Transformar a cidade

Kunumi MC, o rapper indígena que usa a rima para a resistência

Texto publicado originalmente na Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil 

Aos 16 anos, Werá Jeguaka Mirim, da etnia guarani, descobriu no rap uma forma de resistência e de luta pela demarcação e preservação do futuro dos povos tradicionais. Quando rima, ele é Kunumi MC, que usa a língua ‘do homem branco’ para comunicar além de sua Aldeia Krukutu, na divisa esverdeada entre Parelheiros e São Bernardo do Campo.

Werá Jeguaka lê seus escritos na presença do pai.

Werá Jeguaka lê seus escritos na presença do pai.

Cecilia Garcia / Rede Peteca

Werá Jeguaka Mirim tem a testa franzida sob os cabelos levemente oxigenados. Nas mãos está o livro 500 anos de Angústia, escrito por seu pai, Olívio Jekupé. Ele está concentrado, mas tira os olhos das páginas para avisar: “Se eu ler uma vez um texto, já decoro e consigo repetir em voz alta”. Quando começa a declamar, ele é o Kunumi MC: com a voz assobiada, muito mais solta quando fala em guarani, o rapper aponta para a câmera da repórter ao se referir ao homem branco e olha para as matas ciliares que cercam sua casa quando discorre sobre as terras usurpadas no processo de colonização. “Com a chegada dos portugueses, nosso povo entrou numa grande enrascada”.

Os cerca de 300 habitantes da Aldeia Krukutu moram em casas de alvenaria simples, que destoam dos dois prédios públicos do local – o CECI (Centro de Educação e Cultura Indígena), escola bilíngue mantida pela subprefeitura, e também uma UBS (Unidade Básica de Saúde), onde cães abandonados bocejam na porta e mulheres morenas amamentam crianças.

Para chegar onde Werá mora, é preciso percorrer uma curta trilha. Há algumas casas no terreno que divide com sua esposa, o filho de três meses, os pais e os irmãos. Uma delas, verde, foi reservada para os muitos livros que ele, o pai e o irmão Tupã já publicaram.

Com 16 anos – o que em guarani já é uma idade adulta – Werá já tem dois livros publicados. Escreveu Contos do Curumim Guarani, aos nove anos. Em 2015, lançou Kunumi Guarani, que assina sozinho. A palavra em português, herdada dos ensinamentos do pai também escritor, serve nos livros para falar do cotidiano indígena, da natureza e dos costumes.

Ela ganha outro recorte quando Werá decide aliá-la ao rap, seu estilo musical favorito: uma vez ferramenta de dominação linguística dos portugueses quando chegaram ao Brasil, ela se torna um meio de comunicação para falar da luta por demarcação e preservação do futuro de povos tradicionais.

A língua como forma de resistência

Werá exibe livro escrito pelo pai, que fala da opressão sofrida pela população indígena no Brasil.

Werá exibe livro escrito pelo pai, que fala da opressão sofrida pela população indígena no Brasil.

Cecilia Garcia/Rede Peteca

Se na casa tem cachimbo petingua – típico dos guaranis – oralidade, também tem palavra escrita. Olívio sempre fez questão que seus filhos estudassem para aprender a ler e escrever em português, o que também não foi difícil, visto que os meninos ficavam curiosos sobre o tempo em que o pai imergia nos livros.

“Índios são contadores de história, ou seja, eles sempre são escritores, mesmo que não saibam ler ou escrever. Minha esposa não sabe, mas a chame para contar uma história, ela tem tudo guardado na cabeça. Isso é um dom, um dom maravilhoso”, conta Olívio, com a boca no fumo que ele passa e recebe de Werá.

Ainda que haja divergências sobre quantas línguas indígenas ainda são faladas no Brasil – seriam 182, segundo estudo da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – não há dúvidas que os falantes estão em franca diminuição, tanto pelo massacre dessas populações tradicionais, caso dos Guarani-Kaiwoá, dizimados em conflitos de terras com latifundiários, quanto pela adoção do português como língua.

Para Olívio, que já publicou nove livros tanto em português quanto em guarani, é importante utilizar o domínio já inevitável da língua ‘de branco’ como forma de subversão contra a colonização linguística e anulação de cultura. “O índio tem que escrever. Se a gente não escrever, outros vão escrever para nós, que é o que está acontecendo nos mais de 500 anos de história indígena”.

