Criar na cidade

Niggaz: o grafiteiro que virou praça na praça que foi escola

por Pedro Ribeiro Nogueira e Danilo Mekari.

Hoje, Alexandre Luis da Hora Silva, o Niggaz, batiza uma ausência. A pracinha da rua Belmiro Braga, meio viela, meio esquecida, leva seu nome, escolhido após vencer uma votação online. Ali, em uma parede respeitada, reside um painel feito por ele em algum momento dos anos 2000. Era naquele lugar que o artista de rua do Jardim Eliana, do Grajaú, bairro da zona sul de São Paulo, encontrava abrigo em algumas noites e espaço para sua expressão nos dias que lhe couberam.

Naquela época, antes da sua morte, em 2003, eram mais de duas horas e meia balançando no transporte público até a Vila Madalena. Sentado no ônibus, Niggaz rascunhava incansavelmente em seu caderninho os traços que ajudariam a transformar a cara da cidade, o olhar do bairro e a vida de inúmeros educadores, estudantes e grafiteiros. Antes de batizar ausências, Niggaz ilustrava distâncias.

Entre os grafiteiros e educadores que o conheciam, o veredicto é unânime: se estivesse vivo, seria um dos maiores nomes do grafite brasileiro. “Com um látex bege, rolinho e uma lata de spray marrom, ele fazia coisas incríveis”, relata Rafael Calazans Pierri, o grafiteiro Highraff, em seu escritório no Beco do Batman, uma galeria a céu aberto mundialmente conhecida, tomada por turistas e que ostenta uma parede com uma homenagem coletiva ao Niggaz.

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora.

Grafiteiro dá nome à encontros anuais entre artistas do Grajaú.

Henrique Madeira

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora. O texto foi publicado originalmente em 2015, no livro Niggaz da Hora – graffiti, memória e juventude. Interessados em adquirir a obra devem entrar em contato com a página de Facebook Encontro Niggaz.

Prova de sua importância para a arte urbana paulistana e de sua influência para além do grafite, o Encontro Niggaz é realizado anualmente por artistas que eram amigos de Alexandre. Em 2016, o reconhecimento chegou a sua décima primeira edição e deixou marcas nas paredes da escola onde Niggaz estudou, no Grajaú, zona sul paulistana. O artista Ciro Schunemann participou dos primeiros encontros, pintou ao lado de Niggaz na Vila Madalena e ratificou o legado histórico do companheiro. “Ele influenciou muito a galera da zona sul, virou referência como o primeiro artista de rua de lá que deu certo. Era visto por muitos jovens como um periférico que atingiu o sucesso.”

“A gente se encontrava no Terminal Santo Amaro e saía pra pintar pela cidade, fomos criando uma amizade grande, uma sintonia. Aprendi muita coisa com ele. Ele era um mestre da luz e das sombras, tinha um traço muito fino e conseguiu fazer caviar de arroz e feijão, tirar coisas lindas da escassez”, relata o grafiteiro, emocionado ao lembrar que, dois anos após a morte de Alexandre, ele finalmente aprendeu a fazer as sombras que o colega tentava lhe ensinar. “Foi como se ele dissesse ‘viu, agora você sabe’”.

Bairro-escola: a educação na cidade

Entre 1999 e 2003, Niggaz frequentou assiduamente os becos da Vila Madalena, acompanhado de um amplo grupo de grafiteiros, artistas e educadores. As histórias sobre como tudo começou divergem, mas têm um ponto em comum: o Projeto Cem Muros que, entre 1999 e 2001, transformou mais de cem muros do bairro, com mosaicos elaborados a partir de oficinas comunitárias de arte, envolvendo mais de 20 mil pessoas.

À época, esses encontros ocorriam na Escola da Rua, definida por Gilberto Dimenstein, fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz, como uma “usina de arte comunitária” e um “laboratório de utopia urbana”. Agindo sobre a mesma matéria-prima dos grafiteiros – as paredes e muros de um bairro -, as intersecções começaram a surgir.

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora.

Projeto 100 Muros.

Reprodução

Os grafiteiros, que já atuavam nos diferentes territórios da cidade, colorindo as paredes a despeito das proibições e dificuldades, dizem que procuraram o Aprendiz, organização social que desenvolvia o projeto Escola da Rua, “pois eles conseguiam autorização para pintar as paredes”. Outros contam que tudo começou quando um mosaico “atravessou” um grafite. De uma forma ou de outra, começava aí um proveitoso intercâmbio.

