Aprender na cidade

Beatriz Cardoso: É preciso criar condições para que as crianças avancem e aprendam

Toda criança pode aprender e todo adulto pode educar. Esse é o lema do Laboratório da Educação, organização não governamental que, desde 2013, busca sensibilizar os adultos sobre seu papel nos processos de aprendizagem das crianças. Para atingir esse fim, o Laboratório promove formações, realiza e fomenta pesquisa científica e disponibiliza diversas plataformas com foco no desenvolvimento da linguagem, outra importante agenda do Laboratório.

Beatriz Cardoso, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (FE-USP) e presidente do Laboratório da Educação, conversou com o Portal Aprendiz sobre como as crianças são vistas atualmente, a importância das interações qualificadas entre adultos e crianças e sobre o papel do território na construção das múltiplas aprendizagens. Confira:

Beatriz Cardoso é a Fundadora e presidente do Laboratório da Educação

Portal Aprendiz: Por que o Laboratório de Educação assume a agenda que “Toda Criança pode Aprender?”

Beatriz Cardoso integra os conselhos da AlfaSol e do Instituto Desiderata. Foi membro do Clinton Global Initiative e participa de fóruns internacionais, como o Skoll World Forum on Social Entrepreneurship e think-tanks organizados pela Universidade de Harvard. Em 2013, Beatriz Cardoso foi fellow no Advanced Leadership Initiative, da Universidade de Harvard e, em 2014, foi nomeada Senior Ashoka Fellow. Desde 2016, é também diretora da Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Beatriz Cardoso: O Laboratório da Educação é formado por um time com muita experiência em educação e leva vários conceitos em consideração. Embora sejamos uma equipe com tradição associada à “dentro” da escola, quisemos criar uma instituição que  não se restringisse a isso, porque os problemas da Educação não serão resolvidos em um único lugar e sim quando entendermos que há vários contextos articulados.

A Bandeira do “Toda Criança Pode Aprender” traduz, de maneira direta, um conceito que no fundo deve estar por trás de qualquer ação educacional. Um dos muitos problemas encontrados em nosso contexto é que há uma descrença no potencial da criança. E nós entendemos que toda criança pode aprender e que todo adulto educa.

Portal Aprendiz: Como assim há uma descrença no potencial da criança?

Beatriz Cardoso: Muitas vezes o sistema formal “entrega os pontos”, como se algumas crianças fossem um caso perdido. Mas isso não é verdade, toda criança tem jeito. Falo aqui “jeito” em relação a elas mesmas, porque nem todos vão chegar a um mesmo ponto, mas todas as crianças têm que estar num processo contínuo de aprendizagem. Nossa ênfase não é no ensino em si, e sim na aprendizagem. Defendemos que é preciso criar condições para que as crianças avancem e aprendam em relação ao seu ponto de partida.

 Portal Aprendiz: Como os adultos podem influenciar positivamente essas aprendizagens?

Beatriz Cardoso:  Todos os adultos, e não só os “especializados” como os professores,  podem educar.  A interação é fundamental no processo de aprendizagem e, por isso, todos os que interagem com as crianças têm um papel relevante. É claro que cada contexto tem sua natureza e a responsabilidade frente a criança varia (não se exige dos tios a mesma coisa que se exige do pai e da mãe), mas todos são responsáveis pelo desenvolvimento dela.

É preciso criar condições para que as crianças avancem e aprendam

No plano informal, não é necessário quase nada para cumprir esse papel. O adulto só precisa estar disponível para ouvir, porque as crianças trazem muitas coisas interessantes, não são seres passivos. A família, entendida de maneira ampla, tem a obrigação de estar atenta, dar escuta, alimentar a criança física e intelectualmente através da interação. É sim papel dos pais encontrar espaços dentro de sua rotina onde possam incorporar a criança, ouvi-la e dar um feedback. Já na escola, com profissionais qualificados, a abordagem é outra, é necessário identificar a melhor forma de intervir e os adultos nesse caso têm responsabilidade profissional.

Portal Aprendiz:  O Laboratório foca sua pesquisa e trabalho no desenvolvimento da linguagem das crianças. Por quê?

Beatriz Cardoso: Hoje os estudos mostram que a linguagem é um dos lugares onde mora a desigualdade. Uma criança a partir dos 18 meses que teve um contexto empobrecido carrega uma defasagem no desenvolvimento da linguagem (que, consequentemente, tem impacto cognitivo) por muito tempo. Por esta razão, é muito importante valorizar a interação e garantir contextos produtivos para as crianças.

Felizmente, o assunto da primeira infância tem ganhado muito protagonismo e não é mais um tema de segunda categoria, o que fez com que tenhamos avançado, mas ainda aquém do necessário. Temos medidas governamentais, leis acerca da obrigatoriedade do ensino, das creches, mas ainda há muito a avançar. A neurociência também tem trazido para o centro da discussão o quanto o cérebro de uma criança pequena é um momento excepcional para o desenvolvimento.

O desafio é muito grande, mas mais do que divulgar as descobertas da ciência o empenho deve estar em valorizar o conhecimento pedagógico e o esforço por traduzir estes conhecimentos em ações pedagógicas de qualidade.

 Portal Aprendiz Nessa perspectiva, qual seria o papel do território no desenvolvimento dessas aprendizagens? Como a Cidade pode ser Educadora

Beatriz Cardoso: Esse é um outro campo que tem ganhado muita visibilidade, e há mais pessoas que entendem que educação não é só colocar a criança em uma boa escola e que a cidade é sim um grande ator, o cenário de nossas vidas e onde tudo acontece. É inevitável olhar para o território como um campo fértil que deve garantir os direitos da criança e do adolescente.

A linguagem é um dos lugares onde mora a desigualdade

Estamos tentando propor caminhos acerca desse tema, mas é preciso entender que a maioria das cidades tem questões que devemos compreender antes de se sugerir estratégias genéricas. Um exemplo é no que tange às questões de  segurança: é uma dimensão real que precisa ser considerada, cada cidade tem suas peculiaridades e características.

O Urban95 é um projeto muito interessante que procura problematizar e criar propostas em diferentes cidades do mundo para pensar a cidade sob a ótica da primeira infância. É necessário fazer uma transição para que possamos coletivamente recuperar esse espírito de uso do espaço público.