Criar na cidade

Entregue à João Dória, manifesto exige valorização dos catadores de materiais recicláveis

Em seu primeiro dia útil à frente da Prefeitura de São Paulo (2/1), o empresário João Dória Jr. (PSDB) acordou cedo, se vestiu de gari, lançou o programa Cidade Linda e posou para inúmeras fotos ao lado de funcionários públicos de limpeza urbana. Após dar duas vassouradas na Praça 14 Bis – que já tinha sido faxinada no dia anterior –, o novo prefeito da capital paulista anunciou que repetirá a ação semanalmente durante os quatro anos de gestão.

Antes de retirar o traje e se recolher para o gabinete, Dória recebeu uma cópia do manifesto “Do lixo, vivo!”, produzido pelo movimento Pimp My Carroça, que desde 2012 atua pela valorização do trabalho dos catadores de matérias recicláveis. Além disso, foi convidado a ser catador por um dia.

“Ser catador é um desafio gigante. Além de carregar carroças pesadas no meio do trânsito e do sol, os catadores vivem com pouca visibilidade”, afirma Daniela Teixeira, integrante do movimento. “Com o manifesto, pretendemos sensibilizar a sociedade para pensar em programas de inclusão de catadores de resíduos mais adequados à nossa realidade.”

 

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a geração de resíduos sólidos urbanos cresceu 29% entre 2003 e 2014 em todo o Brasil – cinco vezes mais que a taxa de crescimento populacional do país (6%).

“A redução urgente na geração de resíduos, por meio de educação da sociedade, e a ampliação da coleta e reciclagem em São Paulo dependem essencialmente do trabalho dos cerca de 25 mil catadores de materiais recicláveis que trabalham e circulam por toda a cidade, segundo estimativas do Movimento Nacional de Catadores de Recicláveis”, afirma o manifesto.

O documento, também entregue aos novos secretários da gestão, ainda reforça a participação dos catadores na construção de uma cidade sustentável, contribuindo com o cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas.

“O que é uma cidade linda? Uma cidade inclusiva, sustentável de fato, onde o sistema de coleta seletiva funcione sem maquiagem. Uma coisa é limpar a cidade superficialmente e outra é organizar a limpeza estruturalmente”, acredita Daniela. “É preciso falar não apenas de visibilidade, mas de reconhecimento e remuneração adequada para os catadores.”

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, a geração de resíduos sólidos urbanos cresceu 29% em dez anos.

Direito à cidade

O manifesto lista uma série de reivindicações da categoria, incluindo a garantia de liberdade de circulação. “As carroças não podem ser apreendidas como algo estranho à cidade. Elas fazem parte dos serviços prestados a ela”, prossegue o texto.

“Vou dar um exemplo ilustrativo”, adiantou Daniela. “A cidade não respeita o direito do catador circular com a sua carroça. Quando está na rua, leva buzina nas costas. Quando está na ciclovia, é xingado. Os catadores precisam de um lugar seguro para estacionar seu instrumento de trabalho e gozar do direito de pertencer à cidade e utilizar os mesmos benefícios de um cidadão que tem carro ou bicicleta.”

(A foto que abre esta matéria é de autoria de Ueslei Marcelino)