Transformar a cidade

No Brasil, festas juninas mobilizam comunidades e celebram a cultura regional

Olha gente, vou contar
Com rima que ilumina
Alegrando o pessoal
Desde o velho à menina
Vou contar no meu cordel
Sobre a festa junina
(Cesar Obeid – Cordel, repente e festa junina)

Festa de São João com Guirlanda (Anita Malfatti)

Quadrilha, comidas à base de milho, dança, música, celebração do Brasil do campo. E gente, muita gente na rua. Esses são alguns dos elementos mais típicos das festas juninas brasileiras, que ao longo dos meses de junho e julho celebram o ciclo de São João numa das festas populares mais importantes do país. Tão diversas quanto o Brasil, elas mobilizam bairros e cidades inteiras para resgatar a identidade local, celebrar as tradições e compartilhar a vida em comunidade.

Na Europa, as festas de junho celebravam a chegada do verão, favorável para a colheita ainda por vir. No Brasil, hemisfério sul, os meses de junho e julho marcam a celebração dessa colheita, especialmente do milho. É por isso que ele é o ingrediente base de muitos dos quitutes típicos dessa época, como a pamonha e o curau. Por isso também que, em cidades em que essa tradição é forte, pode não haver festa junina por conta da safra fraca do produto.

“O ciclo de São João é uma festa em que a comunidade está empoderada de sua identidade. No Brasil, desconheço uma cidade que não faça pelo menos uma fogueira e uma pipoca para celebrá-lo”, afirma o historiador popular e presidente da Comissão Paulista de Folclore, Diego Dionísio. E mais do que fogueira e pipoca, muitas cidades descobriram sua vocação junina e, nesta época, voltam-se totalmente para celebrar Santo Antônio, São João e São Pedro.

Campina Grande, na Paraíba, diz ter “o maior São João do mundo” e atrai milhares de pessoas  para a cidade durante os 30 dias de festa. A Festa Junina por lá tem artistas locais, nacionais, dança, comidas típicas, artesanato e muitas quadrilhas, que podem mobilizar até 250 pessoas de cada bairro. Pelo menos duas quadrilhas tocam todas as noites no São João da Cidade. No aeroporto? Quadrilha! Na rodoviária? Quadrilha! Na praça? Quadrilha também!

No Brasil, as Quadrilhas são parte tão importante das festas juninas que há um Movimento Quadrilheiro, com competições municipais, estaduais e nacional e transmissão na TV nos moldes das escolas de samba de Rio e São Paulo. Os estados de Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe são alguns dos mais fortes nas competições.

“As quadrilhas são formadas por pessoas comuns de diversas profissões que se juntam e, mesmo cansados, vão bater pé, ensaiar, costurar e fazer um espetáculo que não perde para nenhum artista. Por mais que as apresentações sejam em junho e julho, na verdade é um trabalho de ano inteiro”, descreve o historiador Diego Dionísio.

Há também o Concurso de Quadrilhas Juninas, que conta com 25 grupos diferentes, 13 de Campina Grande e 12 da região agreste da Paraíba. Como explica Maximino Ferreira de Lima Filho, presidente da Associação de Quadrilhas Juninas de Campina Grande, além da importância econômica para o município –  só as 13 quadrilhas da cidade movimentam cerca de R$1,3 milhão – o papel social desempenhado por esse costume tão coletivo é fundamental. “As quadrilhas são montadas pelas pessoas de cada bairro e têm um papel social importante. Nos oito ou nove meses de preparação, o jovem envolvido com ela está longe da violência e fazendo parte dessa forte manifestação de cultura local. São 3 ou 4 dias de ensaio por muitas semanas.”

Rodrigo Delfino, coordenador do Festival de Quadrilhas de Mossoró (RN), tem opinião semelhante. Para ele, a valorização e preservação da tradição regional é um aspecto importante das quadrilhas, sobretudo por ser uma cultura que atravessa todos os estados do Nordeste. Na cidade, 90 quadrilhas estão inscritas no Festival, das mais tradicionais às estilizadas, das crianças à quadrilha dos idosos.

Quadrilha de Idosos se apresenta em Mossoró

Quadrilha de Idosos se apresenta em Mossoró

Rodrigo Delfino

Nascidas nas cortes europeias, as quadrilhas chegam ao Brasil ganhando outras cores, significados e, principalmente, as ruas. “É uma festa muito democrática, assim como no Carnaval as pessoas podem se fantasiar e se divertir independente da classe social, na quadrilha o movimento é o mesmo: ela se democratiza quando encontra as ruas”, analisa o Dionísio, reforçando que nas festas juninas o que une as pessoas “é a vontade de celebrar São João”.

