Transformar a cidade

Festival de rua valoriza diversidade cultural do Bom Retiro

A chuva fina do último 21 de outubro não impediu que mais de 100 pessoas passassem pelo Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, para apreciar as atrações que marcaram o encerramento do 2º Festival de Rua Que Bom Retiro, que aconteceu entre os dias 18 e 21 de outubro, ocupando diversos espaços do bairro localizado na região central de São Paulo. cenageral Construído de forma colaborativa por mais de 20 organizações da região, entre elas escolas, serviços sociais, museus, organizações e espaços culturais públicos e privados, coletivos migrantes e urbanos, a versão deste ano trouxe a reflexão “Qual é o Bom Retiro que queremos?, para jogar luz aos desafios e complexidades do território, assim como fortalecer os valores comunitários entre os agentes que integram a Rede Social Luz – Bom Retiro.

“Os festivais de bairro são sempre uma ótima forma de encontro, convívio e socialização das pessoas que vivem nos bairros. Para as mulheres da Luz foi mais uma forma de dar voz a mulheres que são excluídas e invisíveis aos olhos de todos”, apontou Gabriela Lopes, uma das integrantes da ONG Agentes da Cidadania, que atua junto às Mulheres da Luz. criancas
Ao todo, foram mais de 40 atividades gratuitas, organizadas durante as reuniões da rede que ocorreram desde junho deste ano. As atrações incluíram a realização de um seminário sobre migração e educação, visitas a museus, roteiros pelas ruas, oficinas, apresentações artísticas, cinema a céu aberto e rodas de conversa. Os organizadores estimam que as atrações chegaram a cerca de 300 pessoas. meiofio

“O evento permite construir conjuntamente uma proposta de intervenção no território,  visando repensar nossas práticas e promover um trabalho que, de fato, proporcione a integração da comunidade, acesso aos conhecimentos e saberes e vivências que promovem a capacidade crítica, em um verdadeiro convite à transformação”, reflete Meire Abreu, gestora do Serviço de Atendimento Social às Famílias (SASF- Bom Retiro).

Equipamentos de portas abertas

O Museu de Saúde manteve suas portas abertas durante 12 horas em decorrência do evento, que se encerrou com a projeção de dez documentários produzidos pelos jovens do Instituto CRIAR de TV, Cinema e Novas Mídias. Um debate com as lideranças históricas da região, como Cleone Santos, do Movimento Mulheres da Luz e Nelson da Cruz Souza, morador da Ocupação Mauá (São Paulo-SP) e coordenador do MMRC (Movimento de Moradia da Região Central), ofereceram aos adolescentes um panorama sobre as questões do bairro. migranto

Mulheres da Luz

O Mulheres da Luz é um movimento de acolhimento destinado às mulheres que se encontram em situação de prostituição e que trabalham no Parque Praça da Luz e arredores. Fundada por Cleone dos Santos, que também já esteve nessa situação, o Mulheres da Luz possui uma sede dentro do parque e funciona quatro dias por semana (de terça a sexta-feira), realizando oficinas, palestras sobre prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e/ou gravidez na adolescência. Além disso, realiza a conexão entre as mulheres e os serviços de saúde, colaborando no encaminhamento para as especialidades médicas.

“O festival impulsionou a saída dos jovens de dentro do CRIAR para as ruas do Bom Retiro e promoveu um importante espaço de divulgação de seus trabalhos, uma vez que eles puderam ver suas obras expostas em um telão para um público que foi além de seus familiares. Ao trazer um cineclube, o festival remonta às tradições antigas de clubes operários e movimentos artísticos e culturais que exibiam filmes desta maneira”, relatou o educador do instituto e curador dos filmes, Daniel Perseguim.

Intersetorialidade

Para a diretora do Museu de Saúde, Josiane Oliveira, a realização do festival possibilitou uma maior interação entre organizações de diferentes setores, convocando-os a pensarem novas estratégias de aproximação com o território. “Cada encontro de articulação da rede propiciava uma nova rede em potencial, e esse efeito é fundamental para dar consistência a cada um de nós que atuamos no Bom Retiro. Com certeza ajuda a melhorar as nossas práticas e a nos situar nessa trama rica e complexa que é esse território.”

Durante a semana, aconteceram atividades e visitas gratuitas também à Pinacoteca, Arquivo Histórico Municipal, Memorial da Resistência e Museu da Língua Portuguesa, que realizou uma exposição na estação da Luz com as receitas de famílias brasileiras e imigrantes que residem na região. Para o grafiteiro Waldir Grisólia, esse “é um evento que resgata valores importantes da comunidade e que também abre os olhos para a realidade do entorno, ao mesmo tempo em que coloca os moradores como protagonistas de suas histórias”.

Projeto Sabores e Saberes – memórias que atravessam tempos e espaços

As receitas foram colhidas durante o processo de realização do projeto “Sabores e Saberes – memórias que atravessam tempos e espaços”, lançado em forma de livro e documentário no último dia 18 de outubro, durante o Seminário Educação e Migração, da Cidade Escola Aprendiz. A iniciativa é da UBS Bom Retiro, em parceria com três unidades de Educação Infantil e organizações sociais que atuam no bairro. Acesse o PDF do livro na íntegra.

Bom retiro migrante

Marcado por fluxos migratórios desde sua fundação, o Bom Retiro possui hoje mais de 13 mil imigrantes de diversas nacionalidades. Levando-se esse dado em consideração, o festival trouxe ao público a performance Migranto e uma roda de conversa convidando as pessoas para o Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas, que acontece em novembro, em São Paulo.

Com um sarau composto por poetas brasileiros e migrantes, o Coletivo Ecos Latinos também marcou presença no festival com uma leitura coletiva do livro “Histórias que se cruzam na Kantuta”, do coletivo Sí, Yo Puedo.

“O festival se firma como um dos eventos mais relevantes do calendário do bairro de Bom Retiro, e também para nós do projeto Ecos Latinos, pois foi muito importante poder compartilhar a literatura latino-americana e imigrante neste festival. Foi um momento de fortalecimento da cultura e da arte em São Paulo, principalmente neste bairro, onde a população local é formada por muitos imigrantes”, avaliou Víctor Gonzales, imigrante peruano e fundador da iniciativa.

A Equipe da Base Warmis – Convergência das Culturas, formada essencialmente por mulheres imigrantes em São Paulo, participou do Festival com o grupo Lakitas Sinchi Warmis. “A  participação da Warmis nesse evento foi importante para ocupar o espaço, compartilhar culturas, promover o acesso à cidade e dar visibilidade ao tema das mulheres imigrantes. Esse tipo de evento deveria acontecer mais vezes, para que seja um assunto realmente difundido entre os brasileiros e população migrante”, apontou Lena Amano, uma das integrantes do coletivo.

Enquanto Aline Alves, moradora da região noroeste de SP, prestava atenção às discussões em roda, seu filho Renato, de 6 anos, andava curioso pelo museu, perguntando tudo e afirmando que as instalações do espaço se assemelhavam a um castelo, imagem que ganhou forma mais tarde, durante a oficina de desenho realizada pelo Espaço Fazedoria.

“Pra mim, foi muito legal o trabalho da pintura e desenho. O meu filho amou conhecer o museu da saúde que,  de tão grande, na cabeça dele se tornou um castelo. A história dos imigrantes contada naquele livro também foi  muito importante,  pois é a história da maioria de nós. Eu e minha família amamos participar de tudo isso.” tUOV