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Para paulistanos, opções de mobilidade urbana pioraram em 2017

Para a maioria das pessoas residentes em São Paulo, tudo o que diz respeito ao transporte e a locomoção dentro da cidade piorou em 2017. É o que revela a 11ª edição da Pesquisa de Mobilidade Urbana, encomendada pela Rede Nossa São Paulo e pela Cidade dos Sonhos em parceria com o Ibope Inteligência.

A pesquisa, realizada entre os dias 27 de agosto e 11 de setembro com moradores de todas as regiões do município, aferiu uma insatisfação generalizada com os serviços de mobilidade, contrariando os relatos de melhora que prevaleceram nos últimos anos.

As médias de satisfação caíram em praticamente todos os meios e itens avaliados. Nenhum deles obteve a nota média 5,5 na escala que ia de 1 a 10, sendo trânsito (2,7), controle da poluição do ar (2,8) e qualidade das calçadas (3,0) os fatores mais criticados.

Precarização do transporte público

A pesquisa confirmou que a má qualidade dos serviços de transporte público é o principal fator que impede a população de substituir o carro. Entre os entrevistados que relataram utilizar o automóvel como principal meio de deslocamento, uma significativa maioria (80%) demonstrou estar disposta a fazer a troca, mas disse que para isso questões como preço da tarifa e lotação dos veículos precisariam ser resolvidas.

Para Flávio Siqueira, da ONG Cidade dos Sonhos, o desejo não concretizado de migrar para o transporte público mostra que as gestões têm sido ineficazes em oferecer alternativas ao carro. Um exemplo é a ausência de novas faixas e corredores exclusivos para ônibus no atual Plano de Metas da Cidade. “A população mostra que quer usar mais o transporte público. É preciso fazer dele uma prioridade”, enfatiza o ativista.

Ônibus: vantagens e desvantagens

De acordo com o levantamento, o ônibus municipal é o meio de transporte mais comum na cidade e também o mais utilizado (cerca de 4 em cada 10 usuários fazem uso desse tipo de veículo por 5 ou mais dias da semana). Entre os motivos mais citados para seu uso estão a economia proporcionada pelo Bilhete Único e os corredores e faixas exclusivas.

No entanto, apesar dessas praticidades, a população considerou os ônibus superlotados e caros. Em relação a 2016, a percepção é de que estão mais vagarosos na locomoção, com maior tempo de espera para chegar e menos confortáveis.

As mulheres também relataram ter medo de sofrer violência sexual dentro desse  transporte, sendo esta a variável mais mal avaliada pela população. Vale ressaltar que a pesquisa foi realizada no momento em que diversas denúncias de casos de assédio em ônibus ocorreram pela cidade.

Outro dado alarmante trazido pela Pesquisa de Mobilidade Urbana é a relação entre o valor das tarifas de ônibus e o pleno exercício dos direitos por parte da população. Isso porque mais da metade da amostra declarou já ter deixado de visitar amigos, familiares ou de realizar atividades culturais e de lazer devido ao preço do bilhete. Além disso, cerca de 40% dos entrevistados afirmaram ter faltado à consultas e exames pelo mesmo motivo.

Flávio Siqueira, da Cidade dos Sonhos, classificou o índice como “inaceitável”. A impossibilidade de realizar  atividades cotidianas por conta do preço acaba afetando aqueles que mais precisam: jovens, moradores de regiões mais afastadas e com menor renda familiar mensal.

Bicicletas e ciclofaixas

Depois dos ônibus, que fazem parte da rotina de 47% dos entrevistados, os meios de transporte mais utilizados são o carro (22%), metrô (13%), a pé (8%) e trem (4%).

Apenas cerca de 1% das pessoas se locomovem por meio de bicicletas. Entre os motivos para a baixa aderência, aparece o temor pela segurança, já que os dados mostram que os paulistanos se sentem vulneráveis ao pedalar, relatando medos que vão desde furtos e roubos até os acidentes de trânsito. Ainda nesse escopo, outra justificativa para não utilizar o meio foi a ausência de ciclovias e ciclofaixas ao longo de todo trajeto.

em debate, especialistas discutem desafios da mobilidade a pé

Propostas para o futuro

Jorge Abrahão, coordenador geral da Rede Nossa São Paulo, destacou que a população vive um momento de valorização do transporte público e de sua importância, e que este levantamento pode guiar novas políticas públicas, já que sua divulgação acontece próxima ao lançamento do edital de licitação dos ônibus.

Algumas das discussões em curso, como as privatizações e a extinção dos cobradores já foram abordadas na pesquisa. A proposta da atual gestão de realizar a concessão do Bilhete Único para a iniciativa privada é reprovada por 61% dos entrevistados. Também é significativa a parcela dos que preferem a manutenção dos cobradores nos ônibus (75%).

Para Márcia Cavallari, do Ibope Inteligência, a explicação está relacionada à segurança dentro do ônibus e ao receio que a medida aumente o desemprego. No entanto, não há perguntas específicas sobre os motivos que levam os usuários a defender os cobradores.

Um dado interessante extraído pela Pesquisa de Mobilidade Urbana de 2017 diz respeito ao aumento da velocidade nas marginais, promessa de campanha do atual prefeito João Doria. A população mostra-se favorável à medida (56%), mas acredita que esta contribuirá para os acidentes de trânsito envolvendo motoristas e motociclistas, atropelamento de pedestres e ciclistas e para as mortes no trânsito. Na opinião dos realizadores da pesquisa, estes dados são importantes para atestar a complexidade da locomoção em São Paulo e mostrar que não há saídas fáceis.

A pesquisa de Mobilidade Urbana pode ser conferida na íntegra neste link.