Pensar a cidade

O corpo nu, a criança e o mundo: censuras e pode-não-podes no universo infantil

Por Renata Penzani

São Paulo. Setembro de 2017. A mostra “35˚ Panorama da Arte Brasileira” apresenta a uma plateia convidada a arte performática do coreógrafo Wagner Shwartz durante um evento fechado no Museu de Arte Moderna (MAM). A performance “La Bête” (se estiver curioso, espia aqui) é inspirada em “Bichos”, obra interativa de Lygia Clark – referência que o espectador pode ou não ter, e está tudo bem – que brinca com a noção de articulação e desarticulação de um corpo que pode ser mexido e transformado por quem vê.

Renata Penzani é jornalista, repórter do Catraquinha, pesquisadora de literatura para a infância e autora do site Garimpo Miúdo.

Dentre o público presente, uma criança, acompanhada de sua mãe. Em um dado momento da performance, em que o artista se movimenta, completamente nu, por um tablado de madeira, a criança se aproxima, toca os pés e a canela do artista (que, ali, está na posição de obra de arte) e volta para o seu lugar.

O que aconteceu depois foi uma sucessão de interpretações – quase sempre desconsiderando o contexto. Artista acusado de pedofilia, mãe acusada de subversão de menor, MAM acusado apologia à pornografia infantil, e de se fazer cúmplice dos dois anteriores.  As redes sociais são tomadas de manifestações de ódio, MBL associando o acontecido a uma suposta diluição da família orquestrada pela esquerda política, e protestos em frente ao museu movidos a hinos de “Viva a Polícia, Viva o Exército”, que terminou com jornalistas agredidos fisicamente.

O que isso tem a ver com a literatura feita para crianças e jovens? Fundamentalmente, tudo.

Que existam, em determinados produtos para a infância, classificações indicativas, é legítimo e devem sim ser problematizadas – considerando, claro, de que “produto” estamos falando. Porém, a maior parte das manifestações de repúdio à performance de Shwartz contêm um germe de caráter moralizante que motivou o nascimento da literatura infantil no Ocidente: crianças não precisam pensar, mas sim obedecer.

Se à arte em geral são imputadas tentativas tantas vezes bem-sucedidas de tolher o pensamento, quando falamos de obras pensadas para a infância – e aqui se inclui a literatura – estas ficam ainda mais suscetíveis a esse tipo de censura. Afinal, na visão do adulto detentor das tais verdades absolutas, à criança cabe somente a pureza. Ou seja, cabe a elas conhecer as coisas como elas são, e não como poderiam ser. Quando, na verdade, a grande pergunta aqui poderia ser: como a criança percebe aquilo que o adulto as proíbe de ver? Como ela reage a um corpo nu? Que códigos ela ativa para compreender o que é obsceno, imoral, indecente?

Acima de tudo, precisamos refletir: de que criança estamos falando? Daquela que depende do adulto para decodificar todo e qualquer detalhe do mundo, ou daquela que é plenamente dona de suas capacidades intelectuais, mesmo as mais incipientes?

Enquanto falava para os alunos da pós-graduação “O livro para a infância: textos, imagens, materialidades”, d’A Casa Tombada, o ilustrador e escritor Renato Moriconi disse que “respostas prontas são um cerceamento da liberdade de pensamento”; são, portanto, censura. Parece óbvio, não é mesmo? Mas pensemos por uns instantes no que isso significa.

Todas as formas de totalitarismo, mesmo aquelas bem disfarçadas, estão alicerçadas pela certeza de que uma verdade é uma verdade. Só existe uma, e, portanto, não é preciso pensar em nada para além dela. Simples assim.

Quando nos deparamos com uma história, um livro, um espetáculo, uma música, ou qualquer outra manifestação que entendemos como arte, algo nos provoca, faz cócegas no pensamento. “O que estou vendo?”. Perguntas “Será que estou entendendo isso certo?” nos tomam com força total nesses momentos, porque a lógica do pensamento ocidental foi disciplinada para entender as coisas a partir da perspectiva do “certo” e “errado”. A surpresa é descobrir que não existe só um de nenhum dos dois. As possibilidades é que contam, e elas só acontecem por via das perguntas, e não das certezas.

Aqui e ali, temos notícias de livros infantis proibidos porque ferem um ou outro (ou todos, com sorte) pilar da moral e dos bons costumes. Na França, nos Estados Unidos, no Brasil. É nesse contexto de cerceamento da liberdade de pensar que livros sobre gênero, sexualidade, diversidade – como a série de Thierry Lenain, editados por aqui pela Companhia das Letrinhas – são automaticamente rotulados como aquilo que parece ser a emergência de uma novíssima classificação literária: a “ideologia de gênero” – expressão que, vale ressaltar, não é reconhecido pela Psicologia.

Hanna Arendt dizia que o que configura o pensamento não é o conhecimento, mas a capacidade de distinguir o mal e o bem, o feio e o belo. Pensamos verdadeiramente sempre que passeamos entre um e outro. Quer lugar em que isso acontece com maior força do que em uma história de ficção? Repelimos ou acolhemos um personagem precisamente pelo que existe (ou inexiste) nele de nossas próprias referências de mundo. A ficção é fundamentalmente o lugar de encontro com o Outro. Encontro que também pode estar aqui com letra maiúscula, porque transforma e transporta quem lê para outros e novos lugares de ser e estar no mundo.

Por isso é que precisamos – cada vez mais – das histórias. Histórias de todos os tipos, cores, gêneros, crenças. Livros que rompam com o horizonte de expectativa do leitor e não rebaixem, mas ampliem o repertório cultural, ético, político e social de quem lê. Afinal, se nosso cérebro está programado para acomodar as novas informações que chegam de acordo com nossas referências internas, precisamos provocá-los constantemente com outras e desconhecidas formas de atribuir sentido.

Para a nossa sorte, a arte como linguagem resiste, e, mesmo aos tropeços e esbarrões, continua mostrando que o ser humano (seja ele de que tamanho for) é aquele que ousa ser capaz de ver nas coisas outras coisas. Tudo aquilo que está no mundo, está para ser visto de muitos pontos de vista diferentes. Assim como “La Bête” ou “Bichos”, livros também preveem interação. Sem o leitor, a leitura simplesmente não acontece, e cabe somente a ele escolher como vai “mexer”, articular ou desarticular as peças daquela história. Um corpo não tem um formato só, tem muitos.

Eis a beleza maior da arte: dar a pensar. E, consequentemente, dar voltas nas certezas até descobrir suas falhas e imperfeições. Porque se algo está fechado em si mesmo a ponto de ser considerado “pronto”, não precisa mesmo de ninguém para olhar, não é mesmo?