da EMEI Heitor Villa Lobos visitam Fab Lab do Centro Cultural São Paulo e, através de desenhos, fortalecem a própria identidade.

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Danilo Mekari

Curso

Carol foi uma das participantes do curso Potenciais Educativos do Território, realizado pelo Programa Cidades Educadoras em parceria com a DRE Ipiranga. Foi durante a formação que ela conheceu de perto os laboratórios de fabricação digital, tanto na Vila Itororó como na Barra Funda. “Me atraiu bastante o seu funcionamento e o que poderia ser feito por lá”, aponta.

“Resolvi compartilhar tudo o que foi visto e vivenciado no curso. Isso ainda reverbera nas minhas práticas na escola com as crianças”, ressalta.

Estudantes da EMEI Heitor Villa Lobos visitam Fab Lab do Centro Cultural São Paulo e, através de desenhos, fortalecem a própria identidade.

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Danilo Mekari

Família

De acordo com Priscila Barbosa, professora de Informática e funcionária do Fab Lab, foi a primeira vez que o espaço recebeu crianças tão pequenas. “Temos vontade de criar uma oficina para essa faixa etária”, afirma. Hoje, os cursos são direcionados para crianças acima de 10 anos, jovens e idosos. “É importante que, desde pequenas, as pessoas saibam que podem construir coisas a partir de material reciclado e madeira, e não apenas comprar. Isso estimula a criatividade.”

Avô de Laila, 4, Altemar também estava surpreso com o espaço, que conhecia pela primeira vez. Ali, o baiano de 52 anos relembrou sua própria infância. “A chance que minha neta está tendo, de conhecer um polo de tecnologia, eu não tive. Com certeza, a vida começa bem melhor assim.”