A Werá, encanta a noção de imortalidade da literatura, de que o livro sobrevive ao autor, mantendo vivas suas ideias. “Nosso conhecimento está nas histórias, e é importante que as crianças e jovens tenham acesso a livros do nosso povo, principalmente agora que a cidade se aproxima tanto da aldeia”.

A escrita também cumpre um papel importante na manutenção dos costumes indígenas e de práticas geralmente perdidas quando a juventude indígena começa a estudar em escolas e frequentar espaços fora da aldeia. O pai, Olívio, complementa: “São conhecimentos muito difíceis de se ensinar depois de mais velho. Que indígena que conheceu o shopping vai querer saber de caçar, montar armadilha ou fumar cachimbo?”.

Enquanto escrevia seus livros, Werá percebeu que o ritmo, a cadência e as rimas dos versos lembravam o rap, estilo musical do qual é muito fã. Nasceu então da musicalização de sua literatura o Kunumi MC.

O rap como ferramenta para atrair jovens à luta indígena

Rap indígena
E o meu povo me inspira
Fumando petingua, encontramos bom lugar
Rimando, a rima consciente
Somos “o cara que defende” é

Nego, o Kunumi chegou
Tentando demarcar e é zika para lutar
Nego, o Kunumi chegou
Tentando demarcar e salvar o nosso estar

Posso fazer um rap
Cantando
Rimando
Pedindo
Pela demarcação

(Trecho da música O Kunumi Chegou)

Entre cada batida, uma mensagem de resistência e esperança. O Kunumi MC versa tanto sobre os problemas dos guaranis em São Paulo, que segundo ele sofrem com a invasão dos costumes da cidade e a dificuldades de estudar e converter esse conhecimento em benefício da própria comunidade, como também sobre o massacre escancarado nas terras sul mato-grossenses dos Guaranis-Kaiowá.

Quando os visitou, compartilhou com eles o fumo e conheceu suas lutas, Werá teve mais certeza ainda que queria concentrar a política de seu rap na importância da demarcação, não somente como um fator de reconhecimento territorial, mas como política pública fundamental para garantir a sobrevivência das mais de 300 etnias indígenas brasileiras.

“Não fui eu que escolhi o rap, ele que me escolheu. Ele é a cultura da defesa, e quando percebi, todas as minhas rimas eram de resistência”, conta o MC. Foi ouvindo outros rappers, até mesmo alguns indígenas, que ele vislumbrou a possibilidade de seguir uma carreira como compositor e cantor.

Se na literatura ele se comunica com as crianças, da mesma maneira que os livros de seu pai conversaram e incitaram sua curiosidade quando ele próprio era um curumim, Werá acredita que o estilo musical e a linguagem mais atrativa do rap pode fazer com que outros jovens também se interessem pela militância de povos tradicionais.

“O rap para mim é uma tecnologia, uma ferramenta que eu uso para me manifestar. Mas, diferente de mim, muitos jovens indígenas não são incentivados a reconhecer seus talentos. Eles sabem escrever e ler, sabem fazer artesanato e desenhar, mas ainda não sabem usar esses dons para falar sobre os seus direitos.  E é com eles que eu quero conversar na minha música”, conclui Werá.

Com apresentações musicais marcadas para ocorrer em São Paulo, um documentário lançado e um clipe com mais de 80 mil visualizações, tanto Werá quanto seu pai esperam alcançar o maior número possível de indígenas e brancos sobre a causa de demarcação indígena, sendo responsáveis por um conteúdo nativo, produzido e consumido por eles.

Protesto na Copa

No vestiário da Arena Corinthians, em São Paulo, Werá estava ansioso, incomodado com a faixa escondida no calção. Em 2014, e ele foi convidado com duas crianças a lançar uma pomba no ar na abertura da Copa do Mundo, simbolizando a paz. Mas a paz, para qualquer indígena brasileiro, é ainda muito distante.

Uma das lideranças indígenas teve então a ideia de aproveitar o momento de exposição para fazer um ato simbólico: Werá iria erguer uma faixa vermelha com a palavra Demarcação. Para fazer isso, ele tinha que driblar o escrutínio de uma equipe de produção preocupada com qualquer repercussão negativa. Antes de entrar no gramado, ele escondeu a faixa na cueca.

Werá conseguiu desdobrar a faixa vermelha no campo. Emissoras cortaram as câmeras na hora, mas não puderam impedir que milhares de torcedores tirassem foto e popularizassem o ato de resistência, que ganhou repercussão mundial.

“Com apenas 13 anos, ele fez uma coisa que eu nunca tive coragem de fazer. Um ato por toda a população indígena”, conta orgulhoso Olívio.