Criar na cidade

PoemApp, o aplicativo que mapeia pontos de poesia pelo Brasil

Lugar de poesia não é só nos livros e na academia, mas nas ruas e nas cidades. É o que defende a poetisa e publicitária brasiliense Marina Mara, idealizadora do PoemApp, plataforma que mapeia os pontos de poesia e os artistas da palavra de todo o Brasil. Organizado em um site e um aplicativo,  o objetivo do projeto é mostrar que a poesia integra a vida e não precisa estar confinada a determinados espaços.

“Escrevo para romper represas
Aprendi a enaltecer minha cor
E hoje são pretos os meus caminhos”
Louise Queiroz, poetisa de Salvador

“É importante que as pessoas saibam que não é preciso ir a grandes centros para ter acesso a arte de qualidade. Na rua é possível ter diversão gratuita, acessível e com a mesma qualidade lírica que imaginamos só existir em alguns poucos espaços”, afirma Marina,  que cita os saraus e batalhas de rap como importantes expressões poéticas da atualidade.

Marina é uma antiga defensora da democratização da poesia. Em 2009, lançou o “Sarau Sanitário”, que espalhou mil cartazes com poesia pelo Distrito Federal. “Há anos ministro cursos sobre escrita criativa pelo Brasil e sentia falta de, ao chegar em uma cidade, saber quem era o escritor local ou onde aconteciam os saraus”, narra ela, explicando de onde surgiu a ideia de criar um aplicativo de cartografia literária.

Na opinião de Marina, a relação das pessoas com a poesia está mudando para melhor, sendo, por exemplo, crescente a compra de livros do gênero. “Há uma noção maior de que a poesia pode ser incorporada ao dia a dia, o que me deixa feliz porque combate a noção de que essa é uma arte antiga, sem conexão com os dias atuais.”

Usar o PoemApp é simples: o aplicativo é gratuito para sistema Android e funciona por geolocalização, indicando os pontos de poesia mais próximos do usuário naquele momento.  Para cadastrar um novo ponto ou poeta, basta criar uma conta, preencher algumas informações básicas e a informação adicionada passa a integrar a base de dados do aplicativo.

O mapeamento também pode ser acessado por meio do site do projeto, que permite buscas personalizadas entre os mais de 10 mil pontos cadastrados, que dividem-se entre eventos, poetas ou locais em que é possível acessar poesia.

Loa pra um domingo

saudade dizem que voa
só podia mesmo voar
se não voasse saudade
ninguém queria se encontrar

carinho é peixe que nada
no lago sereno da gente
se não nadasse carinho
o triste não virava contente

memória é cadeira de palha
onde avó depois do almoço descansa
uma criança admirando uma árvore
sem saber que na árvore
vai guardar um pedaço da sua infância

Elizeu Braga, escritor rondoniense, nascido na comunidade Tacoã, na região do baixo Madeira 

Destacam-se os acervos de bibliotecas públicas, saraus comunitários e artistas locais, como Louise Queiroz e Eliseu Braga, cujas palavras foram emprestadas nesta reportagem. Mas há também refúgios menos óbvios, como o acervo pessoal de um padre disponibilizado em sua paróquia e até mesmo casas de leitura no arquipélago de Fernando de Noronha.

Em Brasília, onde vive Marina, há mais de 300 pontos cadastrados, muitos dos quais eram desconhecidos até para ela antes da criação do aplicativo.

“O sucesso do PoemApp não é o sucesso de um projeto meu, mas sim a comprovação de que a poesia está viva, a cena está fortíssima e as pessoas querem sim ter poesia em suas vidas”, defende ela. O aplicativo teve mais de mil downloads na primeira semana.

O PoemApp é objeto de estudo do mestrado em arte e tecnologia de Marina na Universidade de Brasília (UnB), onde o app foi desenvolvido pela equipe do MediaLab, sob coordenação de Suzete Venturelli. O sonho agora é expandir o PoemApp: o aplicativo para iOS e a área de abrangência para todos os países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). “É preciso que nos reconheçamos a partir da língua. O desejo existe e a plataforma também, só é preciso apoio e organização.”