Aprender na cidade

Zonas Livres de Leitura democratizam acesso ao conhecimento

Imagine uma biblioteca digital gratuita. Um acervo de mais de 100.000 títulos diversificados e em vários idiomas instalado em seu celular ou tablet. Nessa biblioteca, não há cartões de acesso nem registro de seus hábitos de leitura, há apenas um cadastro inicial. Seus dados são protegidos e não há publicidade nem nada que interrompa sua leitura.

Por um mês, os cerca de 4 milhões de habitantes da Croácia viveram essa realidade, com a implementação pioneira das “Free Reading Zones” (“Zonas Livres para Leitura”, em tradução livre). Este é um conceito formulado pela editora croata Mirela Roncevic, especialista nos novos potenciais de leitura trazidos pelo meio digital e coordenadora do projeto No Shelf Required, que financiou o projeto piloto.

As “Free Reading Zones” – ou FREZ – são áreas (que podem ter a extensão de um único restaurante ou até um país inteiro) em que a leitura é livre para qualquer pessoa, bastando baixar um aplicativo para acessar o acervo. Nesse sistema, o usuário faz download do app (que funciona com geolocalização), se cadastra, e já tem acesso imediato aos livros, podendo inclusive fazer download para leitura offline. É totalmente gratuito para quem usa, tendo apenas uma mensagem de boas vindas oferecida por quem o financia.

“A ideia de bibliotecas não é nova, mas há muitas regiões em que o acesso aos livros é limitado e é para isso que surgem as Free Reading Zones: para eliminar qualquer barreira de acesso aos livros e dar ao usuário o poder de escolha”, explica Mirela, afirmando que as FREZ são sistemas em que todas as partes envolvidas ganham.

Embora gratuito para o usuário final, o projeto garante que os autores e editoras continuem recebendo por seu trabalho via financiadores. “Disponibilizar um acervo tão grande e honrar os autores têm custos, a questão é que ele não é repassado ao leitor”, pondera a editora croata. O modelo estabelecido até agora foi de remunerar não a cada download, mas a cada leitura das obras. Um diferencial é que o valor é pago mesmo para leituras parciais, sendo calculado de acordo com a porcentagem lida.

Primeiras experiências

A semente das Free Reading Zones brotou pela primeira vez nos Estados Unidos, onde Mirela mora há mais de vinte anos. Uma empresa de e-books chamada Total Boox queria disponibilizar seu acervo para os usuários das bibliotecas parceiras. Mirela tornou-se responsável pelo projeto e viu o potencial de democratização da leitura trazido por ele.

No início, o modelo tinha as bibliotecas como financiadoras, em uma proposta de transformação radical de seus papeis na comunidade. “Esse modelo aniquila completamente a ideia de comprar conteúdo e passar a tê-lo como propriedade, algo muito estrutural no modelo atual. Em vez disso, propunha que elas fomentassem o acesso a leitura”, narra ela em seu livro “Free Reading Zones”, no qual relata a experiência. Por propor uma mudança tão estrutural, foram poucas as bibliotecas que abraçaram o projeto. “Então pensei: por que as bibliotecas são as únicas organizações a pagar por isso? Por que não todo espaço público ou privado que deseja fomentar a leitura?”

Croata, Mirela enxergou em seu país natal as características perfeitas para a implantação das zonas livres de leitura, dada sua extensão territorial, população e outros índices culturais. Depois de estruturar o modelo de negócio e aperfeiçoar as FREZ, levou o acervo já constituído com a Total Boox para o projeto-piloto no país europeu, a ser implementado no Velvet Café – um centro cultural da capital Zagreb. Durante um mês, o café local foi uma área onde os livros podiam ser lidos livremente.

 Croácia: país livre para leitura

Com a experiência no Velvet Café, ficou nítido que a ideia agradava a população croata. Então, em 5 de dezembro de 2016, o país europeu tornou-se um território livre para leitura, adotando a FREZ por um mês. O financiador foi o No Shelf Required, da própria Mirela, que o fez para demonstrar o potencial das Free Reading Zones e estimular que, ao fim do período, governos e empresas continuassem a sustentar a ideia.

Na primeira semana, 24 mil pessoas se registraram no aplicativo “Croatia Reads”, que disponibilizou um acervo de mais de 100 mil livros à população. No mesmo período, foram 136.000 downloads de e-books e quase 24 mil leituras, a maioria em inglês, e que custaram cerca de 30 mil dólares.  No total, foram 33 mil pessoas cadastradas no aplicativo entre 5 de dezembro e 5 de janeiro de 2017.

Apesar das conversas e negociações com o governo e com instituições privadas, o projeto ainda não teve continuidade após o fim da experiência piloto, mas deve seguir em proporções menores, abarcando o perímetro de empresas ou cidades de pequeno porte, que continuam demonstrando interesse na iniciativa. “Sigo esperançosa que o Croatia Reads vá inspirar gestores a permanecerem abertos à ideia da Croácia como uma biblioteca virtual gratuita”, afirma Mirela.

Segundo os cálculos da idealizadora, seriam necessários cerca de 800 mil dólares anuais para custear o programa na Croácia – incluindo aí os 17 milhões de turistas que visitam o país e que também teriam acesso à FREZ, o que ela considera um custo muito baixo comparado aos benefícios trazidos. “Se eu pudesse escolher o patrocinador, seria o Estado, afinal de contas é dele a responsabilidade de promover educação e leitura no país, mas não acho que deva se limitar a ele.  Empresas, ONGs e quaisquer outros patrocinadores são bem-vindos, todos vão seguir as mesmas regras e, no fim, quem tem que se beneficiar é a população. Isso é inegociável”, defende ela.

 Multiplicação da experiência

O aspecto mais enfatizado por Mirela Roncevic quando fala das FREZ é o acervo ser o mesmo para toda a população. Além disso, a editora frisa a simplicidade do modelo, que permite sua replicação em qualquer lugar.

No entanto, ainda há a inevitável barreira do acesso tecnológico. No Brasil, por exemplo, apenas 28% das pessoas das classes D e E acessam a internet, enquanto na classe A esse número chega a 95%, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2015. A criadora das Free Reading Zones reconhece essa dificuldade, mas acredita que ela não pode ser um empecilho para a implantação do projeto.

“Por aqui também tivemos dificuldades: menos de 10% dos cidadãos têm Ensino Superior e há mais de mil ilhas em nosso território, locais onde o acesso a bibliotecas é bem mais escasso”, pondera. “Mas percebemos que a FREZ aumenta o hábito de leitura das pessoas”, completa Mirela, identificando que a pequena extensão da Croácia permitiu que a experiência fosse realizada em todo o território.

O retorno trazido pelos usuários também mostrou que o Croatia Reads foi de fácil navegação e não houve grandes dificuldades para acessá-lo, mesmo entre quem tem menos afinidade com a tecnologia. “Meu ponto é que você precisa criar as condições para que as pessoas leiam e então deixá-las livres para seguirem seu caminho. Eu sei que isso parece idealista, mas temos que começar de algum lugar.”