Transformar a cidade

Em pesquisa que sustentará Plano de Metas, cidadãos reprovam São Paulo

Divulgado nesta terça-feira (24/1), véspera do aniversário de São Paulo – que completa 463 anos amanhã –, o Índice de Referência de Bem-Estar no Município (IRBEM) revela que a população paulistana anda bastante descontente com a qualidade de vida na cidade.

Dividida em 71 aspectos – separados em 17 áreas, como educação, saúde, cultura e transporte –, o levantamento pretende dar subsídios para a elaboração do Plano de Metas 2017-2020, que abarca a gestão municipal do prefeito João Dória Júnior (PSDB). Para tanto, o IRBEM 2017 teve uma redução no número de temas pesquisados, para focar estritamente naquilo que o poder público pode influenciar, retirando questões de cunho pessoal.

São Paulo foi a primeira cidade brasileira a aprovar a Lei de Metas. Atualmente, 48 cidades já incluíram o Plano de Metas na lei orgânica do município, entre elas capitais como Rio de Janeiro, Porto Alegre e João Pessoa. Em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Pernambuco, tramitam projetos que podem estender a lei a todos seus municípios.

Realizado pela Rede Nossa São Paulo e pelo Ibope Inteligência, em parceria com o Instituto Semeia, a pesquisa foi feita entre dezembro de 2017 e janeiro de 2017 com 1.001 moradores de São Paulo com 16 anos ou mais. Na média geral, os paulistanos atribuem nota de 3,7 para a qualidade de vida na cidade (os pesquisados deram notas de 1 a 10 para cada item).

Gestão pública reprovada

A nota média para a conservação dos espaços públicos ficou em 3,6; o tratamento dado pelos policiais aos jovens levou 3,5; a promoção da cidadania e da democracia na educação teve a média de 3,5. O tema mobilidade teve uma das médias mais altas da pesquisa: 4,5 para a quantidade de ciclovias na cidade. Já as tarifas do transporte público receberam a média de 2,7. A pior média geral ficou com o tema Transparência e Participação Política, e a pior nota para a punição à corrupção (2,2).

“Como se trata de uma edição especial do IRBEM, ela não poderá ser diretamente comparada às anteriores”, aponta Márcia Cavalari, diretora do Ibope. “Nenhum item avaliado foi maior que a média (5,5). Se a gestão pública fosse uma escola, estaria reprovada.”

A nova edição da pesquisa também aborda temas polêmicos da cidade, como a proposta de realização de plebiscitos para que a população decida sobre a execução ou não de projetos de grande impacto ambiental, social e econômico: 90% dos entrevistados se posicionaram a favor da proposta. “A lei orgânica de São Paulo diz que a população deve ser consultada antes desse tipo de obra, mas este item ainda precisa ser regulamentado. Durante a gestão de Fernando Haddad (PT), a Câmara aprovou a medida, mas o então prefeito vetou. Espero que a nova gestão da Câmara retome esse processo”, observa Oded Grajew, coordenador-executivo da Rede Nossa São Paulo.

Plano de Metas

O terceiro plano de metas da cidade de São Paulo deverá ter a sua versão inicial apresentada até o dia 31/3. Após essa data, serão realizadas 38 audiências públicas, de acordo com o secretário de gestão Paulo Uebel: uma em cada prefeitura regional (32 no total), cinco temáticas e uma na Câmara dos Vereadores. “Trata-se de um instrumento fundamental para a gestão pública melhorar a qualidade de vida da população”, afirma Grajew.

84% dos entrevistados defendem que as prefeituras regionais tenham mais autonomia e participação na gestão dos serviços públicos.

Presente ao evento, Uebel afirmou que os resultados do IRBEM servirão como ponto de partida para a construção do novo Plano de Metas da cidade, que deverá ser mais enxuto do que os anteriores. “A pesquisa mostra o anseio da população e dá dimensão das iniciativas que o poder público deverá tomar. É um excelente instrumento para a definição do Plano, que priorizará as metas-fins, diferentes dos anteriores, que focavam nas metas-meio. Acreditamos que é mais importante qualificar do que quantificar as metas. Serão menos de 100, porém mais estratégicas.”

Linda para quem?

Uebel afirmou que a gestão Dória será focada nos problemas do cidadão, e não em projetos descolados e distante da realidade das pessoas. “Vamos pensar a cidade baseada em evidências e estudos, e não apenas em questões pessoais, de preferências ideológicas.”

Questionado acerca da importância que este início de gestão vem dando ao programa Cidade Linda – ao passo em que a pesquisa mostra que a questão de aparência e estética da cidade é a menor prioridade dos cidadãos –, Uebel fez referência à Teoria das Janelas Quebradas.

“O Cidade Linda não é um projeto apenas de aparência apenas. Ele mexe com questões estruturais. No momento que você faz uma cidade linda, isso tem reflexos no transporte, na saúde, na assistência social”, acredita. “São ações variadas, baseadas na Teoria da Janela Quebrada: quando você tem áreas degradadas, os índices sociais e de criminalidade pioram. No momento em que se resolve essa questão de forma estruturada, os índices melhoram.”

Índice de Referência de Bem-Estar no Município (IRBEM) revela que a população paulistana está descontente com a qualidade de vida na cidade.

São Paulo chega aos 463 anos nesta quarta-feira (25/1).

Zé Carlos Barreta

O Portal Aprendiz também quis saber se a gestão, que segundo Uebel pensará a cidade a partir de evidências, consultou a população sobre o apagamento de grafites na Avenida 23 de Maio, até então um dos corredores de arte urbana mais famosos do mundo. “Quando se tem áreas com muitas pichações, isso passa uma imagem de abandono, de ausência do Estado, de falta de cuidado e supervisão. Existe evidência empírica que quando você começa a resolver essa questão de forma estruturada, os indicadores tendem a melhorar.”

Cidade desigual

De acordo com Grajew, a origem da maioria dos problemas de São Paulo está na desigualdade. “O Mapa da Desigualdade mostra, através de indicadores, as centenas e milhares de diferenças que existem na metrópole. Por exemplo: em Cidade Tiradentes, a idade de vida média é de 55 anos; em Pinheiros esse número chega a quase 80. Isso é resultado direto da nossa construção, então podemos também transformar essa realidade.”

Conselheiro da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão lembrou que desde as origens das cidades – há mais de 10 mil anos –, esses espaços acumulam problemas, entre eles a pobreza. “Ao mesmo tempo, temos acumulado consciência para entender os impactos do nosso desenvolvimento. É uma impossibilidade continuar vivendo com a desigualdade, que mostra claramente a insustentabilidade desse modelo de desenvolvimento”, conclui.

(A foto que abre esta reportagem é de autoria de Guilherme Vieira, via Flickr/Creative Commons)