“Quando começamos a trabalhar o conceito de Bairro-escola na Vila Madalena, pensávamos na ideia do território como extensão da escola, uma proposta que iria se estruturar a partir de diversas redes, repensando a ideia da cidade como espaço educativo”, relembra Gilberto Dimenstein. “Não estava consolidada, apesar de iniciativas pontuais, a ideia do grafiteiro como educador. No projeto, pensamos neles como agentes de educação da cidade.”

Era preciso desenvolver ações de engajamento e mobilização apoiadas em uma outra concepção de cidade. Uma cidade mais humana, democrática e solidária.

Para traduzir a concepção do Bairro-escola em uma prática orgânica do território, articulando os diferentes atores da comunidade em prol do desenvolvimento integral dos sujeitos, especialmente as crianças e adolescentes, como preconizava o Aprendiz, era preciso desenvolver ações de engajamento e mobilização apoiadas em uma outra concepção de cidade. Uma cidade mais humana, democrática e solidária.

Nesse processo, o grafite emerge como uma estratégia de inclusão cultural e divulgação do Bairro-escola. “Como você pinta um bairro inteiro? Chamando os grafiteiros para mostrar seu trabalho e, dessa forma, fazer com que enxerguem o que fazem como uma ação social e como uma possível forma de sustento. Naquele momento, não existia a profissão de grafiteiro. A gente apostou na Escola da Rua, na ideia de um bairro colorido onde os muros pudessem significar um ponto de união. Em uma cidade cinza como São Paulo, criamos pontos coloridos”, relata Dimenstein.

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora.

Desenho de Niggaz se mantém na praça que leva seu nome.

Reprodução

Muro de tensões

Se uma pessoa deseja evocar uma metáfora para definir segregação, muro será provavelmente a primeira palavra que acude à mente. Para Rafael, o Highraff, no entanto, “o grafite transforma o muro em um portal, por onde se pode enxergar várias possibilidades de realidade. Ali você começa a se enxergar em um mundo lúdico e tudo pode ser diferente”. O artista também acredita que o grafite é p sintoma de um espaço doente. “Quando um local é abandonado, o grafite toma conta. Ele denuncia e ressignifica aquele lugar, traz o convívio e a cor para o que era escuro.”

Assim era o Beco Niggaz da Hora, ou Beco do Aprendiz, como era conhecido, há quase vinte anos. Repleto de mato, vazio e perigoso. “A Vila era diferente, já era badalada mas não tinha tantos bares, sem restaurantes sofisticados. Era um lugar de poucos prédios, com mais diversidade e mais pobreza, cortiços, casinhas. Quando o Aprendiz nasce ainda existiam muitas crianças em situação de risco e até uma favela que desapareceu”, rememora Dimenstein. Com as seguidas intervenções urbanas, a criação de um espaço de aprendizado permanente através de projetos como o Beco-Escola, Escola na Praça e Escola da Rua, essa realidade começou a assumir suas potências.

Gejo “O Maldito”, grafiteiro e educador, via a aproximação com o bairro da Vila Madalena “com um olho aberto e outro fechado”. “A gente vinha de uma cultura crítica muito forte, mais alinhada à esquerda e às periferias, ao Hip-Hop, mas a gente sabia que a gente tinha que estar lá dentro porque a gente era jovem e a cidade era nossa. A gente que vai pintar, a gente que vai limpar, a gente que vai ocupar. E o Aprendiz fazia o meio de campo, conseguia as tintas, a autorização. A gente ficava esperto para não ser cooptado, mas a realidade é que vimos que era gente de diferentes lugares, diferentes classes sociais, mas que tinham um objetivo comum. A Vila nunca estava cinza. Em qualquer esquina, você encontrava alguém fazendo grafite”, narra.

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora.

Vista do beco da praça Niggaz da Hora.

Reprodução

Esse caldeirão, remonta Gejo, foi importante para associar o papel da cultura do Hip Hop e do grafite, a uma perspectiva educadora. O local, segundo ele, “funcionava 24h por dia e todo mundo trazia alguém para somar e aprender. Era o ponto de encontro do grafite na época e  muita gente que passou por ali”. Toda quarta-feira à noite, grafiteiros de São Paulo se encontravam no mesmo galpão em que funcionava o programa Cem Muros e a Escola na Praça para desenhar, aprender, conversar, pintar um azulejo que viraria um mosaico nas ruas do bairro, para testar novas técnicas, ensinar um parceiro, ler um livro de arte. Durante a semana, o beco, que segundo Gejo era o “quintal do Aprendiz”, também era inundado por esses intercâmbios.

