Aprender na cidade

Em Belém, cultura tece caminhos para uma Cidade Educadora

Terra do Carimbó, da aparelhagem e do Círio de Nazaré, Belém foi palco de importantes momentos da história do Brasil. Viu nascer a Cabanagem, revolta popular contra o Império, e ostentou o luxo e a riqueza trazidos pelo ciclo da borracha – época que rendeu-lhe o título de Paris n’América por seu urbanismo higienista e descaso social.

Cenário de muitos outros acontecimentos e manifestações culturais, a capital paraense foi fundada em 1616 às margens da Baía do Guajará, na região amazônica, e é tão diversa quanto o povo que a habita.

Belém é também a cidade de Camila, Edvaldo, Luciana e Michel, paraenses convidados pelo Portal Aprendiz a apresentar – a partir de distintas linguagens – o lugar onde vivem. Aos nossos leitores, criamos um roteiro histórico e cultural organizado pelo Projeto Circular, uma iniciativa que tem como objetivo ampliar o uso e ocupação das estruturas e edificações do Centro Histórico de Belém.

O circuito pode ser percorrido ao som de uma playlist criada pelo MúsicaParaense.Org, organização fundada em 1998 para pesquisar, mapear e catalogar a musicografia paraense, a fim de difundi-la. Para completar a experiência belenense, o historiador Michel Pinho nos introduz ao Círio de Nazaré, manifestação que acontece na cidade desde o século 17 e atrai até dois milhões de pessoas em celebração de sua fé.

Lembramos, no entanto, que essa lista apresenta recortes da cidade, constituindo-se como ponto de partida de uma experiência que se completa na rua.

Camila Barros e Edvaldo Souza, do Música ParaenseCidade Cantada

Por Camila Barros e Edvaldo Souza, do Música Paraense

MúsicaParaense.Org preparou uma playlist que passeia pela sonoridade plural do estado do Pará. Rock, carimbó, guitarrada, pop e outros gêneros mostram toda potencialidade e conexão da música produzida no Norte do país.

Quem abre a sequência é o Espoleta Blues, um projeto da pesada formado por pais e filhos que curtem rock e incentivam o público infantil (e adulto também) a fazer cultura.

O Pará abraçou a música de alguns artistas. Nascida em Xapuri, no Acre, Nazaré Pereira escolheu Belém para viver. Hoje, ela é considerada uma das rainhas da música regional. Outro nome é o da recifense Gina Lobrista, que ganhou visibilidade cantando e vendendo seu disco na maior feira da América Latina: o Ver-o-Peso. Gina se diz pernambucana de nascimento e paraense de alma.

Dona Onete é um oráculo da sabedoria. Diva do Carimbó chamegado, a professora de Igarapé-Miri, no interior do estado, circula com sua música e carisma país afora. Vieira, Aldo Sena, Curica e João Gonçalves são os mestres de um estilo criado e reconhecido como genuinamente nortista: a guitarrada. Pio Lobato, Lucas Estrela e Félix Robatto são seus aprendizes e seguidores, mantendo viva a tradição.

A cena paraense se renova a cada instante. Joelma Klaudia, Camila Honda e Zara são alguns dos novos nomes que precisam ser ouvidos. Combo Cordeiro é a relação familiar entre pai e filho. Felipe é o responsável pelo resgate da carreira do pai. Manoel é referência por ser um dos mais ativos e inventivos produtores musicais do Brasil.

Amado e odiado na mesma proporção, Pinduca é a maior referência viva do Carimbó no meio musical nacional. O Pavulagem faz há 30 anos, sem parar, a maior manifestação popular e cultural do Norte. Geram laços profundos nas pessoas que fazem parte do movimento como um todo. A paraense Luê tem suas raízes no grupo, já que seu pai, Junior Soares, é um dos idealizadores do projeto.

Aíla e Keila Monteiro são as mulheres mais militantes no rock e pop paraense, assumindo ares panfletários e líricos ao mesmo tempo. José Maria Bezerra é professor de Música. No mundo acadêmico tem fortes laços com a música interiorana, bem como importantes artigos publicados sobre a música da região.

Outra característica da música paraense são as conexões sonoras. É o caso de Sammliz, que tem canção gravada com Nazaré Pereira e Joelma Kláudia com Bruno B.O. – o primeiro MC doutor em rap/ hip hop do Brasil. Juntos, eles regravaram “A Conquista”, clássico do Brega paraense composto por Wanderley Andrade.

12184222_720131858019050_8404900868407832770_oDescubra o Centro Histórico
Luciana Medeiros, do Projeto Circular

O passeio pelo centro histórico de Belém pode ficar mais interessante quando é domingo de Circular, isto é, quando os bairros da Campina, Reduto e Cidade Velha recebem uma variada programação de arte e cultura. Além de valorizar a área histórica da cidade, a apropriação e utilização das estruturas e edificações ali existentes, a proposta do Circular é estimular a criação e fortalecimento de negócios culturais e associados.

Em 2017, a 19ª edição do Projeto Circular acontece no dia 1o de outubro, uma semana antes do Círio de Nazaré.

As ruas que originaram a cidade foram traçadas na primeira metade do século 17 e configuram parte dos bairros Campina e Cidade Velha. Andar pela região significa cruzar com vários monumentos e casarios tombados que compõem o Centro Histórico, hoje caracterizado pela presença de lojas populares.

A partir do final dos anos 90, o bairro da Campina passou a ser residência de diversos artistas locais e de instituições que promoviam atividades culturais. Também é nessa região que passa a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

Michel PinhoFesta do calor, do sabor e da fé
Por Michel Pinho, historiador

Belém é uma eterna transformação. Da chuva, do calor, do fluxo das marés, do vai e vem do porto. Belém é a terra do calor. Mas em outubro costumamos dizer que há o calor humano. Um calor de mais de um milhão de pessoas nas ruas, festejando, rindo, chorando, agradecendo a Padroeira dos paraenses, Nossa Senhora de Nazaré.

Devoção antiga, vinda nas naus portuguesas do século 17. Devoção do catolicismo popular, da crença na corda puxada por milhares de fiéis que atrelada à berlinda que leva a santa, também leva a prece para os céus. Festa dos olhos em ver os brinquedos de miriti, festa do paladar em saborear o indígena pato no tucupi e o português bacalhau.

O círio é festa do calor, do sabor e da fé. Para entender um pouco dessa devoção e da sonoridade, assista Mãos de outubro, do premiado Vitor Lima. Uma narrativa poética sobre o que transcende da festa de devoção e suas práticas.

Para entender um pouco a procissão – pois há tanto de tudo e só é possível entender uma parte -, recomendo a leitura do livro de contos Carro dos Milagres, do Benedito Monteiro. O livro é facilmente achado em livrarias online e, apesar dos seus mais de 40 anos de publicação, permanece atual. Como a fé do caboclo da amazônia que vai levar a sua promessa, a multidão, o aperto e muito da nossa peculiar forma de comunicação. A leitura é paidégua, como se diz aqui por essas bandas. Aliás, paidégua, significa muito bom. Boa leitura!