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Mapa expõe desigualdades sociais da cidade de São Paulo

No ano de 2016, os moradores do Jardim Ângela, extremo sul de São Paulo, tinham em média 55,7 anos ao morrer. São quase 25 anos a menos do que os moradores do Jardim Paulista, que faleceram em média com 79,4 anos. A variação de 43% na longevidade dentro da mesma cidade foi um dos dados alarmantes divulgados na nova edição do Mapa da Desigualdade da Cidade de São Paulo, lançado nesta terça-feira (24) na capital paulista.

A diferença brutal na idade média dos moradores ao morrer pode ser explicada pelas muitas vulnerabilidades sociais a que está submetida a população das regiões periféricas da cidade, como falta de acesso a água, saneamento básico e menor acesso a saúde, educação e ao emprego formal. Variáveis que, juntas, criam um ambiente desfavorável para quem está fora dos grandes centros da cidade.

O Mapa da Desigualdade da Cidade de São Paulo é divulgado desde 2013 pela Rede Nossa São Paulo, reunindo dados de fontes como o IBGE, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e a Prefeitura de São Paulo em quase 40 variáveis. O objetivo do levantamento é deflagrar as desigualdades dentro da mesma cidade para jogar luz às políticas públicas, distritalizando os indicadores. O Mapa produz também um “desigualtômetro”, que informa o tamanho da diferença entre o melhor e o pior distrito para o mesmo dado e, em 2017, conta também com um perfil geral da cidade.

A variação da longevidade por distrito seguiu o padrão das desigualdades da cidade reveladas pelo Mapa elaborado pela Rede Nossa São Paulo: quanto mais afastado do centro, piores os índices de um distrito. É nas periferias que incidem as maiores taxas de homicídio juvenil e de gravidez na adolescência (nesse caso, 26 vezes maior em Marsilac do que em Moema).

Marsilac também se destaca por ser a região da cidade com a menor remuneração média de emprego formal, com R$1287,32, valor quase 8 vezes menor do que no Campo Belo, região nobre da cidade, onde um trabalhador ou trabalhadora formal ganha, em média, R$10.079,98.

 Contextualização dos dados

Em 53 distritos da cidade não há centros culturais ou casas de cultura e, nesse aspecto, a Sé é 116 vezes mais equipada do que a região do Grajaú. Para a jornalista do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, Lívia Lima, esse dado deve ser relativizado. “Na verdade há muitos saraus e eventos culturais na região, mas não são contabilizados pelas fontes utilizadas.”

As informações vistas em contexto revelam mais nuances de uma realidade desigual, como no acesso às creches. Neste item, o melhor índice da cidade está em Guaianases (extremo leste), com 98,6% de acolhimento da demanda.  Também é nesse distrito o menor tempo de espera pelo serviço, com apenas 25 dias após a solicitação (em comparação, um morador da Vila Andrade tem que esperar 441 dias para conseguir uma vaga).

“Isso não quer dizer que em Guaianases existam vagas sobrando e a situação esteja sob controle. Vejo por minha própria irmã, que também mora na Zona Leste (Artur Alvim) e deixa a filha em uma creche particular, porque a pública fecha antes que ela consiga retornar do trabalho. Só por esse fato podemos relacionar mobilidade e creches”, acrescentou Livia Lima, que também relaciona o desemprego das mulheres com a demanda das creches.

 Desigualdades de gênero e raça

O perfil geral da cidade traçado pela Rede Nossa São Paulo no Mapa da Desigualdade de 2017 aponta que o desemprego de fato se mostra como um problema das mulheres, sendo elas as mais afetadas em todas as regiões da cidade, com destaque para os extremos Sul e Leste.

Distritalizar indicadores sociais também expõe desigualdades étnico-raciais uma vez que há maior presença da população preta e parda nas áreas periféricas, regiões que apresentam os piores índices e têm menor oferta de empregos formais. Nos extremos Sul e Leste da cidade, essa população chega a representar mais de 50% dos moradores.

“Os dados são conhecidos há anos, é preciso entender que se os pretos e pobres estão  nas periferias não é por descaso. Não é falta de política, pelo contrário: ja é a política”, criticou Lívia Lima.

Estagnação das desigualdades

A manutenção das disparidades é hoje a maior preocupação e alerta deixado pela Rede Nossa são Paulo, já que a análise da série histórica dos Mapas da Desigualdade não mostram avanços significativos ao longo do tempo. Pelos dados do “Desigualtômetro”, 16 índices melhoraram, 1 permaneceu estagnado e 12 pioraram, entre 2013 e 2016. O que pode parecer um cenário positivo esconde, na verdade, uma armadilha. “As reduções de desigualdade  muitas vezes se deram não porque houve um aumento na qualidade de vida, mas porque o distrito mais bem posicionado apresentou uma piora naquele indicador. É o reverso do que desejamos”, explicou Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo.

Para os organizadores da pesquisa, mudar esta realidade é possível, mas demanda políticas públicas de descentralização do orçamento, tributação progressiva e aprimoramento dos mecanismos de transparência. “Onde estão as desigualdades nós sabemos, agir sobre elas é uma opção política.”

Confira o Mapa da Desigualdade da Cidade de São Paulo de 2017.