Criar na cidade

Girls Rock Camp empodera meninas por meio da música

“Cheguei meio atordoada
Considerada revoltada
Finalmente encontrei meu lugar
A música nos uniu
Fortaleceu as amizades
Amizades Instantâneas
Pra mim e pra você
Mais rock por favor”
(Metal Girls – Um lugar só meu)

Uma banda de rock apresenta uma composição autoral em espetáculo aberto ao público da cidade. A plateia vai ao delírio com as guitarras pesadas, os gritos típicos de vocalistas de rock e o ritmo imposto pela bateria. O teclado dá o tom final da música composta dias atrás e cantada a todo pulmão. Seria só mais um show de rock não fosse o fato de todas as integrantes da banda serem meninas de 7 a 17 anos, em sua maioria moradoras do interior de São Paulo.

A cena descreve a apresentação de qualquer uma das bandas de garotas formadas pelo Girls Rock Camp, um acampamento que usa a arte e a música como meios para empoderar meninas. Parte de uma aliança global dos acampamentos para garotas (a Girls Rock Camp Alliance), a edição brasileira acontece em Sorocaba (SP) desde 2013, sob o comando da socióloga e educadora Flávia Biggs.

Foi durante uma turnê nos Estados Unidos no ano de 2003 que Flávia, guitarrista da banda The Biggs, cruzou pela primeira vez com o Girls Rock Camp e se apaixonou. Voltou por várias edições como voluntária da versão americana e começou a cultivar a ideia de trazer o acampamento para o Brasil, o que veio a ocorrer em 2012, graças ao apoio de amigas musicistas e da experiência adquirida com oficinas realizadas em várias cidades brasileiras.

Girls Rock Camp Brasil

Em janeiro de 2013, a primeira turma de 60 mini-roqueiras do Girls Rock Camp se encontrou com o objetivo de, em uma semana, formar uma banda e compor uma música para o espetáculo final. “No processo lúdico de produzir algo artístico, elas se percebem, olham para dentro de si e se empoderam”, afirma Flávia Biggs, hoje diretora de Projetos e Desenvolvimento da iniciativa.

As bandas são formadas já no primeiro dia, com um mapeamento das afinidades entre as meninas, sem diferenciação de idade. Elas aprendem baixo, guitarra, teclado, bateria e voz, sendo as duas últimas as demandas mais populares. “A sociedade vai criar obstáculos para elas se desenvolverem, mas elas vão perceber que podem transpor as dificuldades e confiar umas nas outras”, avalia Flávia, ressaltando a diversidade e o diálogo como valores fundamentais para a formação das meninas enquanto cidadãs.

Inscrições

O sucesso da iniciativa tem se revelado no aumento das inscrições: na primeira edição, 60 meninas participaram, preenchendo as vagas em 3 meses. Na edição de 2017, foram necessárias somente três horas para preencher as 90 vagas disponíveis.

A edição de 2018 do Girls Rock Camp abrirá as inscrições no dia 11 de outubro, Dia Internacional das Meninas. A semana de imersão custa R$250,00 com todos os materiais inclusos e há vagas para bolsistas. Saiba mais no site do projeto.

O projeto tem ainda encontros sobre defesa pessoal, história das mulheres no rock e expressão corporal, realizados por instrutoras que atuam como voluntárias. A ideia é fortalecer a relação entre as mulheres, estabelecer laços de confiança e promover bons exemplos.

Na opinião de Flávia, “rock aqui não é necessariamente o ritmo que elas compõem. É a expressão de atitude, é contracultura, é fazer diferente.”

Com duração de uma semana, o Girls Rock Camp contribui para elevar a auto-confiança das meninas e unir as participantes, criando vínculos a partir das experiências vividas. “É mais do que a música em si. É o processo de, junto a outras pessoas, desenvolver um projeto e ter sucesso nele.”

E, engana-se quem pensa que a diferença de idade entre as integrantes da banda pode ser um obstáculo. Na verdade, as adolescentes tendem a cuidar das mais novas que, por sua vez, veem nas mais velhas pessoas a quem podem recorrer e ter como referência. É o caso de Sthefani Caroline, 17 anos, participante das edições de 2015, 2016 e 2017, para quem a convivência com meninas de todas as idades foi um grande diferencial.

Apaixonada por música, Sthefani não pensava em fazer disso sua profissão. Foi no acampamento, entretanto, que recebeu forte incentivo para seguir com a empreitada que hoje a faz querer ser artista profissional. Segundo a estudante, que também integra as bandas “Filhos de Marte” e “Eugênio”, “no Rock Camp você ensina e aprende ao mesmo tempo, há uma troca de experiências que agrega muito”.

Para romper com os padrões estabelecidos desde cedo, o acampamento inspira o “Girl Power” em todos os aspectos: aulas, professoras, decorações, tudo está ali para dizer que as meninas são capazes de conquistar o que sonham. Mensagem que ecoa nas letras compostas pelas garotas, como a estrofe que abre esta reportagem, composta pela banda Metal Girls, da turma de 2013 do Girls Rock Camp:

Desdobramentos

À medida que a versão infantil do acampamento passou a ser reconhecida, as mulheres adultas – muitas delas mães das garotas do Girls Rock Camp – comentavam que gostariam de ter tido experiência semelhante no passado. Em 2015, o problema foi resolvido: o projeto ganhou uma versão exclusiva para mulheres com mais de 21 anos, o ”Ladies Camp”. Para quem atravessa as imersões e decide dar continuidade aos estudos, a “Escola Livre” oferece aulas de música o ano inteiro.