Explosão de liberdade

Responsável por coordenar o projeto Beco-Escola, Eymard Ribeiro recorda a “pegada educativa” de muitos dos grafiteiros, sempre próximos da molecada que costumava circular pelas ruas da Vila. Conseguir um trabalho de oficineiro era uma forma de poder sustentar sua arte. “Nós usamos esse espaço do beco como um laboratório de pesquisas do grafite e nossa metodologia era trazer pessoas que já faziam essa arte e pensar sobre os discursos formulados nas paredes da cidade. Era um processo de encontros, uma escola de grafite e o Niggaz era uma voz ativa nesse processo, discutindo autoria, ocupação do espaço público, diálogo com a cidade e outros temas”, elabora Eymard.

“Era um processo de encontros, uma escola de grafite e o Niggaz era uma voz ativa , discutindo autoria e ocupação do espaço público.”

Já Célia Pecci, que coordenava a Escola da Rua, lembra de Niggaz como um jovem grafiteiro muito sensível e conectado às questões raciais e sociais que permeavam sua vida e o mundo que retratava em seus muros e cadernos. “Ele tinha uma radicalidade muito presente, um grande interesse na transformação do mundo e um diálogo muito bom com todos e todas, especialmente com as crianças – ou seja, tudo que faz parte de um grande educador e de um grande artista.”

A Escola da Rua, segundo Célia, nasce a partir da ideia de derrubar muros e aproximar pessoas. “Queríamos transformar os muros das escolas e tirar sua carga simbólica, aproximando a escola pública da privada, trazendo estudantes de uma para outra, enfim, fazer com que a cidade se abrisse para dentro da escola e a escola se esparramasse para a cidade.” Ao se mudar para o galpão da rua Belmiro Braga, a Escola mantinha as portas sempre abertas para crianças, jovens voluntários e grafiteiros. “Não era um projeto que tinha horário de atendimento. As pessoas se reuniam dia e noite, saíam e voltavam para guardar material, conheciam as crianças que frequentavam a Escola na Praça no contraturno. O Cem Muros deu luz à comunidade”, descreve Célia.

Em um momento de tensão para a arte urbana de São Paulo, resgatamos a história de um dos maiores grafiteiros que a capital paulista já teve: Niggaz da Hora.

Local passou por uma transformação a partir da arte urbana.

Reprodução

“A gente tinha patrocínio de uma empresa – que dava tintas sem nem cobrar contrapartida -, apoio do Aprendiz e autorização da Prefeitura. Foi uma explosão de liberdade, um momento ímpar que impactou para sempre a história do grafite nacional”, sintetiza Eymard. A efervescência do momento fez surgir novos projetos, como a cobertura dos muros do Cemitério São Paulo com mosaicos de azulejo feitos por pixadores e o SP Capital Grafite, que, em 2003, percorreu mais de 50 muros em 31 subprefeituras da cidade, estabelecendo diálogos duradouros entre diversos artistas urbanos.

“Nossa poética, nossa intenção era ocupar os espaços, transformar a vida da Vila Madalena e de suas pessoas. Infelizmente, isso muitas  vezes acabou contribuindo para uma elitização muito forte do lugar. Hoje não tem mais criança na rua e isso é uma perda. A gente fica pensando que podia ser diferente. Mas foi uma época extraordinária, com muita potência de articulação, de promessas, de possibilidades e conversas. Era pintar, pintar e pintar, ir para lá e para cá. A gente tinha estrutura e muita imaginação”, analisa Eymard.

No muro do beco Niggaz da Hora, localizado entre as ruas Belmiro Braga e Padre João Gonçalves, a pintura de Niggaz sobrevive – o único painel completo do artista. Nele, é possível observar fragmentos de sua trajetória: os corpos negros marcados e corajosos, o uso preciso de curvas e cores e a representação de uma nave sendo sequestrada à mão armada. Ela se projeta na direção de quem observa e faz pensar sobre voos inconclusos, sobre a história raptada de um país e sobre aqueles que, mesmo com a fria e pesada arma na cabeça, ousaram estabelecer seus traços. À sua maneira, Niggaz ainda ocupa a cidade, o bairro e a escola ao ar livre que ajudou a construir. Quem souber escutar os muros, não vai deixar de aprender com aquele rapaz do Grajaú.