Transformar a cidade

Em Madri, intervenção urbana transforma margem do rio em área de convívio público

Os rios conectam as cidades com sua história, topografia e geografia. Podem ser também espaços democráticos e de inclusão social, dando a pessoas de diferentes classes, origens e culturas as mesmas possibilidades de acesso a sua orla. Essa é a opinião do arquiteto Ginés Garrido, responsável pela revitalização da orla do rio Manzanares, em Madri, um projeto que transformou uma área de rodovias em um dos maiores espaços de convivência da capital espanhola e reconectou a população ao seu patrimônio natural.

Em passagem pelo Brasil, o arquiteto espanhol compartilhou a experiência do projeto Madrid Río, que tornou subterrâneos seis quilômetros de avenida e devolveu a orla do Manzanares à população, criando parques, quadras esportivas e uma praia urbana. Um projeto de fôlego, mas que, nas palavras do arquiteto, teve como maior desafio “fazer a população acreditar que a mudança era possível.”

Área degradada

Antes da intervenção, o rio Manzanares era apenas um detalhe na paisagem

Antes da intervenção, o rio Manzanares era apenas um detalhe na paisagem

Prefeitura de Madrid

Até 2005, as margens do Manzanares eram as pistas da rodovia M-30, por onde passavam diariamente cerca de 200 mil carros. No labirinto de vias expressas e pontes construídas nos anos 70, o rio nada mais era do que um detalhe na paisagem urbana. Ao redor, um número cada vez maior de pessoas vivia em condições precárias, por conta do crescente ruído produzido pelo tráfego de automóveis e pela falta de equipamentos públicos.

Foi quando a prefeitura de Madri resolveu dar outro sentido àquele espaço, priorizando outros modais que não o individual motorizado. Por meio de um concurso, o projeto coordenado por Garrido foi selecionado e, seis anos depois, com um investimento de  5,1 bilhões de euros e enfrentando resistência da opinião pública, as obras foram concluídas.

Agora, orla do rio Manzanares, em Madri, tem mais do que apenas rodovias

Para Garrido, o diferencial do projeto foi poder realizar uma leitura global do rio Manzanares. “Nós percebemos que era necessário entender todo o curso do rio, não apenas o trecho que passava por Madri”, relembra ele, explicando que a ideia era conectar as pessoas, assim como aquele curso d’água conectava diferentes regiões.

O Manzanares não é um rio de grandes extensões, nascendo a 70km ao norte de Madri e com foz 20 km ao sul da cidade, mas ganha destaque por estar em uma região seca, com poucos rios e pouca chuva. Essas características foram um desafio extra para um projeto que visava deixar a cidade mais verde, apesar da barreira climática. “Nesse sentido, é mais fácil realizar esse tipo de obra em São Paulo, por exemplo, onde chove muito”, pontua o arquiteto.

Em passagem pelo Brasil, Ginés Garrido mostra o antes e depois do projeto em Madri

Em passagem pelo Brasil, Ginés Garrido mostra o antes e depois do projeto em Madri

Nana Soares / Portal Aprendiz

Vontade política e opinião pública

Os obstáculos não foram só climáticos: em um primeiro momento, a população da cidade era contra a obra. Garrido admite que a comunicação sobre os objetivos de uma enorme e duradoura intervenção urbana deveria ter sido melhor implementada. “Com a construção dos túneis, a percepção era de que o transporte por carros seria priorizada”, exemplifica ele. Para tentar corrigir essa falha no diálogo com os cidadãos, o coordenador relata que a equipe abriu-se às demandas e buscou absorvê-las na medida do possível. Os equipamentos sociais e esportivos hoje presentes nas margens do Manzanares são um exemplo disso e constituem uma reivindicação dos moradores da região.

No verão, a orla vira uma praia urbana em Madri

“A população de Madri (e especialmente a do bairro) foi muito paciente, pois suportou por anos uma obra que não entendia muito bem”, avalia ele, embora classifique a rapidez na entrega dos equipamentos (seis anos) como elemento primordial para a mudança da opinião pública.

Garrido resalta que uma obra desse porte não pode ser empreendida sem os cidadãos, mas chama a atenção também para o restante do tripé: a gestão pública – “que precisa ter determinação política, coragem e ousadia para realizar uma intervenção desse porte”; e as equipes técnicas, de acordo com ele, “frequentemente desvalorizadas e mal pagas, mas que guardam saberes únicos sobre a cidade”.

Rio: espaço público

Hoje a região tem áreas livres e de convívio que se estendem por 253 mil metros quadrados. Há 17 áreas de recreação infantil, pistas de skate, quadras esportivas, pistas para corrida e escalada, espaços para parada e convívio social e muita oferta de transporte público, além de uma praia urbana no verão. O coordenador do projeto destaca também as avenidas que, com a criação dos túneis, puderam tornar-se grandes espaços verdes. “É uma construção artificial, mas que nos lembra o que somos e o que queremos ser e priorizar”, justifica ele.

O projeto Madrid Río transformou radicalmente a paisagem da região em Madri

Garrido defende também que quanto mais espaços públicos há em um país, mais democrático ele é, sendo possível criar novos vínculos com os rios em quaisquer cidades. “É claro que [O Madrid Río] não foi fácil, só foi possível porque houve vontade política e disponibilidade econômica. Madri também é uma cidade menor, o que simplifica alguns processos”, argumenta, destacando o projeto como uma nova referência para a Espanha.

“Nosso objetivo foi, desde o primeiro dia, que os cidadãos pensassem naquele espaço como feito para eles, como um lugar em que era permitido se apropriar.”