Aprender na cidade

Em Poços de Caldas, crianças usam a cartografia para ler e intervir nos territórios

Por Aluísio Cavalcante e Marcelo Ricciardi

Um grupo de crianças da periferia de Poços de Caldas (MG) está reinventando a forma de se relacionar com os mapas e mostrando que a cartografia também pode ser um poderoso instrumento de mediação de leitura. São alunos da Escola Municipal Maria Ovidia Junqueira, que aceitaram o desafio de usar as mídias locativas para contar suas próprias histórias e construir novos significados para seus territórios.

Aluísio Cavalcanti é jornalista e coordenador de projetos e inovação da Associação Casa da Árvore.

Marcelo Ricciardi é jornalista, assessor na Casa da Árvore e educador voluntário no projeto Educafro.

A rigor, um mapa pode ser descrito como uma representação gráfica, em tamanho reduzido, de uma determinada localidade. Mas esta é uma definição que já não satisfaz a jovem Maria Eduarda Ferreira, de 11 anos. “Para mim, um mapa era um desenho de locais, ruas e casas. Agora, vi que pode ser muito mais que isso”, resume a estudante após uma imersão de quatro semanas no LAB Hiperespaços Poéticos.

A atividade foi uma das ações do BiblioArte LAB, um projeto que vem promovendo inovações em bibliotecas públicas e escolares no sul de Minas Gerais ao integrar cultura digital e as novas linguagens aos desafios de incentivar a leitura entre crianças e adolescentes.

As tecnologias digitais transformaram a forma como nos relacionamos com a informação, e as mídias locativas, como os mapas digitais e outras ferramentas de localização, ampliaram as possibilidades de ler o mundo contemporâneo e essa nova cartografia nos permite criar colaborativamente camadas de significados para nossos territórios. Quando uma criança compreende as possibilidades dessa narrativa híbrida, passa a ter maior poder sobre seu espaço social e capacidade para transformá-lo. Assim, as ruas, o bairro e a cidade tornam-se potencialmente plataformas livres de mediação de leitura.

Com o projeto, as crianças passaram a entender a comunidade como um espaço vivo

Com a ressignificação dos mapas, as crianças passaram a entender a comunidade como um espaço vivo

Aluísio Cavalcante

O estudante de Geografia e monitor de educação integral da escola, João Paulo Ferraz, fez parte da equipe pedagógica responsável pela atividade e acompanhou esse processo de empoderamento dos alunos. Ele destacou que “o laboratório levou as crianças fazerem uma leitura da sua comunidade como um espaço vivo, do qual eles participam ativamente, resgatando assim uma relação de pertencimento e identidade cultural”. Sobre as linguagens que mediaram estas transformações, Ferraz revela, “o mapa digital permitiu uma interação: fazer o link de uma localização com um vídeo, uma fotografia ou uma história escrita, proporcionou movimento para esse mapa, trazendo vida a ele”.

Quem comprova é novamente a querida Maria Eduarda, que localizou a rua onde levou “o maior tombo de bicicleta de todos os tempos” (segundo ela mesma) e escreveu um mini conto para publicar no mapa. “Foi uma experiência única colocar a minha própria história ali dentro. Um mapa não é só um pedacinho de papel, ele é mais que isso, é uma parte da nossa vida e cada pontinho ali pode ter uma história escondida”, disse.

Mediação de leitura e ensaios cartográficos

O LAB Hiperespaços Poéticos foi desenvolvido em quatro etapas, quatro ensaios cartográficos. No primeiro, ainda no papel, os alunos identificam suas casas e desenham seus trajetos cotidianos até a escola, trazendo à tona a sensibilidade de leitura que eles fazem de seu espaço social. No segundo ensaio, enumeram locais públicos em que gostam e não gostam de estar, dando a eles novos nomes, transpondo para o mapa impresso seu desejo de transformar esses territórios.

A relação com a literatura foi aprofundada a partir do terceiro ensaio, com a mediação de leitura do livro “Viagens para lugares que nunca fui”, de Arthur Nestrovski. A atividade (baixe o plano de aula) apresenta ferramentas de cartografia digital que estimulam uma jornada por culturas de locais distantes, destacando o poder que literatura tem de nos permitir viver outras vidas.

Mapa desenhado por um dos alunos da Escola Municipal Maria Ovidia Junqueira

Mapa desenhado por um dos alunos da Escola Municipal Maria Ovidia Junqueira através do projeto BiblioArte LAB

O desafio final é o mais empolgante: utilizando o Google Maps, os alunos assinalam locais onde histórias marcantes de suas vidas aconteceram: a primeira casa, uma festa de aniversário, uma lembrança contada por seus avós. A cada um desses pontos, são anexadas caixas de textos, fotos e até mesmo vídeos (alguns desses materiais produzidos pelos próprios participantes), resultando em uma narrativa multimídia bem mais dinâmica que a convencional.

 Biblioteca inovadora

Até o final do ano de 2017 o projeto BiblioArte LAB irá promover ações como o LAB Hiperespaços Poéticos em outras doze bibliotecas públicas e escolares em Poços de Caldas. Implantado desde o início de 2016, a iniciativa tem sede na Biblioteca Municipal Centenário, um mantém uma programação anual do Laboratório Comunitário de Inovação em Prática de Leitura e Formação de Leitores.

São laboratórios, oficinas e desenvolvimento de empreendimentos experimentais de leitura e novas tecnologias que estimulam a articulação de uma rede de jovens influenciadores de leitura. O projeto já atendeu diretamente a 350 crianças e seus impactos sociais o levaram ao Prêmio ARede.EDUCA de inovação e a seleção no Programa Íbero-americano de Bibliotecas – Iberblioteca.

A Secretaria Municipal de Cultura de Poços de Caldas e o Instituto Alcoa apóiam a iniciativa, que tem ainda o patrocínio do Departamento Municipal de Energia – DME. Para mais informações, basta acessar a página do projeto no Facebook  ou o site da Casa da Árvore.