Apesar da origem em comum, a festa muda de cara a cada região do país, preservando ou alterando determinados aspectos e sendo um ótimo exemplo da diversidade cultural do país. Em São Luís, capital do Maranhão, os Boi Bumbás desfilam em direção à Capela de São Pedro, desenhando uma celebração mais tradicional do ciclo junino. Lá, os dias 29 e 30 de junho concentram as maiores celebrações, com São Pedro sendo o grande homenageado. No Sudeste e Nordeste, São João costuma ser o santo mais lembrado.

Fortemente ligadas à fartura da colheita e, portanto, ao Brasil rural, não quer dizer que as Festas Juninas não tenham suas expressões nas grandes cidades. O estado de São Paulo possui 12 quadrilhas-shows e há grandes quadrilhas nos bairros de Itaquera e São Miguel, zona leste da cidade de São Paulo. “Tive o privilégio de assistir a uma dessas quadrilhas que aconteciam no meio da comunidade e posso dizer como é importante o trabalho social de uma quadrilha”, defende Dionísio.

Um alerta que o historiador faz, no entanto, é para a estereotipização da figura do caipira. “Esse é um caipira inspirado no Mazzaropi, em uma propaganda do Biotônico Fontoura que estereotipava o caipira como preguiçoso, burro, o que de maneira alguma é verdade”, assinala. “Usam roupas remendadas para representar o caipira, mas no interior as pessoas põem a melhor roupa para a festa. Essa é uma visão pejorativa e nada construtiva desse período de celebração. Eu sei que vem desde as escolas, mas é preciso romper com isso”, propõe.

“Festas populares são as festas que o povo se dá” – Peter Burke, historiador inglês.

 

Maior São João do mundo

Caruaru, localizada no estado de Pernambuco, compete há décadas com Campina Grande pelo posto de maior São João do mundo. Nesta edição, apresentou uma proposta diferente, baseada na necessidade de democratizar o evento, resgatando a tradição das festas nos bairros e levando as atrações até eles. O chamado São João nas Ruas ocorre lado a lado às festas que já existiam, fornecendo apoio logístico e institucional, restaurando a noção de que é uma celebração do povo e para o povo.

A abertura deste ano aconteceu no Sítio Pau Santo, na zona rural do município, afastado cerca de 35 minutos do centro.  Foi a primeira vez que os alunos das escolas municipais Professora Maria Cândida e Nossa Senhora Aparecida puderam ver a grande festa e suas atrações – como as comidas gigantes à base de milho, fogueira e o forró – em seu território.

“Essa foi a primeira vez que a festa veio para cá, então os alunos vivenciaram muito mais essa cultura e participaram dela junto aos pais”, avalia Maria das Dores Rodrigues, gestora da Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida. Segundo a educadora, embora toda a cultura de Caruaru seja de fato voltada para a festa junina, a distância até a grande festa organizada pela prefeitura limitava o acesso das crianças a ela. A diferença foi visível: os alunos comentaram muito mais sobre a festa e demonstraram entusiasmo para trabalhar o tema na escola.

Aula de história em praça pública

Em Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, além das quadrilhas e comidas típicas, a festa junina tem um forte caráter de resgate da história e identidade da cidade. A resistência de Mossoró ao bando de Lampião é motivo de orgulho para os mossoroenses e dá o tema para a maior atração da Mossoró Cidade Junina (nome oficial das celebrações): o espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, que reúne até 150 mil pessoas (em uma cidade de cerca de 290 mil habitantes). Encenado por atores locais, a obra acontece ao lado da Igreja São Vicente, que ainda carrega as marcas de bala deixadas pelo bando de Lampião há 90 anos.

Encenação dos 4 atos em Mossoró (Divulgação Associação Cidade Viva)

Encenação dos 4 atos em Mossoró (Divulgação Associação Cidade Viva)

Divulgação Associação Cidade Viva

A Associação Cultural Cidade Viva, organização criada pelo servidor público João Wilson Leite Ribeiro com o intuito de profissionalizar atores e atrizes, aproveita os festejos juninos para encenar quatro atos históricos: O primeiro voto feminino do país (com Celina Guimarães Viana, em 1927); a expulsão do bando de Lampião (contada pela perspectiva de Maria Bonita); a libertação dos escravos (oficializada em Mossoró em 1883); e o Motim das Mulheres (quando as Mossoroenses foram às ruas protestar contra a obrigatoriedade do alistamento militar). A apresentação acontece há três anos e chegou a atrair 50 mil pessoas em 2016, quando realizada em praça pública. Como a encenação acaba? Em quadrilha!

“Quem assiste aos quatro atos vê retratado o orgulho de ser Mossoroense. É uma manifestação cultural que faz a população vibrar todos os anos, especialmente na hora da quadrilha”, relata João Wilson. “Mossoró respira cultura o ano inteiro, mas na Festa Junina a celebração é muito forte, todo mundo se mobiliza.”